sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A queda diante da lei


De vida medíocre, nada de extraordinário me aconteceu. Minto, afinal, escrever é mentir -- elegantemente, óbvio. Nada de extraordinário até uma conversão proibida à esquerda: não sinalizei com seta, esqueci os retrovisores, não reduzi a velocidade. E também não precisava ter virado logo ali. O certo é que colidi com uma motocicleta, embora não tenha parado de cantar o refrão de "Nobody knows you When you're down and out".
Fui então conduzido à delegacia, para o registro da ocorrência. Entre pequenos furtos, uma briga de ex-casados, um adolescente e a diretora de sua escola, um patrão agredido pelo estágiário, entre tudo isso ouvi "terá de aguardar o escrivão". Eu ri, mas conservei a face séria. Assumindo a inexatidão da minha perícia ao dirigir meu popular (vê-se que mentir é escrever) não tive outra solução: cruzei as pernas, rememorei Bessie Smith e esperei. Passavam pernas fardadas, pernas enfaixadas, pernas com passos titubeantes -- talvez de algum algemado --, pernas bonitas, magras, gordas, brancas pretas amarelas. Meu coração não perguntou nada: "Nobody wants me round their door", cantava a rouca voz daquela negra e eu simplesmente acompanhava com o pé.
Perdi a noção de tempo (veja a mentira que é escrever!), mas continuei ali. Minha vista foi cansando daquelas lâmpadas fluorescentes, daquele constante murmurinho entrecortado por sirenes, lamentações e suplícios. Percebi que, aos poucos, meus cabelos foram tornando-se raros e, quando conseguia sentir uma mosca incomodando, meus movimentos faziam saltar fios brancos da minha cabeça. Abandonei os sapatos visando descanso: enfraqueci, é claro. A calça, dobrada até os joelhos, mostrava uma perna de onde pendiam peles ressacadas, como um tecido amarrotado depois de um longo dia de trabalho. E o jornal em que li a morte de um motociclista depois de um acidente com um carro datava de dezesseis anos atrás. A redação da notícia, imprecisa pela sanha de veracidade, dizia que o motorista do auto havia "evadido do local sem prestar socorro". Dada minha condição, não vejo opções a não ser acatar -- hoje sou um indiferente espectro na sala de espera de uma delegacia qualquer.

2 comentários:

  1. Grande Gustavo! Saudade meu querido!

    Belíssimo! Lentamente e com palavras que me parecem "escolhidas a dedo" vc nos presenteia com essa história inusitada em que tempo e loucura andam de maõs dadas, adorei!!!

    beijo

    ResponderExcluir
  2. Amei o texto Gustavo...Parabéns!!!

    ResponderExcluir