-- Bom dia. Sua passagem por favor. Disse ao 1° da fila.
Essa educação formal o deixou ainda mais revoltado. Potencializava o desterro de mais uma cidade que lhe expurgava como um verme.
Onde quer que ele fosse, a maldita lembrança do seu crime disparava e atingia a memória da cidade precedente, revelando o antecedente pelo qual pagou 13 anos numa penitenciária paulista. Lembrou e começou a chorar e soluçar angustiado. Compreendeu o que ouviu certa vez no corredor do tribunal: fazer justiça não é aplicar pena, é reconciliar as partes.
-- Ai meu Deus! O ônibus capotou. Só sobreviveu um...
segunda-feira, 8 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
O Chão
No final do caminho sempre existe o chão.
Da pena à pedra, do pé ao corpo, da cinza ao vento.
Nada desafia a gravidade que nos afronta.
Cabe às nuvens, com o eterno retorno das águas e breviedade subliminar, narrar detalhes desse embate.
Usando hierógrifos de algodão.
Da pena à pedra, do pé ao corpo, da cinza ao vento.
Nada desafia a gravidade que nos afronta.
Cabe às nuvens, com o eterno retorno das águas e breviedade subliminar, narrar detalhes desse embate.
Usando hierógrifos de algodão.
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microconto
" Você sabe com quem está falando?"
Conheci o Tião por acaso, navegando sem destino na blogosfera.Cheguei no dia em que comemorava dois anos de existência. Sabe, tipo melhores momentos? Foi o suficiente para passar a acompanhá-lo diáriamente.
Tião se tornou um dos meus melhores amigos, estava entre os favoritos. Eu seguia de perto sua vida cotidiana. Já lia até seus pensamentos. Torcia por ele, xingava, discordava.
Já havia decidido me declarar sua amiga de infância no domingo de Páscoa. Mas hoje , quando fui visitá-lo, deparei-me com o seguinte aviso: “ Este blog só pode ser acessado por leitores convidados. Digite sua senha”.
Como assim? Barrada no baile? Você sabe com quem está falando? Um soco no monitor!
Pena! Deveria ter me declarado antes. Sei que ele jamais me negaria um convite!
Tião se tornou um dos meus melhores amigos, estava entre os favoritos. Eu seguia de perto sua vida cotidiana. Já lia até seus pensamentos. Torcia por ele, xingava, discordava.
Já havia decidido me declarar sua amiga de infância no domingo de Páscoa. Mas hoje , quando fui visitá-lo, deparei-me com o seguinte aviso: “ Este blog só pode ser acessado por leitores convidados. Digite sua senha”.
Como assim? Barrada no baile? Você sabe com quem está falando? Um soco no monitor!
Pena! Deveria ter me declarado antes. Sei que ele jamais me negaria um convite!
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Quem diria...

Olhando assim de longe ninguém diria que ela seria capaz daquilo. Tanta desordem.
Aparentemente não tinha motivo para tanto. Tantos sorrisos, tantos carinhos. Eram feitos um para o outro. E agora isso. Em cinco minutos a cidade inteira já sabia do ocorrido. Em dois segundos todos já julgavam. O que houve com ela? Não tinha do que reclamar... tinha um marido de ouro... Nossa! Deveria estar louca... Nunca desconfiei dela, sempre tão certinha... Quem diria!!! Especulações.
Mas quem estava ali quando escureceu e o fino fio escarlate maculava o tapete da sala?
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Concluídos
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
OFICINA -LITERATURA E PALCO
“Meus queridos"
Estarei na
ETAC-Escola de Teatro Arte e Comunicação
com a Oficina:
“LITERATURA E PALCO”
Inicio: 19/03/2010
Inicio: 19/03/2010
Término: 19/06/2010
19:00 às 22:00
6ªs feiras
Inscrições-ETAC
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Gênero Minimalista- “Miniconto” ou “Microconto”
A literatura contemporânea passa por profundas e velozes mudanças introduzindo novas formas na arte da escrita. O chamado “miniconto” ou “microconto”, um tipo de narrativa que tenta a economia máxima de recursos sem, no entanto, perder a expressividade e a beleza do texto, além de causar um impacto instantâneo sobre o leitor, surge com força no cenário literário.
Prova disso é a publicação em 2004 do livro: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizada por Marcelino Freire, em que os autores foram desafiados a escrever contos de no máximo cinqüenta letras.
..."Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, Augusto Monterroso, conhecido como menor e mais famoso miniconto do mundo; Dalton Trevisan, responsável pela canonização desse tipo de texto no Brasil; Julio Cortazar vem, juntamente com outros autores, reforçar a importância dessa nova estética.
Produzir uma narrativa com começo, meio e fim preservando as propriedades do conto dentro dessa nova estética, o miniconto, é o desafio que proponho.
PROPOSTA
ESCREVER UM MINICONTO
(Tema-livre)
(Máximo de 10 linhas)
DATA DA POSTAGEM- 26/02/2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Mais um....

Outra vez.
E outra.
Mais uma vez.
Chova ou faça sol.
Destino traçado tostão a tostão.
Tochado goela abaixo.
Mais uma criança interrompida.
Desce o morro.
Mais uma criança.
Que arrasta o corpo.
Mais um corpo que carrega outro.
Mais um meio atropelando o inicio.
Mais um dia sem fim.
Sem Cruzeiro.
Cruzado.
- É 10,00 Real moço!
Mais uma criança.
Mais um treco.
Mais uma que sobe o morro.
Outra vez um trapo.
Outra vez sem corpo.
Outra caixa.
Do lixo ao lixo.
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Concluídos
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Parabéns para você nessa data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Para Walter nada. Tudo! Tudo. Então como é que é? É...é...
As bexigas coloridas. A família reunida. A mesa decorada. Apenas um bolo no centro da mesa, bolo de fubá com cobertura de chocolate. Jarras de suco. Suco artificial. A data do aniversário nunca passou esquecida, mamãe sempre comemora dessa forma. Percebi que nesses meus 14 anos, nunca tive um presente que sonhasse no meu aniversário, também não os tive no Natal e em nenhuma outra data comemorativa. Aqui no morro, meus amigos também não ganham nada significativo. E ainda dizem que tenho uma mãe e um pai que fazem tudo por mim e que não posso reclamar, pois eles estão em situação pior. Minha mãe é realmente uma mulher especial, trabalha de empregada numa escola de bacana e conseguiu uma bolsa para mim. Ela acha que fez o melhor que pôde, mas, não sei se realmente o fez. Enquanto eles todos têm o kit escolar do melhor, eu todo ano tenho uma mochila vinda de doação. Enquanto eles têm os tênis de marca (aqueles que eu sonho ganhar nas datas festivas), eu, muitas vezes tive de ir de chinelos de dedo. Sou apontado no intervalo. Aqui não tem merenda e eu nunca tenho R$ 1,00 para comer na cantina, às vezes minha mãe me chama e escondido eu como um pouco da marmita que ela traz. De manhã venho com ela de ônibus, mas, na hora de ir embora eu vou a pé, para economizar. Por mim, é bem verdade nunca mais voltaria. Porém, minha mãe disse que passa o que passa para me ver bem formado. Disse que vou ser médico, o sonho dela é que eu seja Dr. Nunca falei a respeito disso com ela, de certa forma, pela sua ignorância, não quero magoá-la. Médico? Vejamos bem, nós temos aquele certificado de miserável (vivemos abaixo do limite da pobreza). Meu pai, gari chegou todo feliz. Ganhou um curso técnico e passou para mim. Todo sábado vou ao curso, torneiro mecânico. Para que, diga-me para que um futuro médico, precisa se formar torneiro mecânico? São simples e ignorantes. Uns amigos meus lá do morro, andam fazendo “um dinheirinho”, e colocam coisas gostosas na geladeira, ajudam os pais a pagarem as contas, andam “nos panos”. Disseram que se eu quiser me arrumam uma vaga. Na escola eu já percebi que tem uns que curtem as mercadorias que eles vendem. De repente aqui eu faço uma boa clientela. Decidi que sim. Comecei a vender para um, que já falou para outro e mais outro e assim fui crescendo. Comprei todos os presentes que almejei em pouco tempo e meus pais um pouco chateados andam desconfiados de mim. Ainda sou um bom aluno e faço tudo do portão para fora, não quero complicar a vida da minha mãe. Já avisei para ela, no meu aniversário de 15 anos nada de bolinho de fubá com suco artificial. Vamos mesmo é fazer um churrasco com carne de primeira, refrigerantes de marcas boas e bebidas alcoólicas para os adultos. Nunca bebi e nunca me aproximei intimamente das mercadorias que vendo. Acho que não dá para misturar, sou um bom comerciante. Apenas!
Lá na escola as coisas já mudaram, todos me convidam para baladas e me chamam para ficar no intervalo. O problema é que meus amigos lá do morro é que me olham diferente, dizem que eu fiquei metido, que não saio mais com eles. Eu sei que a probabilidade de ser pego com eles é muito grande. Juntos, somos muitos favelados. Já com o pessoal da escola não há tanta marcação policial, eles são elite e com eles eu só tenho a crescer. Sábado agora é meu churrasco convidei todo pessoal da escola e também meus amigos do morro. Precisa ver como a casa está bonita, dei uma bela reformada. Parabéns para você! Tudo... Tudo... Então como é que é... é...papapapapapa.....Eu não comprei rojões...que significa isso? Tiros, muitos tiros. Entraram em casa e não atiraram em ninguém. Apenas em mim. Fiquei tetraplégico. Minha mãe saiu do trabalho para cuidar de mim. Meu pai assumiu o curso de torneiro mecânico. Quando vamos ao médico minha mãe calça nos meus pés os tênis de marca que tanto desejei e sei que por esse desejo aqui estou nessa situação. Nunca mais falamos sobre eu ser um Dr . Nunca mais falamos sobre nada, mamãe e eu passamos tardes silenciosas. Ela a preparar os tais bolos de fubá para eu tomar meu café da tarde. Ela se decepcionou comigo. Eu sinto. Papai decepcionou-se comigo. Eu sei. Mas, eles não falam sobre isso, apesar de tudo, dão graças a Deus, por eu estar vivo. Também me decepcionei comigo, pois nasci no morro, e não tenho sequer direito a comida boa e coisas tão simples. Silencia o fato de eu ser pobre. Miserável. Silencia o fato de eu não ter nada, mas, estar no mundo capitalista que me impõe tantas coisas. Silenciam as minhas pernas, que já não mais andam. Todos dirão que sou mais um marginal que buscou o lado mais fácil. Tolice. Esse lado é sempre o mais difícil. Cá estou eu... Vivo!! E como dizem: - “a esperança é a última que morre”. Então meu pai todo sábado diz: - Dias melhores virão e nossa vida será outra depois que eu me formar um Torneiro Mecânico!
As bexigas coloridas. A família reunida. A mesa decorada. Apenas um bolo no centro da mesa, bolo de fubá com cobertura de chocolate. Jarras de suco. Suco artificial. A data do aniversário nunca passou esquecida, mamãe sempre comemora dessa forma. Percebi que nesses meus 14 anos, nunca tive um presente que sonhasse no meu aniversário, também não os tive no Natal e em nenhuma outra data comemorativa. Aqui no morro, meus amigos também não ganham nada significativo. E ainda dizem que tenho uma mãe e um pai que fazem tudo por mim e que não posso reclamar, pois eles estão em situação pior. Minha mãe é realmente uma mulher especial, trabalha de empregada numa escola de bacana e conseguiu uma bolsa para mim. Ela acha que fez o melhor que pôde, mas, não sei se realmente o fez. Enquanto eles todos têm o kit escolar do melhor, eu todo ano tenho uma mochila vinda de doação. Enquanto eles têm os tênis de marca (aqueles que eu sonho ganhar nas datas festivas), eu, muitas vezes tive de ir de chinelos de dedo. Sou apontado no intervalo. Aqui não tem merenda e eu nunca tenho R$ 1,00 para comer na cantina, às vezes minha mãe me chama e escondido eu como um pouco da marmita que ela traz. De manhã venho com ela de ônibus, mas, na hora de ir embora eu vou a pé, para economizar. Por mim, é bem verdade nunca mais voltaria. Porém, minha mãe disse que passa o que passa para me ver bem formado. Disse que vou ser médico, o sonho dela é que eu seja Dr. Nunca falei a respeito disso com ela, de certa forma, pela sua ignorância, não quero magoá-la. Médico? Vejamos bem, nós temos aquele certificado de miserável (vivemos abaixo do limite da pobreza). Meu pai, gari chegou todo feliz. Ganhou um curso técnico e passou para mim. Todo sábado vou ao curso, torneiro mecânico. Para que, diga-me para que um futuro médico, precisa se formar torneiro mecânico? São simples e ignorantes. Uns amigos meus lá do morro, andam fazendo “um dinheirinho”, e colocam coisas gostosas na geladeira, ajudam os pais a pagarem as contas, andam “nos panos”. Disseram que se eu quiser me arrumam uma vaga. Na escola eu já percebi que tem uns que curtem as mercadorias que eles vendem. De repente aqui eu faço uma boa clientela. Decidi que sim. Comecei a vender para um, que já falou para outro e mais outro e assim fui crescendo. Comprei todos os presentes que almejei em pouco tempo e meus pais um pouco chateados andam desconfiados de mim. Ainda sou um bom aluno e faço tudo do portão para fora, não quero complicar a vida da minha mãe. Já avisei para ela, no meu aniversário de 15 anos nada de bolinho de fubá com suco artificial. Vamos mesmo é fazer um churrasco com carne de primeira, refrigerantes de marcas boas e bebidas alcoólicas para os adultos. Nunca bebi e nunca me aproximei intimamente das mercadorias que vendo. Acho que não dá para misturar, sou um bom comerciante. Apenas!
Lá na escola as coisas já mudaram, todos me convidam para baladas e me chamam para ficar no intervalo. O problema é que meus amigos lá do morro é que me olham diferente, dizem que eu fiquei metido, que não saio mais com eles. Eu sei que a probabilidade de ser pego com eles é muito grande. Juntos, somos muitos favelados. Já com o pessoal da escola não há tanta marcação policial, eles são elite e com eles eu só tenho a crescer. Sábado agora é meu churrasco convidei todo pessoal da escola e também meus amigos do morro. Precisa ver como a casa está bonita, dei uma bela reformada. Parabéns para você! Tudo... Tudo... Então como é que é... é...papapapapapa.....Eu não comprei rojões...que significa isso? Tiros, muitos tiros. Entraram em casa e não atiraram em ninguém. Apenas em mim. Fiquei tetraplégico. Minha mãe saiu do trabalho para cuidar de mim. Meu pai assumiu o curso de torneiro mecânico. Quando vamos ao médico minha mãe calça nos meus pés os tênis de marca que tanto desejei e sei que por esse desejo aqui estou nessa situação. Nunca mais falamos sobre eu ser um Dr . Nunca mais falamos sobre nada, mamãe e eu passamos tardes silenciosas. Ela a preparar os tais bolos de fubá para eu tomar meu café da tarde. Ela se decepcionou comigo. Eu sinto. Papai decepcionou-se comigo. Eu sei. Mas, eles não falam sobre isso, apesar de tudo, dão graças a Deus, por eu estar vivo. Também me decepcionei comigo, pois nasci no morro, e não tenho sequer direito a comida boa e coisas tão simples. Silencia o fato de eu ser pobre. Miserável. Silencia o fato de eu não ter nada, mas, estar no mundo capitalista que me impõe tantas coisas. Silenciam as minhas pernas, que já não mais andam. Todos dirão que sou mais um marginal que buscou o lado mais fácil. Tolice. Esse lado é sempre o mais difícil. Cá estou eu... Vivo!! E como dizem: - “a esperança é a última que morre”. Então meu pai todo sábado diz: - Dias melhores virão e nossa vida será outra depois que eu me formar um Torneiro Mecânico!
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
"POESIA E CONTEMPORANEIDADE"
"Agendem-se, meus queridos"
Dias 16, 17 e 18 de março estarei no SESC/SOROCABA com a
Oficina
“Poesia e Contemporaneidade”
Encerramento no dia 18 de Março com um sarau literário.
Como é uma parceria do SESC com a Oficina OTELO, as inscrições, acredito que, serão na Otelo
domingo, 24 de janeiro de 2010
E ele chega...
Como sabemos, enredo é o corpo de uma narrativa, comumente conhecido como o desenvolvimento de ações em uma linha de tempo, o enredo é a própria história narrada que contém as situações/ações, as personagens que se envolvem entre os fatos e as mudanças que ocorrem nelas e entre elas.
Considerando-se que enredo é também intriga e trama, estas são estruturadas a partir de um núcleo temático que será desenvolvido pelas personagens em todas as circunstâncias do percurso narrativo. Desse modo, o enredo pode ser de amor, de aventuras, de problemas existenciais, de problemas sociais, de fantasia, de ficção científica e etc.
No caso, enredo de problemas sociais, - essa história é relatada com ironia amarga, pois desenvolve o tema do menor infrator, evocando as condições sociais que o levam ao delito: pobreza (mora no morro), a ausência do pai, de educação sistematizada, de emprego (a mãe vê como fruto do trabalho (ironia do autor) os objetos com os quais o filho a presenteia).
O verso final de cada estrofe (“E ele chega”) é carregado de ambigüidade: ele chega a casa; aonde ele chega?
“Ele um dia me disse que chegava lá” Lá, na condição de superior e/ou na condição de marginal?
PROPOSTA-Elabore, mantendo as mesmas duplas da proposta anterior, um texto ou um crie uma crônica abordando a temática:“Problemas Sociais”
Veja as imagens ao som da bela musica de Chico Buarque como fonte de “inspiração” clicando em “enredo de problemas sociais”
DATA DA POSTAGEM – 09/02/2010
UM BOM TRABALHO
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Por que escrevo? (emos)
"É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor. Se eu não escrevesse não me sentiria vivo, não me sentiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo.
É aquela história: escrevo, logo existo. Uma resposta meio cartesiana".
Lêdo Ivo
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Jogo de Máscaras

Fantasiar deveria ser seu sobrenome. Era tão adepta aos devaneios que perdia a noção de realidade. Um fato que sempre esteve nublado na memória, assim como tantos outros. Memória seletiva. Um artifício. Mais uma vez selecionou um que recordava como criação, porém, depois de
tantos anos já não conseguia discernir se havia realmente acontecido ou era mais uma fantasia.
O desejo permeava a sua mente, pensamentos masculinos maculados por publicações baratas. Mas aquele momento era diferente. Diferente das páginas de revistas, diferente dos filmes baratos e assistidos escondidos. Era forte e profundo, determinado pelo impulso e um desejo que se mascarava sobre a forma de sentimento. Sentimento esse que não conseguia interpretar, mas que pulsava com a força do sexo.
A sala ampla, chão em tacos de madeira, sozinhos, na casa dele! Crianças, brincando com corpos. Descobrindo os sentidos. A cena ainda hoje a perseguia, deitados lado a lado, quando de repente com uma agilidade espantosa ele cobria seu corpo com o dele, pernas entrelaçadas, o peso do corpo. Engraçado como certos detalhes totalmente irrelevantes determinavam o contexto, como a luminosidade do lugar, as cortinas, o perigo de serem flagrados. Não temia a novidade, ansiava por ela, o que a assustava era a urgência do que estava sentindo. A beira de romper, uma represa. Crescente. Não poderia suportar por muito mais tempo. A falta da frieza racional do controle, isso a assustava.
Era a primeira vez. Havia calculado friamente como abordaria a garota nesse momento, quais seriam suas ações até já havia previsto a reação dela. Mas a vida ensina que tudo sempre é diferente. Os corpos não respeitavam as vontades do cérebro, simplesmente agiam, mãos escorregavam pela pele e o encontro das bocas tinha outro sabor. Momento único de perigo iminente. As máscaras por trás do relacionamento social, da vivência dos amigos, da aparência inocente perante os famíliares estava prestes a cair, rápido e confuso. Era estranho recordar
depois de tanto tempo.
Um namorico adolescente de portão, de banco de praça. O via passar da janela do seu quarto, essas casas antigas, onde as janelas davam direto para rua e essa janela para uma pequena praça,
quase sempre deserta. O ar de menino perdido em contraste com a arrogancia da determinação. Esses traços ainda hoje determinavam certos padrões.
O flash de sua visão passando ao longe pela janela lhe trouxe de volta ao à realidade. A máscara retorna ao seu lugar e ela retorna à inocência, o sentimento misto do proibido e do prazer cede lugar, provavelmente à vergonha e ao compromisso de inocência. Ela corre, foge, não do sentimento, ou do prazer, mas do processo em si, da forma como estava acontecendo. Não era como sonhava, pesadelos de relacionamentos passados ainda a perseguiam. Talvez, se ele tivesse insistido, fosse logo ao ponto, se evitasse as preliminares, talvez tudo fosse diferente. Mas foi o momento em que as máscaras cederam para retornar logo em seguida.
Fugiu... simples assim, fugiu como ainda foge hoje à menor possibilidade de dor. E aquela era uma possibilidade. Talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez se ele tivesse insistido, ou talvez se tivesse deixado a janela aberta, talvez tivesse sofrido mais... um monte de talvezes sem fundamento. Doeu da mesma forma quando tudo terminou.
Um final sincero nas ações, mas sem verdade nos sentimentos. Final para garantir as aparências e mascarado sobre falsos pretextos. Um final alucinado de um relacionamento sem o gosto da maça. Amor de adolescente que se perpetua ao longo dos anos, que se estende pela rede em encontros virtuais. O sentimento, agora confuso, está nas pontas dos dedos, na textura fria do mouse e do teclado escondido atrás de novas máscaras, pixels, bytes, telas e redes sociais.
"Por que estou pensando nisso agora?" - levantou os olhos e
sorriu para o garoto que lhe estendia a folha do trabalho em sala. Isaque era o seu nome, assim mesmo com que. "Realmente é muito parecido com ele."
- Sabia que você é muito parecido com alguém que conheci? O garoto volta o olhar para a mulher à sua frente e imagina: -"Oba... Será que tenho chance com essa gata". Pensamento ousado, mas que reflete as semelhanças.
Fim.
Por Renato Fernandes / Catarina
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Concluídos
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Máscaras e loucura.... um texto de Kalil Gibran
Lembrei-me deste texto Su e pensei em postá-lo aqui, sua proposta me lembrou muito esta passagem de Gibran. Só achei o vídeo em espanhol, abaixo uma tradução livre que já tinha aqui do texto em inglês.
O Louco ( Kalil Gibran) - tradução livre
Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei:
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende, este nos escraviza.
O Louco ( Kalil Gibran) - tradução livre
Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei:
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende, este nos escraviza.
domingo, 3 de janeiro de 2010
LINGUAGEM-MASCARAS DO SER
As idéias não brotam do nada, elas fazem parte integrante da história do homem, de sua evolução, de suas conquista, de seus erros e acertos.
Um texto traduz a visão de mundo de quem o produziu, mas também traduz cisões de mundo de outros textos, da cultura em que está/estão inserido(s), da história da humanidade a que todos pertencemos. Sempre há um texto dentro de outro texto (ressonâncias, ecos, relações de oposição e/ou de semelhança, de conteúdo e/ou de estilo) - um texto e seus contextos.
Ler e produzir um texto significa ler e traduzir o que somos como indivíduo, na acepção particular e única de ser, e o que somos como indivíduo, no sentido do ser gregário, atávico, pertencente a um grupo social, a uma cultura, à humanidade.
Se entendermos linguagem como uma das máscaras do ser, também é correto afirmar que, por trás de todo texto, há um sujeito que se esconde, mesmo quando julga que está se expondo; cabe ao leitor, crítico, entender as razões pelas quais esse sujeito se declara ou se mascara. Ouça, aqui , como Clarice Lispector trata essa questão.
Dica de Leitura:
Mar de Palavras do livro “A eterna privação do zagueiro absoluto”Luís Fernando Veríssimo.
PROPOSTA – DATA DA POSTAGEM 15/01/2010
1- Crie uma história na qual as personagens assumam uma postura “declarada” frente à vida, ou seja, assumam suas idiossincrasias, suas dúvidas, seus fracassos, suas alegrias, enfim seu jeito de ser.
Ou pode optar pela proposta nº. 2
2- Crie uma história na qual as personagens assumam uma postura “mascarada” frente à vida, ou seja, escondam suas idiossincrasias, suas dúvidas, seus fracassos, suas alegrias , enfim seu jeito de ser.
História pronta é só postar. DIVIRTAM-SE!!!!
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Um mimo para pessoas maravilhosas"
"É só clicar em cima do selo (copiar) e depois colar"
(Fiquem à vontade para colar)

MUITA ALEGRIA NO CORAÇÃO
SÚ
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Processo criativo literário
Antes de mais nada, gostaria de agradecer ao carinho da Sueli pelo convite e oportunidade de pertencer a este belo grupo de literatas.
Penso que é fundamental que um escritor saiba dar contornos às suas inspirações para que possa conduzir de forma coerente, até o leitor, aquilo que deseja expressar, seja por meio de longas narrativas novelísticas ou somente na beleza de curtos e contundentes poemas. Nem sempre as inspirações são transformadas em ótimos trabalhos literários, isso, em minha opinião, depende não somente da capacidade do autor em si, mas, também, de seu momento emocional.
Comigo, a inspiração ocorre basicamente de forma espontânea, mas já aprendi a estimular meu interior para que ela venha à tona quando preciso, em uma espécie de evocação de informações que se combinam a sentimentos muitas vezes armazenados em locais de difícil acesso de minha alma. A partir daí, a mente fervilha de ideias que precisam fluir e são jorradas com a força de uma represa que acaba de ruir, inundando, seja o papel, seja o gravador eletrônico, com todas aquelas frases, palavras e descrições de imagens que vão se atropelando à medida que são formadas dentro da cabeça.
Uma vez que tudo esteja diante de mim, para que eu possa “trabalhar” a argamassa da escultura, combinar as tintas da pintura, começo a lapidar meu carvão literário em forma de textos até transformá-lo em um diamante.
Daí para frente ainda entram outros processos: revisão, análise crítica, enfim, até chegar ao final, mas a essência da transformação ocorre mesmo é nos primeiros momentos após a inspiração, e não durante a própria.
No que toca aos romances longos, uso uma metodologia de construção que sempre me pareceu confortável, que é a de “montar o esqueleto” da obra que pretendo propor. Entro no processo criativo e vou imaginando os momentos fortes da narrativa, praticamente separando-os como tópicos de cada capítulo, até que eu tenha toda uma linha-base, digamos assim, do livro que surgirá. É claro, e já pude comprovar isso em todos os livros que escrevi, que de forma alguma esse esqueleto se transforma em minúsculos grilhões que me aprisionem à ideia inicial, porque é natural que as histórias evoluam, ganhem vida e implorem por mudanças que são rapidamente inseridas e então o esqueleto é ajustado.
Atualmente, não imagino outra forma de trabalhar os romances longos. Sinto-me tão seguro com essa metodologia que, no primeiro volume da série Horizontes, cheguei a escrever os dois capítulos finais do livro antes mesmo de escrever seu prólogo. Depois segui o esqueleto, claro, com um ajuste aqui e outro ali, fazendo o encaixe necessário quando cheguei aos últimos capítulos.
Saudações literárias!
Penso que é fundamental que um escritor saiba dar contornos às suas inspirações para que possa conduzir de forma coerente, até o leitor, aquilo que deseja expressar, seja por meio de longas narrativas novelísticas ou somente na beleza de curtos e contundentes poemas. Nem sempre as inspirações são transformadas em ótimos trabalhos literários, isso, em minha opinião, depende não somente da capacidade do autor em si, mas, também, de seu momento emocional.
Comigo, a inspiração ocorre basicamente de forma espontânea, mas já aprendi a estimular meu interior para que ela venha à tona quando preciso, em uma espécie de evocação de informações que se combinam a sentimentos muitas vezes armazenados em locais de difícil acesso de minha alma. A partir daí, a mente fervilha de ideias que precisam fluir e são jorradas com a força de uma represa que acaba de ruir, inundando, seja o papel, seja o gravador eletrônico, com todas aquelas frases, palavras e descrições de imagens que vão se atropelando à medida que são formadas dentro da cabeça.
Uma vez que tudo esteja diante de mim, para que eu possa “trabalhar” a argamassa da escultura, combinar as tintas da pintura, começo a lapidar meu carvão literário em forma de textos até transformá-lo em um diamante.
Daí para frente ainda entram outros processos: revisão, análise crítica, enfim, até chegar ao final, mas a essência da transformação ocorre mesmo é nos primeiros momentos após a inspiração, e não durante a própria.
No que toca aos romances longos, uso uma metodologia de construção que sempre me pareceu confortável, que é a de “montar o esqueleto” da obra que pretendo propor. Entro no processo criativo e vou imaginando os momentos fortes da narrativa, praticamente separando-os como tópicos de cada capítulo, até que eu tenha toda uma linha-base, digamos assim, do livro que surgirá. É claro, e já pude comprovar isso em todos os livros que escrevi, que de forma alguma esse esqueleto se transforma em minúsculos grilhões que me aprisionem à ideia inicial, porque é natural que as histórias evoluam, ganhem vida e implorem por mudanças que são rapidamente inseridas e então o esqueleto é ajustado.
Atualmente, não imagino outra forma de trabalhar os romances longos. Sinto-me tão seguro com essa metodologia que, no primeiro volume da série Horizontes, cheguei a escrever os dois capítulos finais do livro antes mesmo de escrever seu prólogo. Depois segui o esqueleto, claro, com um ajuste aqui e outro ali, fazendo o encaixe necessário quando cheguei aos últimos capítulos.
Saudações literárias!
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Sueli querida e colegas aqui do blog,
Eu não saberia responder a esta sua pergunta, sinceramente. Porque as palavras me chegam de diferentes formas, por diferentes motivações. Umas vezes sou a dona delas. Outras elas se apoderam de mim. Podem nascer de lembranças, da imaginação, da observação, da intuição. Podem ser um parto fácil, difícil, por vezes a fórceps. Mas ser um ser de linguagem é o que me permite fazer uma ponte capaz de me vincular ao outro. É um canal aberto para um ir e vir constante. Umas vezes as palavras recriam em mim um monte de vidas que tomo de empréstimo; então, escrevendo, vou sentindo emoções que até então eu não teria a menor chance de experimentar. Outras vezes elas saem bem de dentro de mim e ao sairem das minhas regiões abissais, me revelam coisas até então inéditas pra mim, me ajudam a organizar meus pensamentos e sentimentos, me encorajam a me deixar revelar aos outros. É assim. As palavras são as mesmas, são de todos, são de quem as sabe amar. Mas ler e escrever tem sido o ponto e contraponto necessários para ligar estes dois mundos: o de dentro e o de fora. Não sei como, nem quando, nem porque acontece. Mas quando algo lido ou escrito fazem estas conexões é uma sensação de prazer impossível de descrever em palavras.
Meu presente é o desenho do que tentei dizer. Este cara do vídeo é um artista italiano fantástico. À sua maneira, faz com que, através do papel, tudo caiba dentro dele e dele saia, algumas vezes de forma surpreendente. Espero gostem. Beijos meus a todos.
Eu não saberia responder a esta sua pergunta, sinceramente. Porque as palavras me chegam de diferentes formas, por diferentes motivações. Umas vezes sou a dona delas. Outras elas se apoderam de mim. Podem nascer de lembranças, da imaginação, da observação, da intuição. Podem ser um parto fácil, difícil, por vezes a fórceps. Mas ser um ser de linguagem é o que me permite fazer uma ponte capaz de me vincular ao outro. É um canal aberto para um ir e vir constante. Umas vezes as palavras recriam em mim um monte de vidas que tomo de empréstimo; então, escrevendo, vou sentindo emoções que até então eu não teria a menor chance de experimentar. Outras vezes elas saem bem de dentro de mim e ao sairem das minhas regiões abissais, me revelam coisas até então inéditas pra mim, me ajudam a organizar meus pensamentos e sentimentos, me encorajam a me deixar revelar aos outros. É assim. As palavras são as mesmas, são de todos, são de quem as sabe amar. Mas ler e escrever tem sido o ponto e contraponto necessários para ligar estes dois mundos: o de dentro e o de fora. Não sei como, nem quando, nem porque acontece. Mas quando algo lido ou escrito fazem estas conexões é uma sensação de prazer impossível de descrever em palavras.
Meu presente é o desenho do que tentei dizer. Este cara do vídeo é um artista italiano fantástico. À sua maneira, faz com que, através do papel, tudo caiba dentro dele e dele saia, algumas vezes de forma surpreendente. Espero gostem. Beijos meus a todos.
O primeiro de tudo é a foto
Considerações sobre o processo criativo
O primeiro de tudo é a foto! Eu a utilizo como matéria prima. É dela que tiro traços, curvas, ângulos e texturas. É também dela que surgem parágrafos, vírgulas, acentos e frases.
Vejo pontos, rachuras e tracejados. Aparecem os personagens, cenas, pretextos; vilões e heróis fazem ponta em cenários nunca antes pisados. As histórias brotam e nascem os argumentos, despontam os roteiros, eternizo emoções e fatos. A realidade e o imaginário se cruzam, mas evito os adjetivos para abrir caminho aos substantivos, ações e, ao sempre bem vindo, verbo.
Não posso esquecer o movimento! Talvez seja o momento mais importante. Ele mostra o motivo e explica a razão! É a circunstância que precisa ser eternizada. É mágico e simples.
A inspiração antecede a foto, mas é da imagem que surge a narração.
Em meu processo, visualizo a cena e movido pelo sentimento puro da transmissão, como se tomado por uma entidade, começo a trabalhar. A mesma atenção que uma tecelã dedica ao seu tapete eu apresento em minha trama, cada passagem da agulha se compara com a tinta de minha pena.
Como descrever o meu processo criativo? Pergunta difícil. Acredito que seja algo que surge quando tentamos unir amor e ódio, técnica e estilo, só assim vejo nascerem textos dignos.
O processo criativo me acompanha o dia todo, cada cantar de pássaro ou peripécia infantil é digno de nota em meu eterno companheiro: o bloco de anotações. Nos momentos difíceis apelo, faço surgir o gravador, nele registro minhas memórias mais íntimas. Histórias secretas que perseguem o autor. Temas em busca de final e finais em busca de histórias.
O primeiro de tudo é a foto, mas tudo termina, e(m) ponto.
PS - Somente após as postagens percebi que era para fazer em post único. Desculpem o deslize....
No meu processo criativo tenho outro problema, a ansiedade.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Enxerto Poético
Com toda certeza sou a pessoa mais relapsa com relação a escrita de todos nós. Perco um monte de coisas, não registro. A desorganização em pessoa. O que não pode ser diferente o processo criativo, não tenho nenhuma regra a não ser a de estar sozinha. E qualquer coisa se torna mote. Porém, há períodos de total escuridão e não consigo escrever, aí apelo para qualquer coisa, filmes, livros, poema, músicas, rezas, mandingas e orixás e o que vier é lucro.
Meu presente é Enxerto Poético - Cantáteis, o qual ouvi o Chico César declamando, transcrevo aqui, porém, nada se compara ao próprio. Sintam-se todos presenteados por favor.
Meu presente é Enxerto Poético - Cantáteis, o qual ouvi o Chico César declamando, transcrevo aqui, porém, nada se compara ao próprio. Sintam-se todos presenteados por favor.

Enxerto poético (Cantáteis)
Chico César.
Seu poeta preferido,
Bem antes de ser ferido
Já era ferido.
Antes.
Não visitou as bacantes, as nereidas e as ninfas.
Quis beber de sua linfa.
Esperou…
E não morreu.
Esse poeta sou eu.
De lira desgovernada.
Delírio, musa, amada.
Orfão, bisneto de orfeu.
Eu pra cantar não vacilo.
Digo isso, digo aquilo.
Digo tudo que se disse.
Digo Veneza.
Recife.
Fortaleza que se abre.
Quero que o mundo se acabe.
Se não disser o que sinto;
Digo a verdade.
Minto…
Vertente me arrebata.
Minha voz é serenata.
Labareda e labirinto.
A pena de uma galinha;
Trinta caroços de pinha.
Doce delíro de Vate
Um colírio, um tomate.
Um cartucho de espingarda.
O sangue da onça parda.
É tudo que trago e tenho.
Nada tinha de onde venho.
Leio o que arde sozinho.
Beba comigo do vinho;
Da arte do meu engenho.
Aos que vierem depois de nós - Bertolt Brecht
Em minha adolescência me deparei com um poema que ficou na minha memória. Meu encontro com esse trabalho, de Bertold Brecht, foi através de um informativo, da editora Devir, sobre histórias em quadrinhos.
Ainda tenho esse pedaço de papel em meu baú de manuscritos, engenhocas e feitos e compartilho com os leitores do blog no post abaixo.
Este é meu presente a todos que nos acompanham...
"Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência."
E assim tem passado o nosso tempo??
Ainda tenho esse pedaço de papel em meu baú de manuscritos, engenhocas e feitos e compartilho com os leitores do blog no post abaixo.
Este é meu presente a todos que nos acompanham...
"Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência."
E assim tem passado o nosso tempo??
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Poemas e Poesias
domingo, 13 de dezembro de 2009
A (s) Proposta (s)
1ª Processo Criativo
2ª Deixe um presente
2ª Deixe um presente
DATA DA POSTAGEM- 21/12
(as duas propostas no mesmo post) 1ª Qual seu processo criativo? Como se dá a elaboração de seu(s) texto(s) seja (ele) em prosa ou em poesia. Do nascimento de uma idéia, da chamada “inspiração” (com tudo o que a palavra implica) à efetivação da obra propriamente dita, que caminhos percorre? Prefere silêncio? Ou musica ou um olhar pela janela do escritório, do carro, do mêtro. Talvez nada... e o texto chegue inesperadamente feito chuva em noites de tempestade.
Conte-nos.
2ª Um presente... Que pode ser uma imagem, um poema de autor preferido ou seu. Já que o clima é de festa, aqui, comemoramos poeticamente.
Aos “autores e seguidores” do “escritoslinguagemnocorpo” fica o meu presente
O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Fernando Pessoa.
Novas propostas em 05/01/2010
Forte abraço
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O Dia que Fizemos Contato
Um homem atravessa uma rua no centro da cidade quando sua atenção é atraída para a entrada de um bueiro. Na escuridão úmida do subterrâneo, um par de olhos o observava.
Fixou a visão, acertou o óculos, curvou o corpo procurando melhor ângulo e sentiu um frio lhe percorrer a espinha. Não era um simples olhar, ele tinha fome e desejo.
Ergueu as mãos em direção à boca, seguindo o impulso doentio de roer unhas, mas desviou o movimento em busca de uma testemunha.
Agarrou o braço de um executivo. O homem engravatado em pleno sol do meio-dia, carregando uma maleta e com celular de encontro à orelha, se assustou com o gesto.
Bastou um simples aceno de cabeça para perceber que sua atenção foi chamada para observar o bueiro. Sem compreender muito bem o que acontecia atendeu ao chamado. O executivo arregalou os olhos, abriu a boca em gesto de espanto e não acreditou no que viu.
Dentro do bueiro haviam olhos. Definitivamente eles estavam sendo observados. A dupla permanecia parada, surpresa diante da constatação, não eram olhos humanos. Essa era a única certeza.
Um policial se aproximou disposto a acabar com a reunião daquela dupla estranha. Para a autoridade eles estavam sob o efeito de algum alucinógeno, afinal, o que levaria duas pessoas a ficarem estáticas na rua observando um bueiro.
Aproximou-se, precavido, colocou a mão sob a arma e se preparou para atitudes extremas. Antes de impor qualquer ordem olhou para o bueiro.
Os braços ficaram flácidos assim que constatou, com temor, a razão do comportamento estranho. Olhos o observavam, e não eram olhares comuns, havia medo e desafio. As pernas tremiam e os movimentos pareciam mais difíceis.
Em poucos minuto o trânsito parou, uma multidão se formou em torno do bueiro. Nenhum veículo podia passar e as equipes de reportagens se posicionavam em busca do melhor ângulo daquele buraco.
O primeiro a observar os estranhos seres que transitavam na superfície desmaiou de temor. Logo outros se aproximaram e se assustaram com aquilo que estava tão próximo e nunca antes foi visto, havia vida na superfície.
Uma multidão se formou e grupos se revezavam para dividir a abertura que garantia o contato entre as duas raças.
Tão próximas e tão distantes, tão iguais e tão diferentes.
Uma multidão se formou. Crianças também queriam experimentar o prazer de observar aqueles seres esquisitos que escondiam o corpo e carregavam estranhos apetrechos.
Alguns, na inocência riam. Outros choravam em pânico, temiam que a superfície despencasse sobre suas cabeças.
Exploradores se posicionavam com marretas e brocas. Seguiam rumo à superfície.
Esse foi o dia em que fizemos contato.
Fixou a visão, acertou o óculos, curvou o corpo procurando melhor ângulo e sentiu um frio lhe percorrer a espinha. Não era um simples olhar, ele tinha fome e desejo.
Ergueu as mãos em direção à boca, seguindo o impulso doentio de roer unhas, mas desviou o movimento em busca de uma testemunha.
Agarrou o braço de um executivo. O homem engravatado em pleno sol do meio-dia, carregando uma maleta e com celular de encontro à orelha, se assustou com o gesto.
Bastou um simples aceno de cabeça para perceber que sua atenção foi chamada para observar o bueiro. Sem compreender muito bem o que acontecia atendeu ao chamado. O executivo arregalou os olhos, abriu a boca em gesto de espanto e não acreditou no que viu.
Dentro do bueiro haviam olhos. Definitivamente eles estavam sendo observados. A dupla permanecia parada, surpresa diante da constatação, não eram olhos humanos. Essa era a única certeza.
Um policial se aproximou disposto a acabar com a reunião daquela dupla estranha. Para a autoridade eles estavam sob o efeito de algum alucinógeno, afinal, o que levaria duas pessoas a ficarem estáticas na rua observando um bueiro.
Aproximou-se, precavido, colocou a mão sob a arma e se preparou para atitudes extremas. Antes de impor qualquer ordem olhou para o bueiro.
Os braços ficaram flácidos assim que constatou, com temor, a razão do comportamento estranho. Olhos o observavam, e não eram olhares comuns, havia medo e desafio. As pernas tremiam e os movimentos pareciam mais difíceis.
Em poucos minuto o trânsito parou, uma multidão se formou em torno do bueiro. Nenhum veículo podia passar e as equipes de reportagens se posicionavam em busca do melhor ângulo daquele buraco.
O primeiro a observar os estranhos seres que transitavam na superfície desmaiou de temor. Logo outros se aproximaram e se assustaram com aquilo que estava tão próximo e nunca antes foi visto, havia vida na superfície.
Uma multidão se formou e grupos se revezavam para dividir a abertura que garantia o contato entre as duas raças.
Tão próximas e tão distantes, tão iguais e tão diferentes.
Uma multidão se formou. Crianças também queriam experimentar o prazer de observar aqueles seres esquisitos que escondiam o corpo e carregavam estranhos apetrechos.
Alguns, na inocência riam. Outros choravam em pânico, temiam que a superfície despencasse sobre suas cabeças.
Exploradores se posicionavam com marretas e brocas. Seguiam rumo à superfície.
Esse foi o dia em que fizemos contato.
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Realismo Fantástico
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Via de mão única

- Este homem atravessou a rua. Atravessou sem olhar se vinha carro.
- Meu Deus! Mas porque ele não olhou pros dois lados?
- Sei lá, na pressa, ele sempre pegava o ônibus no corredor central.
- Triste isto. Era um bom homem. Trabalhava de jardineiro na maioria dos escritórios por aqui. Era muito conhecido nas redondezas. Pegava o 2301 todo dia. Mas hoje, vai se saber porque, resolveu atravessar pro outro lado....
- Já avisaram a família?
- Estamos tentando....
- Meu Deus! Mas porque ele não olhou pros dois lados?
- Sei lá, na pressa, ele sempre pegava o ônibus no corredor central.
- Triste isto. Era um bom homem. Trabalhava de jardineiro na maioria dos escritórios por aqui. Era muito conhecido nas redondezas. Pegava o 2301 todo dia. Mas hoje, vai se saber porque, resolveu atravessar pro outro lado....
- Já avisaram a família?
- Estamos tentando....
Era este o burburinho naquela rua tão linda dos jardins. Gente se ajuntando, falando ao mesmo tempo, observando de perto o corpo estirado no chão da alameda arborizada, larga, dividida em duas por um passeio central. Fim de tarde, tarde de primavera.
Somente a moça da janela saberia dar respostas a tantas perguntas. Era uma moça linda, alva, delicada, ares do paraíso. Passava os dias pendurada na janela do andar de cima do sobrado. Infiferente ao tempo, misteriosamente disponível, sempre olhando o movimento. Como uma namoradeira, daquelas que enfeitam as janelas dos antigos casarões de Minas. Com a diferença que se mexia, seduzia, sorria, piscava, lançava olhares de promessas.
O alvo escolhido estava do outro lado da alameda. O jardineiro que deu pra passar os dias sonhando acordado com ela. Já não conseguia mais se concentrar apenas em cuidar de seus jardins. A atenção se dividia entre o trabalho e a mais linda flor; de maior frescor, viço e beleza, que queria cuidar. Foram meses a fio assim. Aquela moça não se ausentava nunca da janela. Dia após dia a mesma rotina. A janela abria-se pela manhã e só se fechava quando o ônibus que o levava sumia no fim da rua.
Tantas vezes já havia sinalizado para que ela descesse e o encontrasse no corredor central... Nada. Assim, foi crescendo a vontade de atravessar a rua por inteiro, de não parar no meio. Suspeitava que ela jamais iria descer para encontrá-lo. Súbito, um pensamento apavorante. Pior ainda que o medo de chegar perto e ver o encanto quebrado. E se um dia ela deixasse de abrir a janela? Não, ele precisava fazer algo por eles.
No dia em que a viu pela primeira vez, havia plantado uma roseira. Observou que o primeiro botão se abriu finalmente. Era branco, lindo. Parecia com sua diva, em cor e frescor. Este era o sinal de que havia chegado a hora, há de ter pensado. Era agora ou nunca.
Fim de mais um dia de trabalho. Com a tesoura de poda cortou a flor recém aberta. Coração aos pulos, atravessou a primeira metade. Ao longe avistou o 2301 vindo, como de costume. Um olhar de quem pedia, pela última vez, que ela descesse e fosse encontrá-lo. Nenhum gesto que esboçasse uma reação. Nenhum movimento.
Antes que o onibus estacionasse e lhe fizesse desistir, saiu em desabalada carreira em direção ao portão do sobrado. Se era pra ser assim, que fosse. Olhou apressadamente para o lado errado e correu. Uma freada brusca, o barulho seco de um corpo caindo no asfalto. A mão aberta. A rosa branca caída, tomando a cor da paixão, tingindo-se de vermelho pelo sangue que escorria.
Em seu medo de perder a perfeita imagem de amor idealizado, se oferecendo a ele, alí tão perto, se dispôs a fazer todo caminho sozinho. Durante meses , sempre com o olhar fixo apenas nela, nunca percebeu que a via era de mão única. Morreu desavisadamente, tentando suprir sozinho, pelos dois, todo trajeto. Como é longa, na maior parte das vezes vã, uma travessia assim, solitária..... só ida, sem vinda...
A janela do sobrado fechou-se , agora de vez. A multidão já dispersou-se, sem encontrar respostas. Também, agora elas já não interessam mais.
Um homem atravessa a Rua...
Um homem atravessa a Rua...
Não a rua, mas, aquela rua. Rua Alemanha. Localizada no Bairro Jardim Europa, na cidade de Sorocaba.
Algumas lombadas, alguns buracos, algumas casas, velhas e novas casas. As velhas são dos moradores que fundaram o bairro, assim como meu pai, as novas, são de moradores que apostaram nesse bairro de classe média.
São poucas as casas dessa rua. Também existe aqui uma igreja “Salão do Reino das Testemunhas de Jeová”.
Sempre existiu uma inquietação em mim. Testemunhas de Jeová?
Títulos, Signos? De acordo com a fé, hão de ser sim testemunhas, servos, ou o que quer que seja.
Em dia de reunião, sempre há um grande movimento nessa rua. Só assim, só “as testemunhas” para fazer essa rua “bombar”.
“Bombar” no bom sentido, bairro de classe média é realmente um tédio para morar. Alguns amiguinhos da escola moravam na periferia e diziam que lá sim, é que existia vida...
Pode ser. Mas, o homem, o homem atravessa a rua. Não! ele, não foi em direção ao salão das testemunhas.
Homem, descrente será? Ateu, será? Observo cada passo desse homem. Passos lentos, serenos. O rosto é belo, que homem belo. Bem vestido, cheiroso. Deve ter uns 22 ou 23 anos.
Ele não notou minha presença. Estava sentada na calçada em frente a minha casa. Observando esse homem. Não! definitivamente ele não me notaria, eu de apenas 14 anos. Uma criança. Uma criança.
Que bom seria se adulta fosse? E tivesse sorte. E chegasse a ele. Que bom seria, se por um instante, ele me notasse e me demonstrasse que ele me queria.
-Vem almoçar! (É minha mãe chamando). - Vem Almoçar Judite! - Já vou mãe.
- Já vou!
Judite... Ele deve ter escutado o meu nome. Lá na escola tiram sarro, dizem que o meu nome é nome de velha. Se ele pensasse assim, talvez, olhasse, olhasse para mim. Por um minuto, apenas por um minuto, amei meu nome. Atravessou a rua e do outro lado da calçada, ali, em minha frente fala ao celular. Parece que procura o vizinho, aperta a campainha e ninguém atende.
Ele podia perguntar-me sobre o vizinho. Eu sei que o seu Dito trabalha o dia todo e só volta quando já está de noite. O seu Dito mora sozinho perdeu a mulher há pouco tempo. Ouvi minha mãe dizendo para o pai:
- Coitado do seu Dito, que sofrimento, 40 anos de casado, sem filhos, agora sem mulher. Temos que dar um apoio. Desde então quando ele chega do trabalho e eu estou na minha calçada. Vou logo puxando papo.
-Tudo bem seu Dito? Hoje o dia do Sr. foi legal? Separei uns tomatinhos cerejas que o Sr. tanto gosta. Seu Dito, qualquer hora dessas vem jantar em casa?
Seu Dito é calado, ele somente solta um sorrisinho meigo. Eu acho que ele gosta de mim.
Tive coragem. - Moço está à procura do seu Dito?
- Sim.
- Ele só volta a noite.
- Aluguei a edícula dele. Trouxe todas as minhas coisas. Pensei que já pudesse acomodar-me.
- Acomode-se em casa, enquanto ele não chega. Almoce conosco. Já que seremos vizinhos.
Batia forte o meu peito. Minhas amigas diziam dessa tal coisa e somente ali eu entendi o que era. O que era amar. Amor a primeira vista. Sim, foi o que senti.
-Obrigado, mas, não posso aceitar. Mas, muito obrigado mesmo Judite, você é uma menina muito gentil.
Fiquei quieta. Muda.
Ele atravessa a rua. Vem em minha direção. Suei frio. Ele pára em minha frente e pede para eu avisar o seu Dito que a noite ele volta.
Foi para o carro.
Estou aqui na calçada. O seu Dito há três anos faleceu. Falaram que ele morreu de tristeza.
Coitado do seu Dito. Há oito anos eu espero todas, todas as noites que aquele belo moço, lindo moço, volte à casa do seu Dito. Coitada de mim!
Ele nunca mais voltou. Mas, a cena está tão viva em minha mente é a gostosa nostalgia de enxergá-lo em minha lembrança todo o tempo. Aquele lindo homem que atravessa a rua.
Seu nome? Não sei! Onde estás? Não sei. Quem é? Não sei.
Não me importo, entendi que como o nome da igreja, tudo é título.
Mas esse amor está aqui latente no meu peito. Atravesso a Rua.
Comprei a casa de seu Dito e a qualquer momento, penso que a campainha vai tocar e esse homem vai lembrar.
- Judite!
Não a rua, mas, aquela rua. Rua Alemanha. Localizada no Bairro Jardim Europa, na cidade de Sorocaba.
Algumas lombadas, alguns buracos, algumas casas, velhas e novas casas. As velhas são dos moradores que fundaram o bairro, assim como meu pai, as novas, são de moradores que apostaram nesse bairro de classe média.
São poucas as casas dessa rua. Também existe aqui uma igreja “Salão do Reino das Testemunhas de Jeová”.
Sempre existiu uma inquietação em mim. Testemunhas de Jeová?
Títulos, Signos? De acordo com a fé, hão de ser sim testemunhas, servos, ou o que quer que seja.
Em dia de reunião, sempre há um grande movimento nessa rua. Só assim, só “as testemunhas” para fazer essa rua “bombar”.
“Bombar” no bom sentido, bairro de classe média é realmente um tédio para morar. Alguns amiguinhos da escola moravam na periferia e diziam que lá sim, é que existia vida...
Pode ser. Mas, o homem, o homem atravessa a rua. Não! ele, não foi em direção ao salão das testemunhas.
Homem, descrente será? Ateu, será? Observo cada passo desse homem. Passos lentos, serenos. O rosto é belo, que homem belo. Bem vestido, cheiroso. Deve ter uns 22 ou 23 anos.
Ele não notou minha presença. Estava sentada na calçada em frente a minha casa. Observando esse homem. Não! definitivamente ele não me notaria, eu de apenas 14 anos. Uma criança. Uma criança.
Que bom seria se adulta fosse? E tivesse sorte. E chegasse a ele. Que bom seria, se por um instante, ele me notasse e me demonstrasse que ele me queria.
-Vem almoçar! (É minha mãe chamando). - Vem Almoçar Judite! - Já vou mãe.
- Já vou!
Judite... Ele deve ter escutado o meu nome. Lá na escola tiram sarro, dizem que o meu nome é nome de velha. Se ele pensasse assim, talvez, olhasse, olhasse para mim. Por um minuto, apenas por um minuto, amei meu nome. Atravessou a rua e do outro lado da calçada, ali, em minha frente fala ao celular. Parece que procura o vizinho, aperta a campainha e ninguém atende.
Ele podia perguntar-me sobre o vizinho. Eu sei que o seu Dito trabalha o dia todo e só volta quando já está de noite. O seu Dito mora sozinho perdeu a mulher há pouco tempo. Ouvi minha mãe dizendo para o pai:
- Coitado do seu Dito, que sofrimento, 40 anos de casado, sem filhos, agora sem mulher. Temos que dar um apoio. Desde então quando ele chega do trabalho e eu estou na minha calçada. Vou logo puxando papo.
-Tudo bem seu Dito? Hoje o dia do Sr. foi legal? Separei uns tomatinhos cerejas que o Sr. tanto gosta. Seu Dito, qualquer hora dessas vem jantar em casa?
Seu Dito é calado, ele somente solta um sorrisinho meigo. Eu acho que ele gosta de mim.
Tive coragem. - Moço está à procura do seu Dito?
- Sim.
- Ele só volta a noite.
- Aluguei a edícula dele. Trouxe todas as minhas coisas. Pensei que já pudesse acomodar-me.
- Acomode-se em casa, enquanto ele não chega. Almoce conosco. Já que seremos vizinhos.
Batia forte o meu peito. Minhas amigas diziam dessa tal coisa e somente ali eu entendi o que era. O que era amar. Amor a primeira vista. Sim, foi o que senti.
-Obrigado, mas, não posso aceitar. Mas, muito obrigado mesmo Judite, você é uma menina muito gentil.
Fiquei quieta. Muda.
Ele atravessa a rua. Vem em minha direção. Suei frio. Ele pára em minha frente e pede para eu avisar o seu Dito que a noite ele volta.
Foi para o carro.
Estou aqui na calçada. O seu Dito há três anos faleceu. Falaram que ele morreu de tristeza.
Coitado do seu Dito. Há oito anos eu espero todas, todas as noites que aquele belo moço, lindo moço, volte à casa do seu Dito. Coitada de mim!
Ele nunca mais voltou. Mas, a cena está tão viva em minha mente é a gostosa nostalgia de enxergá-lo em minha lembrança todo o tempo. Aquele lindo homem que atravessa a rua.
Seu nome? Não sei! Onde estás? Não sei. Quem é? Não sei.
Não me importo, entendi que como o nome da igreja, tudo é título.
Mas esse amor está aqui latente no meu peito. Atravesso a Rua.
Comprei a casa de seu Dito e a qualquer momento, penso que a campainha vai tocar e esse homem vai lembrar.
- Judite!
Fim do mundo

Um homem atravessava a rua. Movido pelo impulso primitivo de chegar. Foi tomado de pânico quando o encarregado de sua sessão se dirigiu a ele aflito "Na sua casa Homem..." deixou tudo, cego...
Já na rua nem mesmo o som dos pneus gritando no asfalto o tiraram de seu devaneio torpe, instintivamente um andar bêbado, trôpego.
O centro da cidade, as ruas em mão dupla e os carros que não davam trégua não indimidavam. Pobre cavaleiro e seus moinhos de vento.
A ausencia de um abrisa empapavam sua camisa em suor, apertava os olhos ao reflexo do sol impiedoso sob as paredes brancas das casas. Buzinas, pneus e caos, um turbilhão de burburinhos rondando sua mente. O sol castigava-o menos que as correntes que apertavam seu peito.
Andava a esmo e a avenida parecia não ter fim, longa, muito longa. Pessoas serpenteavam a sua frente impedindo assim o seu avanço. Atravessou a avenida sem olhar. As árvores nas calçadas não projetavam sombras e o caminha ficava cada vez mais longo e difícil, árido.
Já conseguia divisar lá em cima a esquina que seria a última para que no meio da rua estivesse a casinha com as paredes amarelas um pequeno jardim que morava desde que se casara com ela.
O sol começava a dar uma trégua mas grandes nunvens castanhas tomavam espaço no céu, na rua em frente a sua casa estava tomada de pessoas, curiosos, carro da polícia, ambulância, disputou espaço com aquelas pessoas a tapa. Abriu espaço e correu para a porta, não conseguia ver nada anormal na pequena sala caiada, parcamente mobiliada. Os policiais tentaram o demover acreditando ser mais um curioso, porém, seriam necessário um batalhão para que ele não entrasse no quarto do casal.
Ali na cama, abatida, ofegante, banhada em suor e sangue, estava ela, com um sorriso satisfeito no rosto e o seio alimentando o pequeno menino que acabara de chegar.
Já na rua nem mesmo o som dos pneus gritando no asfalto o tiraram de seu devaneio torpe, instintivamente um andar bêbado, trôpego.
O centro da cidade, as ruas em mão dupla e os carros que não davam trégua não indimidavam. Pobre cavaleiro e seus moinhos de vento.
A ausencia de um abrisa empapavam sua camisa em suor, apertava os olhos ao reflexo do sol impiedoso sob as paredes brancas das casas. Buzinas, pneus e caos, um turbilhão de burburinhos rondando sua mente. O sol castigava-o menos que as correntes que apertavam seu peito.
Andava a esmo e a avenida parecia não ter fim, longa, muito longa. Pessoas serpenteavam a sua frente impedindo assim o seu avanço. Atravessou a avenida sem olhar. As árvores nas calçadas não projetavam sombras e o caminha ficava cada vez mais longo e difícil, árido.
Já conseguia divisar lá em cima a esquina que seria a última para que no meio da rua estivesse a casinha com as paredes amarelas um pequeno jardim que morava desde que se casara com ela.
O sol começava a dar uma trégua mas grandes nunvens castanhas tomavam espaço no céu, na rua em frente a sua casa estava tomada de pessoas, curiosos, carro da polícia, ambulância, disputou espaço com aquelas pessoas a tapa. Abriu espaço e correu para a porta, não conseguia ver nada anormal na pequena sala caiada, parcamente mobiliada. Os policiais tentaram o demover acreditando ser mais um curioso, porém, seriam necessário um batalhão para que ele não entrasse no quarto do casal.
Ali na cama, abatida, ofegante, banhada em suor e sangue, estava ela, com um sorriso satisfeito no rosto e o seio alimentando o pequeno menino que acabara de chegar.
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