sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Recesso :o)

A leitora- Espanha (2005)
Carmen Varela


ABRAÇOS MEUS QUERIDOS

ATÉ

16/01/2012

sábado, 24 de dezembro de 2011

"Para isso ...lembrar e ser lembrados




Alegria e coragem sempre ,sempre, sempre.
Abraços a todos:  amigos, leitores, escritores
(aqui carinhosamente chamados de escrevinhadores)
gratíssima
sueliaduan


Escrevo para não enloquecer definitvamente,

e por acreditar que técnica e exercícios saõ fundamentais para o nosso aprimoramento na arte da escrita



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A lua me contou...

Noite quente...sentia a maciez da areia sob meus pés, ouvia o barulho do mar, mas estava sozinha.
Foi quando olhei para o brilho da lua e então começamos a conversar...trocamos confidências, rimos, choramos, enfim, aproveitamos a noite!
Ficamos alí na praia, sentido o cheiro salgado que o mar nos enviara para perfumar a conversa e criar um clima mais agradável, o que muito lhe agradecemos.
Todos os problemas foram gradativamente diminuindo, toda a sabedoria da minha amiga me levou a pensar que tudo o que realmente importava era simples, que eu precisava de tão pouco para ser feliz e tranquila, e essa leveza toda me fez voar!
Voei pela noite no mar, depois quis mergulhar em seus domínios sem pedir licença e senti seu frio, seu poder. Subi e voltei para a noite iluminada que minha amiga me proporcionava.
Estava tão leve e satisfeita de ter confidenciado meus mais íntimos segredos a alguém que podia confiar plenamente...
Acordei desse sonho, a experiência de sensações, toda a sinestesia me fez mais atenta aos meus sentidos, e hoje tudo tem uma nova textura, cheiro, cor...aprendi a ver o mundo através dos olhos da lua.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Entre o meu e o seu olhar uma ponte de estrelas"


Então olhava para mim. Erguia um pouco o olhar com um jeito de quem procurava alguma coisa. Não sei bem definir o que era. Era só uma vaga sensação mesmo e que perdura até hoje. Nossos olhares encontravam-se e o silêncio reinava soberano. Não nos falávamos mais por dias, semanas, meses. Não que antes houvesse uma conversa acirrada. Nunca. Mas ríamos muito juntos, nos entendíamos perfeitamente. Por isso, então, esse olhar exerceu tanto poder sobre mim. Uma mistura de admiração alegria e infinito amor. Quando criança ficava horas olhando para esses mesmos olhos, e na minha inocência de menino pensava que era um pedacinho do mar.

Os olhos do meu pai são azuis da cor do mar, eu dizia feliz. O mar é verde retrucava Beatriz. Bravo eu gritava, na rua, na escola para todos os amigos:
- Azul, azul, azul e azul. Ria muito

Homem calado pai dizia tudo só com o olhar, janela da alma como disse um grande pintor uma vez. Eu só vim saber disso anos depois em minhas noites de leituras e insônia, mas sempre suspeitei. Gostava de olhar longe o campo, o milharal. Enxergar pai lá longe calmo, sereno. Uma imagem que guardo até hoje. Ele e a semente uma coisa só. Os dois plantados. Vivos para sempre. Seu olhar sobre mim, seu silêncio, meu crescimento. Brilho de estrelas

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Um modo particular de ver o mundo"

M.C. Escher
(1898-1972)

Nossa falível percepção

Mesmo com um único olho você pode perceber profundidade. A experiência da vida em noso meio ambiente, com nosso deslocamento frequente de um lugar para outro, faz-nos perceber vivermos em três dimensões. Mas há muitas outras "pistas" para que decodifiquemos o mundo, como  a perspectiva. As coisas mais afastadas nos parecem menores, um princípio simples, mas que foi usado nas artes visuais a partir do século XIV.

Às vezes, porém, enganamo-nos em nossa percepçao, tentando, por exemplo, converter para três dimensões coisas que são planas, bidimensionais. Na gravura acima, a água parece subir pelo aqueduto. Apesar da colocação ilógica das colunas, a ilusão óptica nos dá uma irresistível impressão de profundidade, no caso, totalmente falsa. As sombras ajudam a criar a ilusão, transmitindo a idéia de solidez e profundidade reais.

A conclusão inevitável é a de que o mundo não é exatamente o que vemos, mas o que "lemos". Interpretamo -lo a partir dos nossos (pobres) cinco sentidos, que a todo momento podem nos pregar muitas peças. A todo momento podermos ter enganos ( alguns muito sérios) perceptivos. Julgamos ver uma coisa e vemos outra, pensamos ter ouvido alguém e não era nada, batemos no ombro de uma pessoa achando ser um amigo e quando ela se vira...

Nosso cérebro não tem condições de julgar com exatidão se sonhamos uma coisa, se ouvimos, se realmente vivemos aquilo. Enfim, somos animais extremamente falívies em matéria de percepção. Muitos animais, incluindo aí aves e insetos, são muito melhores que nós neste exercício, mas conseguimos ,pelo  uso da nossa inteligência e razão, compensar as nossas graves deficiências sensoriais.


 PROPOSTA

DATA DA POSTAGEM 19/12/2011

Construir uma descrição subjetiva, em no máximo 20 linhas, usando figuras que você conheça, tais como comparações, metáforas, aliterações, assonâncias, sinestesias.

Títulos "sugeridos"
Entre o meu e o seu olhar uma ponte de estrelas.
Cuidado, o luar está filmando!
O sol no olho da lua.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

De Caminhos e Imagens, o Reencontro


No caminho passou de tudo fome, frio, medo e algo que nunca tinha experimentado em toda sua vida: — tristeza. Uma dorzinha aguda que começava nas costas, se é que podemos chamar de costas, e culminava forte no coração mudando seu ritmo natural e descompassando todo seu ser. O rabo pendia e, Piloto sentia todo seu peso que quase tocava o chão. Mas nem por um momento pensou em desistir de sua busca. Há tempos que partira da velha cidadezinha abandonando aquele que tinha sido seu verdadeiro companheiro, e, agora de volta era preciso percorrer cada beco, cada praça, cada cantinho e ,quem sabe, por conta do inexplicável , esse mistério do encontro, traria ali na sua frente seu dono.

Um cansaço tomou conta do seu corpo, relembrou todo o trajeto percorrido, e das crueldades sofridas – pedradas- chutes, empurrões, mas era um cão otimista, de bem com a vida=. E a última imagem que tinha na mente era a de um sujeito que o protegeu da chuva, abaixando-se delicadamente com o guarda- chuva aberto sobre ele. Essa imagem encheu-o de coragem e mais uma vez ele acreditou na possibilidade do reencontro. Foi com esse pensamento que Piloto avistou no finalzinho da rua poeirenta seu antigo dono, sabia que era ele, sentiu seu cheiro inesquecível, reconheceu a capa preta que servia de manto pra ele nas noites que ambos saiam para passear. E com o coração em disparada e o rabo numa demonstração de alegria, no seu muito balançar, correu ao seu encontro,pois tanto um quanto o outro nunca esqueceram da arte de viver .

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Laços quebrados

Piloto... meu dono me nomeou assim pois sempre achava o caminho de volta, por mais longe que fosse, seu cheiro me encontrava onde estivesse, desde filhote fomos muito amigos.
Um belo dia olhou-me e disse que tinha que ir embora, achara um trabalho na cidade grande e aproveiraria a aportunidade, mas que não me esqueceria e voltaria para me buscar assim que pudesse.
Fiquei esperando, olhava todos os dias as pessoas descendo do ônibus na rodoviária, e nada... anos se passaram e meu dono não voltava, fiquei preocupado por algum tempo, mas ainda confiava em sua promessa!
Até que o tempo foi me fazendo lutar por mim, afinal, precisava sobreviver, comia o que conhecidos me davam, olhavam-me com pena, eu não gostava daquilo, mas tinha que me alimentar, tomava banho no rio, dormia na rua, era horrível, mas não havia outro remédio.
Bela manhã, acordei debaixo do banco da praça e então o vi! Meu dono finalmente havia voltado para a cidade, estava diferente, mas o cheiro não mudara...
Finalmente quando nos encaramos, percebi que estava melhor sem ele, aprendi a viver por mim, para as minhas coisas, enfrentar meus medos e não precisava mais dele.
Comprimentamo-nos e despedimos-nos com apenas um olhar, era tudo que nos restava, os laços estavam quebrados e sobrara apenas uma lembrança de um tempo que não voltaria mais.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"ESPAÇO, LUGAR MÁGICO"


NARRATIVAS - O ESPAÇO
O espaço tem a função de revelar ao leitor, através das descrições (sensações + julgamentos), onde a ação (enredo) se passa. O narrador traduz em palavras adequadas aquilo que vê/sente/ouve/toca/cheira: cores, formas, cheiros, gostos, sons. Enquanto, na descrição, dá-se exatamente o contrário: o tempo é o grande privilegiado, e o espaço quase sempre um mero acessório decorativo.
Há vários tipos de espaço narrativo.
Cada um com suas peculiaridades.

Espaço decorativo: Na maior parte das narrativas o espaço serve de cenário, palco onde se desenrolam os acontecimentos...

Espaço funcional: Há narrativas, entretanto, em que o espaço determina a história, produz e modifica comportamentos...

Espaço hostil: Ambiente onde a personagem se expõe a riscos, aos azares...

Espaço afetivo: O espaço que desperta sensações “positivas” como calor, segurança, carinho...

Espaço psicológico: Nas narrativas psicológicas, em que predomina o fluxo mental, o tempo quase não é notado, a ação é retardada, o enredo se desenvolve em função dos pensamentos da personagem...
E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objeto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior”
Clarice Lispector. A imitação da rosa (p. 54)
                                             

A MUDANÇA
Carlos Drummond de Andrade.
Contos plausíveis


O homem voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente. A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era velhíssimo sem trato, que parou à sua frente. Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal, inconformado, procurava-o por toda a parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na terra mutante. Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de viver.

PROPOSTA

DATA DA POSTAGEM 21/11/2011

Mude o foco narrativo do conto “A mudança”, ou seja, relate, em vinte linhas no máximo, os fatos sob o ponto de vista da personagem Piloto. Coloque um título.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

HAIKAIS


Mar poluído.
Vazamento de óleo_
Ave imóvel.







Frutas maduras
Fartura no pomar
Sanhaço se farta.







Tiro criminal
Chão colorido de anil
Ararinha azul







Córrego limpo
Peixes em reprodução
Pescador feliz.








Fauna em fuga
Fogo na floresta
Animais morrem.








Calor intenso
Incêndio na mata_
Coala salva.




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À natureza que se encontra constantemente ameaçada.

Essa postagem é do Toninhobira- "repostei" por conta das outras postagens que tinham  "sumido"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dos desencontros - Haicais


Nossa amizade
cessa aqui
nesse trecho da estrada


Restou uns poucos traços
riscado ao acaso
no papel amassado


Segui por outro caminho
entre coisas
que não me tocam

Por um longo caminho
ando com a solidão
meu ar natural

Necessito da solidão
para recuperar o equilíbrio
ultrajado e angustiado

Quero ser
tão somente como os outros:
insignificantes

Bater o pé
no degrau de pedra e gritar:
Dane-se!

MLailin

domingo, 23 de outubro de 2011

Dos olhares - Haicais


O vulcão, o fogo, as cinzas.
Teu amor fogo brando.
Poucas cinzas.

A folha, a árvore, o pássaro
No campo os corpos, o instante
Vôo infinito

A ave, o alimento, o ciscar.
Comer palavras é coisa dos homens.
Coisa do meditar.

A neve, a água, o frio
Teu corpo próximo
Ebulição.

Há campânulas roxas, brancas, amarelas.
No teu olhar há infinitas cores.
De doces amores.
                              
sueliaduan



Matsuo Basho –O Mestre do HaiKai
Detalhe do Retrato de Bashô por Watanabe Kaz


Matsuo Basho (1644-1694) foi o poeta mais famoso do período Edo no Japão, mestre criador do Haikai.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Poesia - Haikai


 Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
Matsuo Basho



Quietude
O barulho do pássaro
Pisando em folhas secas
              Ryushi


Forma de poesia japonesa surgida no século XVI e ainda hoje em voga, composto de três versos, o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano. Foi introduzido no Brasil em 1936 por Guilherme de Almeida.

Com fundamento na observação e contemplação enfatizando o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano. O mais tradicional poeta deste estilo é Matsuo Basho, monge Zen que aperfeiçoou o estilo e divulgou suas obras no final do século XVII.

Em época mais recente, Paulo Leminski explora novamente o hai-kai, adaptando-o, segundo a tendência do poema moderno, ou seja, sem rima. Como fazer hai-Kai de acordo com Leminski: Temos a fórmula do conteúdo, que é ao que os poetas contemporâneos obedecem ao invés da contagem de sílabas.


DATA DA POSTAGEM 24/10/2011

PROPOSTA POESIA HAIKAI

Crie cinco poemas

Escolha temas simples: natureza, estações, tempo, aves...
O primeiro verso expressa algo permanente, eterno.
O segundo introduz uma novidade, um fenômeno.
O terceiro e último, é a síntese

E observe as “dicas” de Leminski

domingo, 25 de setembro de 2011

"De olhares e lençóis"


Não sei se começo pelo de dentro ou de fora, pela gravata ou pelo paletó. O que eu sei, com uma verdade pertubardora, é que aquela imagem ficaria retida na minha mente para o resto dos meus dias. A maneira com ela abria os botões da blusa e a delicadeza com que colocava o broche sobre o criado mudo foi o rito de passagem na minha mocidade.

Olhar seu corpo nu sobre os lençóis, o reflexo do sol sobre o broche, formando em suas pernas desenhos de tons entre o âmbar e verde claro, iluminava minhas tardes naquele finalzinho de Setembro. Eu era o mais feliz dos homens, então. Outros momentos, outros corpos seguiram-se a esse. Mas, em nenhum, cores e pernas entrelaçaram-se com tamanha harmonia.

Curioso por natureza e pesquisador por profissão, não tive sossego enquanto não voltei, trinta anos depois, à bela cidadezinha perdida entre planaltos e planícies. As pedras brancas espalhadas por todo o local e uma das primeiras catalogadas em minhas pesquisas serviam de pretexto para revistar o museu e, quem sabe, descobrir o paradeiro daquela que tanto prazer me deu.

Qual não foi minha surpresa ao adentrar no museu, deparei-me com uma luz entre o âmbar e o verde claro, coração acelerado, andei lentamente em direção aos raios luminosos, e lá estava ele, alojado sobre uma almofada azul, dentro de uma delicada caixa de vidro: — o broche . Perplexo, perguntei à moça do balcão que gentilmente contou-me toda a história. O broche tinha sido encontrado no sótão de uma casa, por volta de 1840, e passado de geração a geração, uma relíquia da Rússia czarista, e, olhando bem nos meus olhos, segredou: — Junto foram encontrados dois cadernos, infelizmente com letras ilegíveis, mas, em um deles, foi possível ler sobre um grande amor vivido. O povo aqui acredita em muitas histórias, o senhor sabe, e desde que o broche veio para cá, há quem diga que todas as moças que tiveram o privilégio de usá-lo viveram momentos inesquecíveis de prazer e amor.
O senhor acredita nisso, senhor...?
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Memórias de um sótão.

 
Imagem Google










Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando a medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível, algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens

Um apito solto no ar.

Passado alguns anos, numa manhã de Agosto, acordei mais cedo e preparava meu café, quando ouvi um barulho vindo do sótão. Pensando se tratar de algum gato, fiz um chamado tradicional bichim... bichim. , mas como resposta, apenas risos do meu pai, saindo do sótão com uma caixa de sapato escurecida pela fumaça do fogão à lenha da casa. Após lhe pedir a benção como tradição mineira, quis saber, por que ele tinha ido ao sótão naquela hora do dia. Mas ele apenas falou que estava à procura de uns papeis antigos. Tomamos café juntos e cada um foi para sua rotina.

Durante o dia no escritório, lembrava da manhã com meu pai saindo do sótão, e pensava como velho tem manias, que a gente nunca entende. Aquilo ficou martelando na minha mente, pois fazia tempo que ele não subia por lá. Quando voltei do trabalho, minha mãe relatou que o pai passou varias horas no quintal, remexendo na caixa velha de sapato e que ela vez ou outra, ouvia um apito vindo do quintal, mas que não identificava e ele sempre afirmava, não ter ouvido nada e que ela minha mãe, deveria estar ficando maluca.

No dia seguinte uma ligação urgente vinda de minha residência, o que me preocupou, vez que isto não era comum na família. Rapidamente segui para a sala e ao ouvir a voz de minha mãe, senti que algo não estava bem, em meio a um choro ela dizia, que o pai tinha saído de casa após minha saída, que tinha tirado algo da tal caixa e que não tinha voltado para o almoço como de costume. Sai pelas ruas com a cabeça pensando mil asneiras. Veio a lembrança do pai remexendo na caixa e pensei que ele poderia ter cometido um suicídio, de tanto esperar o tal aumento da Previdência, que ele aguardava por mais de 10 anos. Mas, não constava que o pai, tivesse arma em casa, muito menos naquele sótão. Lembrei de passar pela estação, onde ele sempre voltava para ver os trens de ferro e conversar com velhos amigos.

Ao aproximar da estação, ouvi um apito que não cessava como se estivesse na boca de criança em dia de festa. Quanto mais aproximava, mais era audível. Quando cheguei ao muro da estação, avistei pessoas olhando para a via férrea, levei um susto, mas de longe vi meu pai, com um apito brilhante na boca e soprando e acenando com as mãos para os trens que vinham em manobras. Um funcionário logo me disse que meu pai invadira a pista com o apito e não reconhecia ninguém. Corri até ele, o abracei retirando dos trilhos. Ele me olhou deixou cair uma lagrima e afirmou que apenas queria mostrar que estava vivo e podia comandar as manobras dos trens, mas que não estava louco.

No outro dia bem cedo, peguei o trem com ele e minha mãe e fomos para a capital onde ele fez vários exames comprovando sua sanidade mental. Que fora apenas uma crise emocional pela perda do irmão. Ele tirou do bolso o apito amarrado a um broche de Honra ao Mérito ao sair da clinica e falou que aquele apito atado ao broche, o acompanhava deste o dia da morte do irmão numa manobra naquela estação e que fora lhe dado como lembrança, mas o seu pai, meu avô, o havia escondido nesta caixa de sapato, para evitar lembranças emotivas, mas ao rever os objetos naquela manhã um filme passou na sua mente lhe empurrando para aquela estação.

De repente um sorriso abriu em seu rosto era o trem que chegava à estação para nossa viagem de volta.
E hoje para evitar alguma recaída, o apito atado ao broche fica com a mãe.

Toninho
21/09/2011.

Uma leve alteração no objeto da caixa e nos personagens.
Coisa desta minha minerice e os trens que povoam meus olhos e ovuidos.
Eu juro que tentei fazer um texto curto.(perdão Sueli)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Memórias de um porão.

Era um domingo nublado...vovó nos convidou para darmos os últimos arranjos na casa.
Mulher forte, não queria morar com nenhum dos filhos, apesar de todos a convidarem para suas casas, demorou admitir que após a morte do vovô há um ano, a casa ficou grande e vazia demais para que ela continuasse ali, resolveu então mudar-se para uma casa de repouso, junto com várias de suas amigas tão fortes e teimosas quanto ela, disse que lá ficaria bem, e não deu caso para discussões.
Chamou-me para ajudá-la com o porão, e quando chegamos lá, achei então uma caixa cheia de fotos que eu não conhecia.
Sentamos no sofá velho e ela então com um ar professoral começou a me contar a história da família... vi vovô orgulhoso em seu uniforme de praçinha da segunda Guerra, era claro seu orgulho de servir ao país, olhos jovens brilhantes, ela mostrou mais uma vez o anel comprado durante a guerra e o pedido de casamento, jóia italiana, coisa cara!
Mamãe em vária etapas da vida... menina travessa, com fita no cabelo, adolescente sonhadora, noiva feliz, grávida de meu irmão mais velho, e depois comigo nos braços.
Tios e tias também em várias fases, aquele balanço que tanto nos alegrou e despenteou nossos cabelos, vovô fez com tanto carinho e cuidado para que não arrebentasse.
Fotos do fogão à lenha sendo usado para cozinhar tantas ceias de Natal, tantos almoços de domingo...
Vovó ia me narrando cada etapa da sua vida de casada através daquelas fotos, era como um filme que não se movia, a energia para o movimento dele era a imaginação, então achamos uma dela ainda muito jovem, logo após o casamento, como era linda e era incrível sua memória, os detalhes narrados eram dignos de um livro auto-biográfico.
Histórias que não poderiam ser perdidas, conheci então um mundo novo, antigo mas ao mesmo tempo tão presente, aquele ar empoeirado do porão deu um toque todo especial à narração, para não dizer uma aula!
Mostrou que a vida apesar de dura, com 6 filhos e poucos recursos conseguiram formar uma família forte, de pessoas maravilhosas, e como era bom fazer parte daquilo tudo.
Família é algo que não escolhemos, mas são a nossa história, nossas origens, nos fazem o que somos.
Quando enfim terminou de narrar a última foto, nos abraçamos choramos... era difícil deixar algo tão importante, mas precisava ser feito.
Demos as mãos e não olhamos para trás, aquele domingo foi um recomeço para nós duas.
Pedi para ficar com a guarda das fotos, e com seu consentimento um dia escreverei um livro sobre sus memórias e será entitulado: Memórias de um porão.

domingo, 11 de setembro de 2011

Cruz de Ferro

Cruz de Ferro
“Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando à medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível,algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens”

Lembro que minha mãe chorou muito ao ler os cadernos e ver os retratos, mas não me permitiu examinar o que havia ali.
E, depois, assustado com a morte de meu pai, e com a discussão que minha mãe teve com meu avô Jörg, pai de meu pai, expulsando-o de casa, nem me lembrei mais da caixa.
Fora que eu me preparava para o meu Bar Mitzvá, no mês que se aproximava.
Agora, após o cerimonial de matzeiva de minha mãe, 38 anos depois, voltei para aquela antiga casa, para encaixotar as velhas coisas.
E encontrei aquela caixa de sapato, que havia anos estava esquecida por mim.
Dentro havia cartões-postais da Bélgica, Polônia, Vichy, Montpellier.
E também cartas dirigidas a pessoas que eu nunca ouvira falar.
Várias fotos de soldados, um deles muito parecido comigo, o mesmo sorriso do meu filho.
Ao ler os cadernos, descobri que eram diários de um soldado alemão.
Contavam sua empolgação ao começar na carreira militar, de como foi seu treinamento, suas primeiras batalhas. Tinha um começo cheio de expectativa e sonhos de um jovem rapaz, de sua bravura, como quando recebeu a 'Cruz de Ferro', mas, no decorrer dos meses, ia mudando os sentimentos, que passaram da dúvida ao mais completo desespero por suas tarefas, que anotava com torturantes detalhes.
E contava também de como foram seus planos para fugir da Alemanha, pois o Fuhrer não tolerava desertores, e se refugiar num país distante, chamado Brasil, onde morava um velho amigo de seu pai, Jörg, o qual o acolheria.
E contava também como, no navio que fugia clandestinamente, conheceu uma linda e jovem judia, chamada Esther, que perdera toda a família em Auschwitz,
E como se encantara por ela.
E como, a partir daquele momento, se decidira judeu.
Ele já conhecia todos os rituais, linguajar e costumes, pois aprendera a reconhecer judeus em seu tempo de soldado.
Com suas condecorações vendidas, menos a Cruz de Ferro, foi pagando sua estadia no novo país, como a moradia, as roupas e a circuncisão e o silêncio de um médico charlatão.
Casaram-se numa linda cerimônia, em que seu novo pai Jörg esteve presente para abençoá-los, e ele abrira um negócio de tecidos.
E depois de um tempo ele voltara a escrever contando que tivera um filho, e, já no final do segundo caderno, fazia esporádicas e rápidas anotações, sobre se era correto ele manter esses cadernos, e se um dia contaria sua historia a alguém.
Ao voltar dessa viagem no tempo, me sentia zonzo, desnorteado. A última coisa que sobrara na caixa era um antigo broche, datado de 1939. Era a Cruz de Ferro.
Eu, um judeu, era filho de um soldado nazista.
Filho da Historia.
Filho da Mentira.
Filho do Amor.
Meu pai nunca havia contado em vida, pois não suportaria o silêncio e o desprezo de minha mãe.
Ela realmente nunca mais falou sobre meu pai.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"O FASCÍNIO DAS NARRATIVAS"-

“O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Infinitas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver,enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.”
Daniel Pennac

CONSTRUÇÃO DE UM PROJETO DE TEXTO NARRATIVO

Em um texto no qual discute o processo de composição de seus contos Edgar Allan Poe destaca a importância, de antes de escrevê-los, determinar qual seria o fim pretendido para cada um deles. Poe via a escrita, de certa forma, como a execução de um planejamento previamente estabelecido e não concebia a possibilidade de dar início a um texto sem que soubesse como desejava concluí-lo. Era como se, a cada novo conto que pretendesse escrever, o autor procurasse, primeiramente, construir um projeto de texto.

Podemos, no caso da produção de textos narrativos, estabelecer alguns procedimentos que nos auxiliem a construir um projeto de texto que dê unidade ao trabalho como diferentes elementos narrativos e permita, ao mesmo tempo assegurarmos verossimilhança à história que pretendemos contar.


"Os campos de Honra"
Jean Rouaud.
FRAGMENTO:

O fragmento citado abaixo é parte da história de uma família contada por um narrador que “vasculha a memória”, buscando encontrar um sentido para a existência e decifrar um enigma cuja chave pode simplesmente estar guardada numa caixa escondida no sótão.

Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando à medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível, algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens

DATA DA POSTAGEM 26/09/2011

PROPOSTA


Imagine-se no papel do escritor e relate um dos episódios significativos da história dessa família. Sua narrativa deverá ser em 1ª pessoa, o episódio narrado deverá estar centrado em pelo menos um dos objetos guardados na caixa de sapatos (fotografias, cartões-postais, carta, um broche, dois cadernos).

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Piri


Porque a gente combinou de tomar café naquela pequena padaria de Piri à qual nunca fomos juntos, mas fomos em outras andanças, separados, e combinamos de antemão que não teríamos dinheiro para comprar outras coisas senão café, porque nos conhecíamos bem e sabíamos que não teríamos. E também sonhamos que você usaria aquela camiseta vermelha de sempre que tinha a malha boa e não acabava nunca, mesmo muitos anos depois, quando nos encontrássemos naquela pequena padaria de Piri, você ainda a teria e a usaria, embora um tanto que desbotada. “A tinta pode até sair, mas essa malha nunca acaba”, você disse. 

E a noite desmaiava dentro do meu estômago, a gente ora falava, ora só imaginava a pequena padaria como as coisas de Piri, toda enfeitada de doces caros e a gente rindo do pouco dinheiro que tivesse e mal daria para o café. A gente nunca que mudava, se eu estava mudando, era só de lugar, se você ficava, não era por muito tempo também porque a gente nunca que mudava aquele jeito de se mudar sempre, tal cigano. A gente ria na calçada do estrangeiro como riria em Piri, ria da nossa despedida se misturando com as coisas inventadas que estariam por vir. E o medo desmaiava em meu estômago, e se você perdesse a camiseta? E se não desse jeito de ir?

Por quê? Se a gente combinou de tomar café naquela pequena padaria, anos depois, você esteve ali com outra camiseta e outra garota? Por quê? Só para se vingar de mim? A gente estava certo, não estava? a gente nunca que mudava, nunca que deixava de se mudar, a gente nunca que daria certo assim. 

(Mas gosto de imaginar, todos os anos, no dia marcado, que me sento no banco da pequena padaria, peço um café e brindo: à Piri! E você se aproxima, sem um puto no bolso, com uma camiseta vermelho-desbotado e diz: paga um pra mim?)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"De Cheiros e Memórias"

 Cézanne

O cheiro do café. Minha mãe de costas, o perfume que exalava de seus cabelos encaracolados sobre os ombros, seus dedos delicados segurando o coador, coador de pano, e a voz grave de meu pai lendo poemas, são imagens que trago na minha memória, como um filme que fica na nossa mente para sempre. Ainda posso sentir o aroma que impregnava toda a sala.
Eram tardes silenciosas e somente a voz forte de meu pai preenchia todo o espaço. Ele, acabada a leitura, dizia: - é preciso ler também com o coração. Dizia isso com um sorriso largo balançando os ombros, uma mania entre tantas outras de seu jeito de ser. Feito ao poeta, seus ombros não suportaram o mundo. Tão belo, tão jovem.

Cheiro da morte. Morte do corpo. Cheiro da palavra viva que ficou em mim, transformou-se no produto do meu trabalho diário, prazer e alegria das minhas caminhadas literárias.
Outros cheiros seguiram -se a esse como deliciosa madeleine ao destampar o fluxo da memória: - os anos na Universidade, os grandes amigos que lá encontrei, as reuniões de estudo, os debates, as idéias, os livros.
Ato contínuo, memória ativada, sigo de lembranças em lembranças, o bar, o teatro, os envolvimentos, as lutas, o sonho. Filhos, família, nascimentos e mortes. Perdas e ganhos.

E, como disse o grande poeta: -
“De tudo fica um pouco... Fica um pouco de teu queixo No queixo de tua filha. Do teu áspero silêncio, um pouco ficou, um pouco... Se de tudo fica um pouco Mas porque não ficaria um pouco de mim? No trem que leva ao norte, no barco ,nos anúncios de jornal ,um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures?...”C.D.

Em mim, esse pouco se agigantou e, às vezes, sou toda memória.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sociedade Secreta




          Desde cedo ela sabia ser diferente.
          Enquanto criança brincava como qualquer outra criança de todas as brincadeiras de criança, conhecia todas as brincadeiras de roda, pique-esconde, polícia e ladrão, pega-pega. Diferentemente das outras meninas topava todas as brincadeiras tipicamente de meninos também e não admitia ser tratada diferente, empinava pipas, jogava bola, nadava em rios.
          Ela teve a sorte. Cresceu livre. Correndo em pastos, nadando em rios e subindo em árvores.
          E mesmo assim ela ainda sabia ser diferente.
          Certa vez a título de conseguir uma arma para domar os filhos em horas de aperto a mãe contou a história de um tal de "Homem do saco". Esse homem era um andarilho, não tinha casa, vivia sujo, barbudo e com os cabelos todo desgrenhado. O "homem do saco" era um homem mau, ele pegava as criancinhas que não se comportavam bem e enfiava-os dentro daquele saco. Nunca mais se tinha noticias da tal criança.
          Ao se deitar a menina ficou pensando no que tinha feito durante o dia, será que teria se comportado bem? Ouviu um barulho do lado de fora da janela. O que seria aquele barulho? Já era tarde a casa toda estava escura. Todos estavam dormindo. Acordou o irmãozinho e ambos foram olhar por entre os vãos da janela.
          O medo consumia, tremia, suava, o coração batia descompassadamente e chegava a ouvir o seu som em meio ao silencio mortal que habitava a casa. E lá estava ele. O temível "Homem do saco", em carne, osso e saco. E olhava para ela do outro lado da janela como se pudesse vê-la. E a menina observou, apavorada porém a curiosidade era maior e aos poucos o "Homem do Saco' foi ficando menos assustador e até um pouco mais simpático. Talvez ele não fosse tão ruim assim...
          Do muro no fundo do quintal que dava para um pasto, conseguia-se enxergar um córregozinho, certa vez, depois de um pé-d'agua passageiro, o sol estava de volta e um arco-íris riscava o céu, a mãe dizia que lá no pé do arco-íris havia um pote de ouro guardado por duendes. Correu para o quintal, virou uma lata de ponta cabeça, subiu sobre ela e ficou contemplando o córrego, lá, era lá o final do arco-íris. E lá estava o pote de ouro, ele era grande, e irradiava uma luz amarela e seus guardiãos estavam todos apostos, guardando seu valioso conteúdo. Ao redor do pote existia uma pequena cidade. Ah essa cidade provavelmente só aparecia em dias de chuva. Era como a névoa.
          Sua imaginação vagou, sem rumo, sem porto, sem limites e de um salto já era adolescente.
          E nessa fase acreditou nos príncipes, esses se transformavam em sapos. E logo depois outro se apresentava, outros castelos se criava e mesmo com toda a semelhança com as outras sonhadoras, a menina moça ainda assim era diferente. Sua dor se confundia com a dor de suas personagens favoritas.
          Passaram-se os anos e de sonhadora encontrou sua diferença em mulheres fortes e encontrava seus ideais em novas filosofias, e o abismo abria-se cada vez mais.
          Certa ocasião acreditou que o problema era ela.
          Somente ela conseguia ver beleza traduzida em palavras nas coisas mais banais, ninguém mais parecia notar o que a encantava.
          E a mulher que quando menina viajava nas leves asas da imaginação hoje estava acorrentada dentro de si própria. Converteu em silêncio tudo o que  tinha a dizer.
          Os livros traduziam esse silêncio, supria suas carências e era sua companhia constante. E com os livros começou a conhecer sua diferença e acalentar a idéia que talvez pudesse encontrar seus semelhantes.
          E  conheci o significado da diferença.
          Os amantes dos livros, das histórias e das palavras formam uma sociedade secreta. E seus membros se reconhecem onde quer que estejam.