sábado, 28 de julho de 2012

Verde como o mar



Tirem as algemas. Quer água? Não. Tem certeza? Certo, vamos ver se eu entendi direito, Sr. Adalberto. O senhor disse que estava parado uns tempos na casa de sua amiga. Como é mesmo o nome dela? Conceição. Ah, é isso. Conceição. Tereza era sua esposa, correto? Respiração descompassada, mãos trêmulas, Adalberto, olhou firmemente para o delegado e disse: — Faz muito, muito tempo mesmo que não vejo a Tereza, estávamos morando em casa separada. Sr. Adalberto não estou perguntando nada. Claro, claro, só estou querendo colaborar. Vamos por parte, então, o senhor estava na casa da sua amiga militante política com um plano para sequestrar o presidente em sua visita ao Rio, correto? Sim.  Pelo amor de Deus, homem. Como posso acreditar numa loucura dessas. Por que não confessa que assassinou sua mulher, que ela o traía que perdeu a cabeça. Essas coisas acontecem, sabe. Por que o senhor correu quando avistou a polícia?  Não corri da polícia, é que quis alcançar Conceição. Ela estava fugindo do senhor. O que houve? Desentenderam-se? São amantes. Ela é bonitinha?  

Por favor, delegado, vamos com calma.  Calma? O quê? Já cansei dessa sua lenga-lenga. Guardas algemem o homem. Adalberto acordou com dores nas costas, noite mal dormida e que sonho terrível. Tereza ensanguentada, um cachorro lambia-lhe os lábios. Melhor confessar tudo. Não estou suportando. Não. Não posso confessar. É preciso manter a serenidade. Guarda, preciso de ajuda não consigo levantar-me.  O senhor pensa que todo mundo aqui é idiota, e?  Não, claro que não, só preciso ficar em pé.  É uma jogada sua. Mas é óbvio que não. Sou um cidadão, não um marginal.  Por que o sujeito aí pensa que é melhor que os outros, é?  O que você sabe da minha vida? Sabemos tudo doutorzinho de merda. O delegado teve uma conversinha com sua mãe. O quê?  É, e nem precisou intimação não, foi só um telefonema e ela veio rapidinho. Lindos olhos os dela. Verde como o mar. E como fala bonito.

O senhor é mesmo nervosinho desde criança, e pelo jeito chegado numa malvadeza, ver bicho morrer, cheirar sangue. Alguma tara doutor?  Vá à merda. Solta, solta meu pescoço, tenho meus direitos, senhor policial. Então porque o sujeito aí não desembucha, quem sabe eu entenda. Não tenho nada a falar com o senhor. Azar o seu, vai apodrecer nesta cela. Por um momento Adalberto pensou que seria melhor sim confessar. Chamar o delegado explicar direitinho o que realmente aconteceu, talvez ele compreendesse, era um homem. E Tereza deixava qualquer um louco. Falar de suas tardes de angústia, enquanto Tereza retocava o batom, suas pernas levemente bronzeadas, os cabelos molhados, a imagem do amante. Eles juntos. Não, no fundo sabia-se um fraco, um conservador, arraigado a velhos costumes, velhas ideias. O jeito era negar, negar, não fora ele e pronto. Limpou tudo antes de sair, a mesa, a garrafa de vinho, as taças, admirava sua organização, seu jeito excessivamente detalhista. Só não mexeu mesmo no corpo estendido no meio da sala, o punhal encravado no ventre, a poça de sangue que se formou, e o último olhar de Tereza. Por que será que aquele olhar, feito o da mãe, incomodava-lhe tanto. Ainda hoje, passado tanto tempo, sentado em frente ao mar, relembra cada detalhe. Tereza, a amiga Ceição, a mãe, os bichos, a infância, as noites na prisão. Solidão e tristeza, mas nada se compara ao azul daquele olhar ou seria verde como o mar.


10 comentários:

  1. O tempo deste conto que me fascinou. Muito bom querida. Quero ser como você quando crescer....

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  2. E o último olhar de Tereza o perseguirá para sempre... e será sua maior prisão! Belo!

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  3. Olá, querida
    O verde ou o azul sempre vão me lembrar do mar...
    Dá saúde e paz... cores que bem o representam...
    Seja feliz e abençoada!!!
    Bjs de paz

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  4. Mais uma arte na proposta Sueli e ainda colocou poesia neste namoro do verde e o azul.Brilhante amiga.Meus aplausos pela criatividade.
    Carinhoso abraço de paz e luz.
    Beijo de luz nos seus dias.

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  5. Ô Carloz querido, também me fascina muito essa questão do "tempo" tanto na narrativa como no teatro. Adorei a brincadeira. :o) bjão.

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  6. É sim Ana Bailune, grata querida.

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  7. Lindo comentário Orvalho do Céu. Bjus querida.

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  8. Meu amigo Toninhobira , vc já sabe, mas não canso de "dizer" (escrever) seus comentários me deixam muitooooooooooo feliz.

    GRATÍSSIMA,

    carinhoso abraço de paz e luz.

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