segunda-feira, 27 de junho de 2011

Novela

    Assistia todas as novelas, duas, seis, sete, oito e qualquer outra reprise que pudesse passar entre esses horários. Entre sonhos e panelas, desejos e afazeres aquela vida encantada das novelas dividia sua mente entre os devaneios e a realidade, mais devaneios que realidade. Se imaginava a mocinha da novela das seis e num passe de mágica era a própria megera da novela das oito. As megeras tem seu charme, mas isso até o próximo capítulo pois no final queria a mocinha, seus destinos são perfeitos, todo sofrimento em prol ao um destino de contos de fadas.
    Por vezes se revoltava diante do sapato gasto e as roupas de todos os dias, nem as empregadas da novela das sete repetiam figurino, sempre tão coloridos e alegres. E tudo acabaria bem no final, com casamento e festa. Assim seria sua vida, por hora imaginava, mas cria piamente, seria um enredo de novela.
    Sofreu horas e horas a fio o triste destino do núcleo pobre, vítima de carrascos e injustiças. “Ah um dia o mocinho olharia para ela e só ele saberia o seu real valor. E a levaria para sua grande casa, com carrão e mordomo, e o esperaria com seu lindo vestido longo no topo de uma escadaria enorme.” Ensaiava mentalmente o que diria quando o mocinho se declarasse, diria palavras bonitas, nem sabia o significado de muitas delas, mas eram bonitas.
    Um dia, como outro dia qualquer. Acordou cedo com a cara inchada, descabelada, insatisfeita com seu destino tão lento, dia de feira, a patroa queria que fosse cedo, não podia perder o melhor da feira. Arrastou as sandálias pelo asfalto com a cabeça nas nuvens. Entre pepinos e abobrinhas o moço era lindo, a voz que lhe cortejava para uma compra perfeita e lhe piscava um olho galante. O coração lhe saltou à boca. Se deteve analisando as possibilidades. Virou-lhe as costas afinal, o mocinho não estava encerrado num cubo.

sábado, 25 de junho de 2011

Ruídos do Centro de São Paulo


O vagão vazio da alma curiosa está parado na estação Liberdade. Aponta para a rua, subo. Subo pelas escadas rolantes da estação, cantando Villa-Lobos. Louco, rouco. Corro pela rua vazia de sentidos, e desço na esquina que a corta. Rasga coração da avenida. Travessia de sentidos, ouço ruídos transeuntes, me perco. Não geograficamente, mas, psicologicamente. Percebo que nada mais existe para me receber e que nada se enxerga quando não se quer ver, nada respira quando não há necessidade. Tento gritar, mas o choro n.10 roubou-me a voz. O que fazer? Nada, meu celular se foi na Sé, meus pensamentos se perderam no caminho, meus sentidos pararam na esquina para comer no açaí. Me percebo vazio. Olho em volta, apenas pessoas de braços cruzados me percebem, não me recebem. Acima, na Pérola Byington, desisto. E volto, todo o percurso, para tentar recuperar o que me foi roubado. Mas, desolado, resolvo escrever em um pedaço de papel com o extrato do meu cartão de débito no vermelho: nunca sair de casa, sem anotar pra onde vai. Pois se o caminho te desorientar, você saberá pra onde chegar. Pois nestas andanças sem sentido, acabei perdendo forças ao invés de algum lugar voltar. Fato, devo pelo menos anotar o número do lugar.

domingo, 19 de junho de 2011

"O DESFECHO"


Lendo o texto de Bandeira , AQUI,  percebemos o impacto de um desfecho não esperado pelo leitor. Muitas vezes, o momento mais importante  da construção do enredo é o fim da história, o desfecho. O desenlace. Principalmente em anrrativas curtas, é geralmente importante manter o leitor preso ao desenrolar das ações, com a imaginação seduzida, com a curiosdiade fisgada até o fim até o desenlace

Nosso hóspede

Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe o silêncio e um impecável atendimento. Não posso dizer que não ficava intrigada toda vez que o via descendo as escadas. Arrastava um pouco a perna o que aumentava a áurea de mistério que envolvia sua vida, além da minha própria desconfiança. E, a bem da verdade, a desconfiança não era só minha, não. De hábitos estranhos saía de manhãzinha levando uma pequena maleta preta e só retornava a noite. Exatamente no momento em que nosso hóspede chegava eu sempre me encontrava sozinha na portaria. Foi quando numa dessas noites e com um céu estranhamente estrelado, a lua indo alto, que percebi: não voltou com a maleta,  e as mãos estavam manchadas de vermelho. Sangue, pensei.  Tive a exata sensação que ele leu meu pensamento ,e, também notou  o meu espanto, pois rapidamente olhou-me nos olhos e a queima-roupa disse: A próxima será você. Quis correr, mas não consegui. E ele rindo muito falou: Vermelho deve ficar muito bem  para você. Sou cabeleireiro. 
sueliaduan

Podemos perceber como a preocupação com o desfecho torma mais interessante textos, histórias, poemas.  No texto de Sueli aduan, a surpresa do final inesperado parece ter como fator comum aliviar a tensão o "choque" das expectativas do leitor, e fazê-lo rir, desconcertá-lo, semelhantemente ao poema de Bandeira.

DATA DA POSTAGEM 04/07/2011

 PROPOSTA

Escreva um conto curto ou um poema

com desfecho inesperado.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Do ato de conceber


Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo de pensar por si. E uma folha é uma folha tão somente, e sempre bela. Podem ser secas com suas nervuras amarronzadas e quebradiças ou ainda verdes brilhantes, cheias de vida. Árvore, papel. Não importa.

Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo de olhar, observar. E um copo é um copo tão somente, e sempre belo. Podem ser de vidros transparentes, jateado ou de cristal, âmbar, azul. Cheio ou vazio. Não importa.

Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo do apreciar o movimento. E um corpo é um corpo tão somente, e sempre belo. Nem sempre nu é que se encontra livre; nem sempre sorrindo, feliz; nem sempre se sabe. Não importa.

Era assim que concebia a beleza.

Uma folha,
Um copo,
  Um corpo.

Palavra.
Vinho.
Prazer.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Deixe o amor invadir seu edifício

O amor é diferente de todas as coisas delicadas que já vi: é a mais delicada de todas.
Ou se percebe nele a fragilidade de cada instante, ou não se percebe nada: ou se faz amor às avessas, com insultos, berros, lágrimas.
O amor volta
e cura as feridas como uma espécie de tempo morno e úmido que invade a sala.

O amor tem a delicadeza das florestas, como um broto de planta, um pássaro catando gravetos, a suavidade da natureza invadindo um edifício abandonado: primeiro as poeiras, depois os bichos, depois a mata.

E tudo ali se renova, como no amor, na delicadeza, do seu jeito de me acalmar, com amor com chás, piadas, sorrisos e beijos encantadores.
É claro,
assim como o homem dominou a delicadeza das florestas, dominou também a do amor: esse que tanto se faz, tanto se faz às avessas, com gritos, pontapés, armas, festejos de morte, à mercê.

Mas isso deixamos lá fora, longe do nosso apartamento.
Perto de você
estou perto de uma cachoeira de amor correndo suas águas mornas.

*Imagem daqui: http://www.flickr.com/photos/3sth3r/2065611897/

sábado, 4 de junho de 2011

Memórias de um silêncio eloquênte.

            Pensei em te agarrar pelo colarinho, te chacoalhar, gritar, pensei até em te esbofetear.  Até entender o que estava fazendo.
            Pensei em ignorar.
Pensei em disfarçar, em me fingir de santa.
Pensei em dar um tempo.
Pensei em sumir.
Pensei em te castigar.
Pensei até em te humilhar. Causar escandalos. Colocar sua vida na lama.
Pensei que se eu dissesse, que se eu me fizesse presente e se relevasse entenderia.
Eu pensei também que isso tudo era uma grande bobagem. Uma coisa de momento, que iria passar e eu tocaria a vida.
Ah pensei em ir atrás.
Pensei em implorar.
Eu pensei...
Em fugir.
Pensei em correr.
            Em me esconder.
            Pensei em que faria com essa raiva, que é a antítese desse amor.
            Diacrônico.
            Pensei, pensei tanto, pensei tudo.
            É o que me há de fazer.
            E guardei o silencio.
            Que é eloquente.
    ... não há de ser em vão.
   

sexta-feira, 3 de junho de 2011

AMO-OS CARINHOSAMENTE



Fecho a tela da pesquisa
Melhor não saber nada
Coisas que para dizer a verdade temo
Passo longas horas
No processo de espera
Longos dias deitada
Longas noites procurando nomes...
Tantos nomes difíceis de gravar
May, Selenia, Valéria, Dani, José, Romério...
Não há nada melhor
Do que acordar na madrugada
E ver que estão todos ali
Me dizendo alguma coisa
Enquanto eu aborrecida e indisposta
Tentando mudar o sentido
Então, Patricia, insistia nos eventos
Uma vez ou outra contava os episódios de sua vida
Seu trabalho
Suas lutas
Eu, silenciosa e absorta
Passando as horas
Olhando a tela
Uma música e uma voz dizendo:
Será um brilhante, um brilhante dia de sol
Pensei nisso - pensei e pensei
Fecho os olhos e
Olho para as nuvens
O esplendor do mar e do sol
enquanto as palavras jorram
rápidas e eloquentes, como nunca

Mlailin


segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Liberação da linguagem e do Pensamento"

 
Existem experiências que nos despertam o fluxo de idéias e de palavra, que nos trazem o gosto de estar escrevendo; além disso, experimentamos o reconhecimento de que estamos redigindo com a nossa própria voz, com as nossas palavras, escrevendo o que queremos, o que faz sentido para nós. Dentre inúmeras experiências de liberação, provavelmente a mais fecunda seja a enumeração. Enumerar é um dos modos básicos de se redigir um texto, um modo milenarmente praticado, muito importante na literatura — principalmente no Modernismo.

A escrita enumerativa não substitui a escrita discursiva. São duas formas diferentes de escrever, de certo modo opostas, mas complementares. A associação por analogia, característica da enumeração, vai revelando a presença de acontecimentos, lembranças, objetos, iluminações, desejos, contradições, marcas, sentimentos, sensações, ausências, sonhos, de elementos que são a própria matéria-prima do texto enumerativo.

Enumerar e descrever; Enumerar e narrar; Enumerar e dissertar; Enumerar e definir. Observe como isso se acontece no poema em prosa de Jorge de Lima, AQUI ,e também no belíssimo: Sonetos-Luis Vaz de Camões, AQUI,   E há muitos outros como: — “Perguntas de um trabalhador que lê”, de Bertolt Brecht, “Felicidades” do mesmo autor, “Cidadezinha qualquer”, de Carlos Drummond de Andrade.



DATA DA POSTAGEM 13/06/2011

PROPOSTA

Escreva um conto curto ou um poema no qual
ocorra o processo enumerativo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Segundo período da faculdade de psicologia da federal


É difícil precisar o segundo exato em que um qualquer pensamento mata qualquer coisa no corpo que passa então a ser apenas uma memória do que já foi um dia. Mas por um motivo simultâneo, o grupo de amigos do segundo período da faculdade de psicologia da federal acordou na manhã de sexta com qualquer coisa faltando em si, o que resultou em um frenético desejo de cuidar da própria vida. Como só tinham aula na faculdade à tarde, usaram a manhã para fazer coisas.

João cuidou de fazer a barba, cortar o cabelo curto e comprar um tênis que substituísse as alpargatas compradas há dois anos na Bolívia. Marcela telefonou às 10:30 para transformar em ex-namorado o que então era só um cansaço, e confessou desejar sinceramente que ele fosse se foder. Lívia passou na farmácia para comprar drammin, sal de frutas e remédio para o fígado e aproveitou para anotar, equilibrando o cigarro e a caneta entre os mesmos dedos, o telefone da religião perto de sua casa que misturava ioga, budismo e macrobiótica e que não era bem religião, mas uma filosofia de vida. Alfredo foi até a rodoviária comprar passagens para passar o próximo final de semana em Passos e, reunido à sua família, interá-los de seu homossexualismo. Estér escreveu uma lista com dez motivos para não se suicidar e a meteu na bolsinha que carregaria pelos próximos setenta anos. Só Minerva fez exatamente o que fazia todas as manhãs: foi ao treino de dança, como que excluída da necessidade dos outros de mudar porque já tinha os cabelos na altura certa, a cintura de bailarina e o amor voltado todo para a dança. Era o que Estér dizia dela, que não mudaria nunca porque era perfeita e navegava rumo ao futuro como um barquinho charmoso cortando águas mornas e serenas. 

À tarde, quando se encontraram na cantina antes da aula de história, João cuidou de fazer piada sobre seu próprio novo visual e manter escondidas suas verdadeiras resoluções. Marcela gritou que estava solteira assim que foi avistada de longe. Lívia ficou do lado de fora porque estava fumando, não tirou os óculos escuros. Alfredo cismou de esfregar ininterruptamente as palmas das mãos que sentia geladas e quis animar o pessoal a pedir um café quente. Estér pediu uma salada de frutas e gostou do gosto de decidir e fazer o que decidiu: viver: isso disse aos outros sorrindo. Só Minerva não foi à aula, porque passou a tarde morrendo no hospital das clínicas por conta de um aneurisma cerebral. 

Quando souberam da notícia, sentiram escapar por entre os dedos os cuidados com suas próprias vidas e, entre abraços e pêsames, sussurraram que tudo muda de uma hora para a outra à sombra do destino. João trancou a faculdade de psicologia, cursou engenharia, mas só se formou em biologia onze anos depois. Marcela casou-se sem amar, e teve três filhos. Lívia nunca conseguiu parar de fumar. O pai de Alfredo passou quatro anos e três meses sem dirigir-lhe a palavra. Não conseguiram precisar exatamente a hora em que Minerva morreu, mas dizia-se que à mesma hora Estér anunciava, enquanto comia uma salada de frutas, que havia decidido viver. Como Minerva. Como um barquinho charmoso cortando águas mornas e serenas.

Estér morreu aos noventa e três anos, muito depois de seus amigos de faculdade, de quem sentia falta e por quem, às vezes, chorava, especialmente quando pensava em Minerva e desejava lhe falar que era pra ter acontecido com ela, era pra ter sido ela, era para ela ter ido primeiro. E o que pode fazer Estér então, senão viver setenta anos com um motivo a menos.


*Imagem de: Gatnau/Flickr: 
http://www.flickr.com/photos/gatnau/224691493/sizes/m/in/photostream/ (c/c)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"LOUCO!"


Qualquer semelhança não é mera coincidência
Juvenal havia pedido a seu patrão para sair uma hora antes do horário. Sua esposa Maria queria que ele chegasse mais cedo para ajuda-la com o jantar para o filho. Quer dizer não era seu filho. Era o filho mimado de sua Maria, sua querida Maria. Quase cinquenta anos de casamento, tinha veneração por ela. E assim Juvenal correu para fazer sua vontade.
Eram quase 19Hs. e Maria do Juvenal estava na metade do jantar. Depois de quatro anos com o filho morando em Hortolândia, aquela para ela seria uma noite especial. Iria comemorar a volta do filho querido. Tanto tempo longe. Essa não era a primeira vez, ele já esteve uma vez em Araraquara. Mas a vida é assim mesmo. Que família hoje não sofria? Por ele era capaz de qualquer sacrifício. Até mesmo de sacrificar a sua vida, como fez muitas vezes. Os vizinhos podiam sentir o aroma gostoso de um frango sendo frito numa panela de ferro. Mesmo com os olhos cansados e sentindo uma dor insuportável no nervo ciático, iria aguentar, e depois logo mais, ela poderia descansar e amanhã ficaria o dia inteiro na cama. Quase oito horas e a campainha tocou. Maria enxugou as mãos e foi atender. Se jogou nos braços do filho num longo e demorado abraço, deixando as lágrimas caírem em seu rosto enquanto alisava os braços daquele homem de 53 anos, estatura média, gordo e oleosos cabelos claros. Depois dos abraços e beijos os três sentaram-se à mesa da cozinha e o jantar foi servido.
Meia hora depois ouviu o filho dizendo ao pai que não devia se preocupar. Que agora tudo iria dar certo. Precisava de alguma quantia, não era muito, era o suficiente para pagar as dividas que havia feito nos anos em estivera fora. Eles sabiam como era difícil encontrar um emprego. Depois que encontrasse um lugar para ficar, e a poeira baixasse, poderia cuidar melhor da sua vida, mas agora precisava de ajuda, seria só essa vez. Juvenal ficou olhando-o, apreensivo. Há quanto tempo vinha aguentando isso. Por quanto tempo ainda teria que aguentar isso? Quatro anos preso pelo mesmo delito e pela segunda vez! Não aprendera nada. Nunca iria aprender nada. O filho percebendo a angústia do pai disse, um pouco mais brandamente: Vamos tomar um café. É disto que está precisando para reanimar-se.
A caixa de fósforos havia voado pelos ares. Na porta Zé Branco apanhou-a e colocou-a no bolso. Era quase meia noite, quando se afastou da casa de tijolinhos guiando o carro do seu pai Juvenal. A pequena distância dali, no posto de gasolina ele parou tirou algumas notas do bolso e pediu ao frentista que enchesse o tanque, enquanto ia buscar uma cerveja.
Na manhã seguinte quando Aninha a empregada da casa chegou, estranhou encontrar a porta da sala fechada só com o trinco. Mas pensou que idosos sempre esquecem. Seguiu até a cozinha, mas não entrou ali mesmo na porta colocou a mão na boca segurando o grito enquanto corria em desabalada carreira para a casa vizinha.
Cont...
mlailin

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Uma noite estranha

Era noite de Natal, estavam todos reunidos na sala, ainda esperando a chegada de outros convidados, Roberto estava nervoso, pois era o primeiro Natal de casado e não sabia se estava recebendo bem os convidados, preocupado com Marina, que não saia do quarto para ajudá-lo na recepção.
Marina estava lá, sozinha trancada, tomando coragem para a decisão que mudaria sua vida.
convidados rindo na sala, todos animados, comentando do capricho de Marina ao prepaparar o cardápio, a decoração, tudo perfeito e de bom gosto, bem ao estilo dela, Roberto rindo amarelo e arrumando desculpas para a ausência da esposa.
Ela decidiu, então, que mudaria tudo aquela noite, não aguentava mais esperar para comunicar, sabia que seria um choque, mas aguentaria a reação, chega de se importar com a opinião da família, já havia estudado o que eles queriam, casado com quem eles concordaram, o marido era um bom homem, bem mais velho, amigo do pai.
Quando ele declarou-se para ela, o pai fez de tudo para que aceitasse a proposta de noivado, e como ela tinha muito carinho por Roberto, sem esperança de ficar com seu verdadeiro amor, acabou aceitando.
Enfim, mas agora resolveu tomar as rédias de sua vida, desceu a escada, pediu a atenção de todos e deu a notícia...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Noite densa, noite de trevas.

Belíssimo/forte/arrepiante: "Noite densa, noite de trevas", da minha querida  amiga  Márcia Lailin, será postado no OFICIO.
E com o aval dela. 
grata, Lailin.

sábado, 7 de maio de 2011

Aroma de Café


Indecisa escolheu não acender todas as lanternas da entrada, os convidados, os de sempre, conheciam muito bem o caminho até a sala de jantar. Agindo dessa forma poderia olhar e ser olhada sem que ninguém desconfiasse de nada. Há tempos vivia esse dilema: — encontros escondidos, bilhetes trocados por debaixo da mesa, um sorriso mais demorado, coisinhas delicadas que tão bem lhe faziam. E, toda cheia de si não tinha o menor interesse em mudar essa situação, não. Situação que Heitor achava insustentável e com desculpas, que não convenciam Beatriz, ele não comparecia em todos os jantares.


Esse fato muito alegrava Quitéria que podia se recolher mais cedo, já que Heitor era o único dos convidados a tomar café após o jantar. Ainda ontem pensei sobre o fato e o que poderia ter dito. No momento a gente nunca diz né Quitéria. Você sabe tudo é sempre depois. Quitéria ali no canto, esperando a água ferver, ouvia Eulália com seu jeito desbocado de falar e mesmo sem entender muita coisa balançava a cabeça numa atitude de concordância. De menina aprendeu a concordar com todos.


O aroma do café chegou até a sala e Heitor já de pé se dirigia à cozinha seguido discretamente por Beatriz. Ao vê-los juntos Quitéria entendeu, como num passe de mágica, o que Eulália tentou evitar. Na hora, o que me veio foi tirar a faca da mão dele e limpá-la. Porque tudo foi também rápido. O chapéu caído ao chão, Beatriz morta. Seu grito abafado pelas risadas vindas da sala. O silêncio de Eulália que mesmo pressentindo o infortúnio calou-se. Uma dor inimaginável percorreu todo meu ser. A dor em constatar que no momento a gente nunca diz. Tudo é sempre depois.

terça-feira, 19 de abril de 2011

"Um leitor apressado"

 
Um leitor apressado dirá que "A cartomante" , AQUI , é a história clássica de um triângulo amoroso, no caso entre Rita, Vilela e Camilo. Não deixa de ser verdade – mas reduzir o conto de Machado a isso é menosprezar o que ele tem de mais importante. Machado explora em seu conto, sim, clássicos aspectos psicológicos: a ansiedade de Camilo, as dúvidas e temores de Vilela (que o escritor levou ao extremo, no romance, em Dom Casmurro, com o triângulo Bentinho, Escobar e Capitu), o amor escorregadio de Rita.

Mais que esses eventos psicológicos, contudo, o que está em jogo em "A cartomante" é a relação do homem com o desconhecido, que se sintetiza na figura da adivinha. A possibilidade (ou sonho) de antevisão do futuro, as superstições a respeito das intenções ocultas que regem as coisas, o poder (ou a impotência) humana para manipular o destino, a presença secreta do mistério nas miudezas da vida cotidiana são temas que, numa corrente paralela, sustentam secretamente o relato.

Deparamos, nesse conto, com a grandeza de Machado: como quem não quer nada, narrando histórias comuns e até banais, com personagens que se deixam envolver pelo previsível e que se doam ingenuamente aos apelos e seduções mais vulgares, ele põe seu leitor frente a frente com algumas das mais difíceis questões da existência humana. É no particular, e é ao encontrar uma maneira inconfundível de tratar esse particular, que Machado de Assis se aproxima das forças secretas que animam nossa vida. Forças que ele esconde no cenário banal do consultório de uma cartomante, um lugar em que se decide, na verdade, não o destino humano, mas nossa impotência diante desse destino.
“É através da aparente simplicidade que o conto, em geral, ilude, arrasta e prende o leitor”. João Castello

João Castello é jornalista e escritor, autor de "Vinicius de Moraes: O poeta da paixão" (Companhia das Letras, 1993), "Inventário das sombras" (Record, 1999) e "A literatura na poltrona" (Record, 2007), entre outros.

DATA DA POSTAGEM 08/05/2011

PROPOSTA
Escreva um conto, curto, que relate uma história enquanto outra, de modo submerso, mas ainda assim visível, se desenrola simultaneamente.

Por exemplo: o conto relata os acontecimentos em um jantar formal enquanto, na cozinha, a história mais importante acontece. Mas tudo o que o leitor tem é o relato do jantar, e a segunda história, a secreta, a ele se revela só através de pequenos sinais, que dele exigem um esforço de decifração.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Vidrado


Três pessoas aguardam na sala: duas mulheres e um homem. A sala de espera foi modernizada com poltronas verde-limão e um vidro preso ao teto que simula um aquário, bem, não exatamente um aquário, é um vidro fino que, quando ligado à tomada, explode em tons de neon, verdes, azuis.

À decoradora eu havia sugerido um aquário - com água, peixes e tudo mais - para acalmar os ânimos da espera, mas de certo não fosse em vão que ela cobrasse tão caro, eu mesmo é que não consigo entender direito esse vidro. Agora, através dele tento distinguir quem seriam os meus clientes. Minha atitude esquiva de deixar pender apenas minha cabeça para fora de minha sala é força do hábito da profissão: sou detetive.

O corte de gastos incluiu a secretária, assim pude pagar a decoradora e o vidro. Quem então anuncia a chegada de um novo cliente é uma campanhia acionada por um sensor acoplado à porta, mas quando o quarto cliente adentra, o susto me faz procurar a antiga mesinha que não está mais ali em minha sala e, tentando me apoiar no que agora é vazio, caio. Levanto-me rapidamente e vejo, através do vidro, as duas mulheres e o homem ainda sentados nas poltronas verde-limão, como se nada houvesse acontecido.

O que foi aquilo? A campanhia havia sido estrondosa e ainda ecoava em meu cérebro numa incômoda reverberação. Contorno o vidro, bom dia, vocês viram entrar mais alguém? As duas mulheres apontam para os banheiros, o homem permanece cabisbaixo. Com licença.

O quarto cliente é uma mulher: nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem branca nem negra, nem bonita nem feia, ou assim deveria ser embora meus sentidos pareçam me enganar porque de tão bonita que me parece, chega a brilhar, ainda mais depois de abrir a boca e me lançar uma voz nem doce nem amarga, aveludada: desculpa, precisava usar o banheiro. Sem problemas, gaguejo.

Pensei que fosse se retirar, mas ela se senta na poltrona marrom-velho que a decoradora achou por bem manter. Põe-se a folhear uma revista. Naquele ângulo, sua pele reflete os tons neon verdes e azuis do vidro eletrônico e os reflexos formam desenhos indecifráveis nas paredes. Intrigante. O senhor está se sentindo bem? Ah, só agora eu posso entender o que significa uma voz aveludada! Não se mexa, por gentileza! Os outros três clientes parecem por demais absortos em suas histórias de traição para enxergarem aqueles reflexos. Peço que voltem mais tarde. Preciso de uma secretária, se interessa pelo emprego, assim não precisaria me pagar pelos meus serviços? Poderia ser apenas no período da manhã? Claro, só gostaria que você se sentasse sempre nessa poltrona.

Desde então, dedico minhas manhãs a decifrar os desenhos que se formam nas paredes da sala de espera. Parece haver um padrão, mas ainda não consegui identificá-lo. Tenho que dizer, entretanto, que nunca vi nada mais bonito e temo não conseguir mais viver sem ela, nem sem aquele vidro. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ENTROPIA






"Como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes... Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saia o arco-íris. Um arco-íris que cubra a terra de um extremo ao outro...” – Murilo Rubião.
Acordei várias vezes durante a noite sentindo um frio gelado que entrava pela janela, mas se a janela estava fechada de onde vinha esse frio? Não iria levantar pra ver. Poderia pegar outro cobertor, mas isso significaria levantar da cama? Não! Era só levantar o corpo, o cobertor estava no final da cama. Esse simples processo poderia acordar meu cérebro e eu estava no meio de um sonho. Ele poderia se perder não que fosse bom, não existem mais sonhos bons, se é que algum dia eu tive algum. Eram todos repetitivos, todos conhecidos. Estava cansada deles. Estava cansada de passar pelo ritual, o ritual do começo do sono. Um processo tão trabalhoso que a simples ideia de interrompê-lo me deixa aflita, porque é melhor dormir do que acordar. Fechei os olhos novamente e com o corpo gelado voltei para onde estava.
Não que tenha acordado mal humorada acordei foi chateada. Chateada com a repetição minha de cada dia. Já está tudo programado. Não haverá novidades nenhuma nesse dia, será tudo igual ao dia que passou e eu cheguei à conclusão de que não levantei em dia nenhum estou contando tudo isso em sonho. Um sonho repetitivo. Se é um sonho por que as pessoas a minha volta me chamam? Elas me chamam porque precisam encher a paciência de alguém. Por causa disso perdi minha memória e hoje é um tormento saber onde estão minhas chaves, se a porta está fechada e o ferro está desligado. E só lembro isso quando estou lá na casa do chapéu. Foi pra isso que nasci: pra ser posta a prova. Faça isso, faça aquilo. Se fazer isso ou aquilo fosse bom não haveria problemas, mas não, tudo cede a desordem total. Ao abandono a desintegração. Finjo que acredito na lei e na ordem e naqueles que dizem que são bons honestos e que logo mais serão arrebatados para o céu. Me engana que eu gosto. Foi preciso que eu aprendesse a misturar a indiferença com a compreensão. Acima de tudo, foi preciso nunca perder o sangue-frio. Agora quero ficar na cama. Já que é um sonho que eu fique aqui deitada. Por tempo indeterminado. Até saber em definitivo que essa vida é um sonho. E eu não quero sair dele.  Não quero mais pagar as contas. Nem tirar o pó dos móveis, muito menos varrer a casa. Tampouco estou me importando se Joana não quer mais andar e sua perna esta ficando atrofiada. E isso que ela quer. Conscientemente é isso. Depois de tentar me tirar do sério, ela diz que eu sou calma demais. Não sei de onde vem a minha calma quando a minha  vontade e lhe dar uns chacoalhões. Assim como Annie Sullivam deu em Hellen Keller. Decidi, não vou mais dizer a ela sobre sua linda casa e o lindo jardim que tem nos fundos da rua. Tampouco vou falar como faz bem para um corpo doente deitar na grama e olhar as nuvens e imaginar em qual figura cada uma se transforma. Ela acha tudo isso uma bobagem.  Ela não quer saber de nada, exceto do seu terço e suas rezas. Espera um milagre. Diz que tem fé. Se fé resolvesse não existiria mais aleijados nesse mundo.  Eu digo que a fé precisa de obras senão é morta. Ela diz que eu com o meu pessimismo não ajudo em nada. Desde o AVC, em agosto do ano passado ela se tornou amarga e triste. Tentei ensiná-la a viver em sonhos, ela se recusou. Preferiu viver a realidade imposta a ela a vida toda. Insistiu para que a TV ficasse meio metro longe de sua cama e o controle debaixo do travesseiro, juntamente com o relógio de pulso e o despertador. Continuou olhando a hora a noite toda e despertando as cinco com a sensação de que estava atrasada. Continuou tomando rapidamente o seu banho, fazendo isso em eternos resmungos e indignações e não deixou de ter pressa, muita pressa, como se ainda precisasse pegar o trem e bater o cartão de ponto.   Vou cobrir a cabeça e não vou mais pensar em nada. Não quero mais saber dessa história.  Minha mente vai ficar em branco. Pronto.
 Quero que um infeliz me dê um motivo. Um só para levantar essa manhã? Uma falta de sentido. Tudo tão ridiculamente maluco. Se minha mãe estivesse aqui ela falaria uma coisa engraçada que me faria levantar. Se meu pai estivesse aqui ele pegaria a cinta e eu levantaria rapidinho. E meus irmãos. Esses seriam os mais cruéis. Eles gritariam dizendo que eu sou uma preguiçosa que só quero ficar na cama e que se quiser vencer na vida deveria vender a alma ao diabo, como eles fizeram. E como castigo eu irei viver o resto de minha vida no quartinho dos fundos, aquele destinado as tralhas. Não me dariam chance. Sou órfã. Órfã de pai, de mãe e de irmãos vivos. Sorte deles que estão mortos e não sofrem mais os dissabores da realidade. Azar o meu. Olho para os livros na estante. Livros que sempre me deram força. Fico procurando alguma coisa neles e não encontro nada. No banheiro, que é outra biblioteca da casa, encontrei o livro: 100 impulsos positivos. Abri na sorte como fazem as pessoas com suas Bíblias e surgiu a página 87 que dizia: Animemos alguém hoje! Pensei: Animar! Quem? Quem quer ser animado? E para quê? Comecei a ler, mas até as palavras positivas de Goethe me soaram banais. Quando fechei o livro estava com vontade de vomitar. Acho que tudo começou depois daquilo. Não vou falar sobre aquilo, eu me recuso a falar sobre aquilo. E depois, todo mundo sabe, já falei pros quatro cantos da terra que minha vida mudou de remediada para pior desde o massacre de Beslan. Tamanha covardia, eu ainda não tinha visto. Tá certo que existiam milhares de outras, mas com crianças, foi minha primeira grande desgraça. Agora eu estou fora disso eu não preciso de mais nenhum outro metal atordoante em minha cabeça ou em meu corpo. Assim como os judeus que desde o holocausto não precisam mais de nenhum tipo de terror eu também não. Não tenho mais cabeça. Essa que vocês olham aqui em cima do meu pescoço não é minha, é uma emprestada para representar. Posso tira-la a qualquer momento, como fazia com minhas bonecas. E essa mulher que eu quase esqueci seu nome verdadeiro, eu detesto, principalmente porque ela foi fabricada tem os cabelos gordurosos que prende em um coque ridículo no alto da cabeça. Ela nada representa em minha vida. A identidade que ela carrega é uma sinistra invenção... Mas, prossigamos! O que incomoda nesse sonho e que muitas vezes tenho que sair dele e agora quando preciso mudar o fundo musical não encontro um diferente porque não consigo ter acesso a Israel pra que ele me diga o nome daquele cara, aquele que estava em sua página e tem o estilo de Phillip Glass e só ele sabe. E não adianta perguntar pra ninguém porque ninguém soube me responder o que significa essa desordem do universo observável e muito menos o que significa a nossa vida aqui na terra. Porque não vivem em sonho. Aliás, todos os meus amigos, quando eu encontro um, perguntam: Onde você estava? Eu e que deveria perguntar isso a eles. Lembro que anotei o nome do compositor em um papel. Aqui em casa papel é uma papelada. Gostaria muito de um dia fazer uma limpeza e jogar o que realmente precisa ser jogado. Fico sempre achando que vou precisar deles e vou socando, socando em algum lugar e quando preciso quem disse que eu acho? Por que eu não peguei o e-mail de meio mundo só pra dizer que eu estou num sonho morrendo de saudades de alguma coisa que eu não sei bem o que é. O que eu posso fazer é sonhar com eles e dizer isso a eles em sonho. Isso seria possível se eu acreditasse neles. Quem?
Agora, que eu estou sonhando isso é verdade. Não é possível viver essa vida que não seja em sonho. Quem vive uma realidade que levante a mão? Não falei? Aprendi como viver esse sonho. É só ficar quietinha e fingir que não é com você. Depois de tanto dizer a mim mesma: “Isso é verdade”. Acabou por ser verdade. Isso é um sonho e daqui a pouco não irei acordar. Minha mente já sabe disso e quando eu começo a ficar aflita porque não encontro meus óculos, mesmo tendo milhares esparramados pela casa e quando o encontro, ele esta embaçado e sujo, e eu preciso dele urgentemente porque tenho algo para escrever ou algo para ler e ai eu preciso encontrar um pano macio para limpa-los e por mais que olhe no meio dos panos não encontro e meu sangue começa a correr muito rápido e muito quente e meu cérebro começa a pesar e antes que as faíscas dos olhos comecem a sair ouço uma voz interior dizendo: “Isso é um sonho sua boba, você esta sonhando, olha o pano aqui e os óculos ali, você estava sonhando, como sempre”. Que alívio sinto então. Ou quando andando na rua encontro um Nóia, passando por mim, feio como o diabo, tenho a sensação de que ele me viu, e descobriu que não estou em sonho e irá sacar a arma que  carrega na cintura e furar meu coração. Tenho somente um segundo, um milésimo de segundo. Escuto a voz dentro de mim dizendo: “Bobagem isso é um sonho”. E ele passa por mim, e eu passo por ele tão leve, assim como o vento balançando os meus cabelos e refrescando o meu rosto.
O mais difícil depois de aprender a viver em sonho e tentar dizer a si mesmo e aos outros: “Eu estou sonhando”.  Ou então cansada de ouvi-los buzinando em meus ouvidos: “Você precisa acordar, se divertir, arrumar um namorado, ou o que é pior, casar. Ir ao shopping, você precisa comprar roupas. Está se vestindo como uma velha. Olha só pra sua cara de acabada!”. Eu ainda tentava. Juro que eu tentava tá certo que na maioria das vezes era de mau humor, e na marra e pior; representando que compartilhava uma realidade que já não ara mais minha. Aliás, nunca foi. Forçaram-me. Foi sempre tudo muito forçado. Mas como dizer isso? Eles diriam: Você é louca? Ou: Ninguém nunca reclamou. Uma violência. Foi como alguém violentando outro alguém anos seguidos e por trás.  Devo agradecer por isso? Obrigado por terem me colocado numa camisa de força, e terem segurado meu rosto e terem forçado meus olhos e segurado meu corpo enquanto eu me debatia em gritos e batiam em meu corpo e tiravam a minha alegria o meu ânimo a minha paz e gritavam cuspindo em meu rosto numa língua que eu recusava a entender: “Você vai aprender, você não vai fugir. Você vai cumprir as exigências oficiais e não oficiais. Você vencerá graças a sua índole serviçal”. Enquanto outros como uma música de fundo, lembrando crianças em uma escola cantavam: “Não brinca com ela não coisinha! Não brinca com ela não coisinha!”. Segurando em meus braços começaram a me rodar de um lado para o outro e a terra começou a sair dos meus pés. Seguiram-se anos terríveis. Acordei com Elie Wiesel passando a mão em meu rosto e na outra um copo d’agua. Pensei que estivesse delirando. Ouvi-a o dizer: “Eles te bateram e deixaram uma chaga a mais no seu coração, um ódio a mais, uma razão a menos para viver. Agora procure adormecer”.  Minha respiração estava pesada. Mantive as pálpebras fechadas. Mas eu tinha certeza de que estava enxergando tudo. De que agora estava enxergando tudo. “Ainda há chances de escapar. Faça o que estou lhe pedindo, a ordem agora é sair lentamente, não deixe que te vejam, seja invisível, só assim irá encontrar o caminho de volta...”. As palavras saiam do fundo da terra. “Ouça-me, siga o meu conselho”. Deixei-me levar pelas suas palavras. Era um dia lindo de primavera. Perfumes de flores flutuavam no ar. “E quem é essa mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de me perguntar?... Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome. E talvez eu seja senão um sonho desse. Alguém que não existe...”. (Floresta do alheamento – Fernando Pessoa)
mlailin