sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O homem que amansava animal.











Imagem Google



Aquele homem franzino, com suas esporas sempre vistosas sobre aquelas botas longas, era o mais ágil e valente daquela região. Seu nome era Venâncio, um negro criado lá pelas bandas do Furtado entre Itabira e Santa Maria, isto lá nas Minas tão Gerais, um lugar largado numa grota, serpenteados por um córrego de água frias onde se podiam pescar vários peixes como: Bagres, Lambaris, Mandis e Traíras.

Assim nasceu e viveu ali este homem entre todos os tipos de animais. Já criança tendo como companheiros velhos amansadores de animais, vaqueiros e lavradores. Quando sol se fazia presente, ele já estava na roça com seu ginete a campear as vacas para a ordenha. De posse de uma caneca de ágata verde já descascada em varias partes.Dentro desta, colocavam rapadura raspada e mais uma composição em pó guardada a sete chaves, ensinada pelos vaqueiros.  Era o  ritual matinal tomar uma caneca do primeiro leite com esta mistura, seguindo orientação dos vaqueiros, pois que assim procedendo, seria um dos mais importante e valente vaqueiro amansador de animais bravos, a quem todos os animais se reverenciariam.

Certa vez em suas prosas e causos de assombrações, ali junto ao fogão de lenha à espera de um mingau de milho que fervia numa panela preta de ferro, ele segredou. Dizendo que seus pais disseram, que quando ele veio ao mundo, foi lavado com sangue de tatu, pois assim se acreditava naquela época e região, que este ato, lhe faria uma pessoa protegida de todas as doenças e maldades do mundo, assim tipo corpo fechado. Assim era o Venâncio uma pessoa destemida, uma pessoa boa, o amansador oficial de animais. Era emocionante vê-lo em ação devido sua habilidade sobre aqueles animais, que se quedavam sob suas ordens.

Hoje lembro claramente daquele momento, era um domingo, toda meninada da rua sobre os muros das casas para ver aquele homem e o animal, como nas grandes touradas. Ele recebeu o animal e lentamente com numa conversa silenciosa com a criatura, ele ia aos poucos colocando as montarias e vez ou outra o animal mostrava repulsa, bufava e se empinava nas pastas traseiras, o que era motivo de festa e medo da criançada. Num instante de pura magia e concentração, ele chegou bem junto ás orelhas do animal, parecia um ritual de oração entre ele e a criatura. Alguns presentes diziam que era uma reza brava, que os piões tinham para esta arte, foi um momento que o silencio imperou total naquela rua. Num lance rápido o Venâncio se jogou sobre o cavalo e os dois encenaram a mais linda dança, varrendo todo salão digo rua com suas manobras arriscadas junto ás cercas e muros das casas. Aos poucos o animal foi cedendo e ele orgulhoso vitorioso apeou do cavalo que estava totalmente molhado e calmo.

 Ainda hoje me lembro deste tio e suas manobras. Assim movido pela curiosidade, muitos anos depois em conversa com o tio Venâncio, ele não sabia dizer sobre a mistura usada naquele leite pelas manhãs. Mas o que ele rezava para o animal naquele silencio profundo, era uma oração que dizia assim: 

- “Santo Antonio pequenino amansador de burro bravo, amansa esse burro para mim, que é mais bravo do que o diabo. Que fique imóvel debaixo do meu pé esquerdo. Amém”.

Uma homenagem a um tio que já mudou de plano para novas jornadas.

Toninhobira

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Carta



Lembro bem de quando o vi, naquela manhã de sábado.
Eu o vi ali, sentado,absorto...
Ele estava bem vestido, usava uma calça cáqui, camisa listrada, uma boina. Magro, estatura mediana.
Devia ter mais ou menos uns 70 anos.
E escrevia uma carta.
Em volta havia muito movimento de pessoas que, como eu, deixaram para resolver seus problemas na última hora.
E ele parecia uma ilha ali, em volta dele me dava a impressão que até o ar parava.
E ele continuava escrevendo.
O quê ele escrevia? O que motivava tanta concentração?
No auge da curiosidade, olhei para a carta e no topo estava escrito assim:

'Minha Querida
Estou escrevendo para saber se você está bem'

 
Virei os olhos rápido, me sentindo péssima por ler correspondência
alheia, mas por dentro, algo gritava pra saber quem era essa querida.
Uma filha, neta, uma amiga, uma amante?
E ele continuava escrevendo.
Alheio a mim, alheio a tudo.
Não sei explicar o que tanto me chamou a atenção naquele senhor, se por ele estar escrevendo uma carta,
algo raro nesse mundo digital,
ou talvez fosse todo o sentimento que emanava dele, pois, logo que acabou a carta,
vi escrito assim:

'Não sei se já encontrou outra pessoa, mas só queria que soubesse que ainda penso em você,
e sempre te amei'

Ele fechou o envelope, entregou no guichê e, pegando sua bengala, partiu.
Me deixando ali, com uma esperança inexplicável na humanidade
E um delicioso sabor de poesia na boca.



VINTE ANOS DEPOIS



Mas o que aconteceu? Perguntei, enquanto Dona Yole ia contando os fatos que culminaram com a tragédia. O que sabia sobre os suicidas? Nada. A não ser o que Dante Alighieri havia escrito em sua “Divina Comédia” onde ele colocou os suicidas no segundo recinto do sétimo círculo infernal, transformando em espécies de árvores, eternamente dilacerados pelas harpias, monstros fabulosos, com rosto de mulher e corpo de ave de rapina. Procurei as palavras, as palavras certas para dizer que não iria, procurei uma raiva por essa covardia maldita, mas não encontrei nada. Abaixei os olhos enquanto dizia: “Conta comigo” Na realidade eu dizia: “Eu farei isso, especialmente por você, minha amiga, porque você significa muito para mim”.

Sentei na cadeira ao lado da cama e olhei o rosto daquela mulher que dormia. Senti uma angústia muito grande, em parte pelo seu trabalho, pelos seus filhos, pela importância que um dia ela teve em minha vida e por estar desperdiçando a sua vida. Para ela dava no mesmo que as pessoas rissem ou ficassem zangadas com ela. Talvez agisse como fez um dia, tentando convencer a mim e a Damião, dizendo: “Todos vocês estão enganados, vocês são dois ultrapassados, eu tenho coragem e estou atualizada dos fatos”. E vi ódio chispando dos seus olhos e senti que num instante algo explodiria, mas então a via refrear-se e todo o seu corpo parecia emitir faíscas, mas não palavras... Olhei-a buscando sinais disso em seu rosto.
O que houve com você? Onde esta aquela mulher corajosa? Sempre que me sinto desanimada e sem esperança e em você que eu penso. Eu e você subindo e descendo as montanhas de Monte Verde, rindo, contando histórias e depois deitando o corpo cansado no alto do pico do selado ficando ali até anoitecer procurando Andrômeda, Cassiopéia, o Cruzeiro do sul e o planeta Vênus sempre a leste na direção da sua casa no meio do vale...  Aconteça o que acontecer eu voltarei para te buscar, disse a ela, enquanto me agarrava ao mato tentando alcançar a estrada.

É preciso tomar muito cuidado, disse Damião naquela tarde. Esse caminho para Campos do Jordão é usado somente por motos e Jeep com homens no volante, é uma estrada de difícil acesso, esta cheia de buracos e escorregadia devido às chuvas dos últimos dias. Não importa, disse Pauline. Todos os dias vejo jeep e motos chegando, nos iremos e voltaremos amanhã a tarde – disse isso sentando ao meu lado. “Nós”, isso era o bastante, pensei. Ela sempre fazia coisas ao seu modo.

Não voltamos na tarde seguinte e nem na outra. Já tínhamos percorrido um longo trajeto e uma chuva fina caia. Pauline não viu o buraco e então o Jeep tombou lentamente e capotou uma duas vezes ouvi o barulho de galhos quebrando, vidros quebrados, óleo derramando. Procurei por Pauline e não a encontrei, procurei ouvir sua respiração não ouvi barulho algum. Arrastei-me até o início do barranco segurando no mato muito assustada. Devia ir procurar ajuda. Resolvi seguir em frente, ao dar o primeiro passo cai numa poça de lama, minha calça ficou toda encharcada. Não devia andar muito rápido para não gastar as energias, e também porque não conseguia enxergar um palmo a frente do nariz. Tremendo ante a ideia de que estava sozinha no meio do mato, correndo perigo de ser atacada por algum animal selvagem esfreguei minhas mãos para ativar a circulação e cambaleando segui. Algumas vezes engatinhando, com as mãos no chão para saber onde pisava, eu avançava com uma determinação que me surpreendia. A noite avançava... Os únicos ruídos eram da chuva que caia, do meu pensamento e da minha respiração. Então por sobre esses ruídos, outro som, mais alto começou a crescer, constante e pleno. Era magnifico! O latido de um cachorro. E mais a frente à estrada começou a ficar mais firme, e as árvores foram se tornando mais escassas, então avistei uma luz e uma casa. Não foi tão difícil quanto imaginei. Com  uma explosão final de energia cheguei até a porta. Bati, bati... Um senhor veio atender. Ele me examinou, toda molhada e suja. Eu me mexi tentando ocultar a calça rasgada. Então pedi a ele que socorresse Pauline, que um jeep havia caído num precipício e havia uma pessoa debaixo dele. Ele ouvia sem compreender, dizendo para falar com calma. Lá em cima... Na serra... Cansada demais para pensar, afastei-me quase caindo. Levei a mão na cabeça e novamente pedi: por favor, preciso de um telefone, minha amiga Pauline esta lá em cima machucada... Então não aguentei mais e comecei a chorar e não conseguia mais conter as lágrimas. Ele chamou sua mulher e num tom mais delicado, disse às palavras que eu estivera esperando a noite toda para ouvir: “Fica com ela, vou até a  cidade procurar ajuda!” Pauline foi localizada. Havia escoriações por todo o corpo e uma perna quebrada. O jeep foi retirado por um guindaste. Algum tempo depois Damião nos levou para ver o local. Uma árvore caída havia impedido o jeep de cair num enorme precipício.

O que se passou com você no fundo do seu coração? Está tudo escondido atrás desse rosto tão tranquilo semelhante à máscara. Meus olhos acompanham o movimento da colcha e as sombras do quarto sobre o seu corpo. Você ficará bem, pensei. Olho a cidade lá fora, tudo está em silencio, poucos carros circulam.  Notei que agora podia ver a lua saindo atrás do prédio em frente, e, enquanto olhava esse mundo, as vozes chegavam muito estranhas...

Não sei mais muita coisa daquele tempo. Evito a todo custo retornar para aquelas montanhas. Damião e o pai de Pauline estão enterrados no pequeno cemitério da cidade. A linda casa no vale foi vendida e o Jeep  vendido a um jovem que durante longo tempo levou turistas até o início das trilhas. Procuro na minha mente o nome do homem que me socorreu e o nome da cidade, não encontro nada, tudo está encerrado do lado de fora das vidraças.

Márcia Lailin

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Gênero Memórias

Edward Hopper

Etimologicamente, “recordar” vem de re + cordis (coração), significando, literalmente, “trazer de novo ao coração algo que, devido à ação do tempo, tenha ficado esquecido em algum lugar da memória”. Podemos dizer que, em linhas gerais, é exatamente essa função de um texto do gênero Memórias.

Lendo o texto de Rubem Alves, AQUI, verificamos que há dois tipos de memória.  O autor destaca a importância das duas, mas tece uma bela e poética distinção entre elas.   E a proposta do exercício é exatamente recorrermos a essa memória e nos alegrarmos com o vivido ou o presenciado.
 

DATA DA POSTAGEM 25/08/2011

PROPOSTA


Busque na memória algum fato que tenha vivido e que de alguma forma seja prazeroso recordar, escrever, contar ou se preferir, relate algo vivido por outra pessoa e que ficou marcado em sua memória.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

RECESSO

A leitora, 2005- Espanha- Carmen Varela



"Mais exercícios em algumas semanas".    


Abraços a todos,
sueli aduan

terça-feira, 19 de julho de 2011

PARCEIROS DA ALMA




Foi em uma tarde de abril, que Leo apareceu. Tendo levantado os olhos do livro para pegar uma caneta que caíra no chão avistei-o. Caminhava devagar ao meu encontro A principio pensei em ignorar, mas à medida que se aproximava levantou a mão até a altura do coração. E esse simples gesto fez com que eu largasse os livros e fosse ao seu encontro. Ele fechou os olhos e disse: “Não estou bem...”.
“Você pode ficar aqui, fique aqui comigo” – Disse a ele – enquanto apertava a sua mão.

O sol estava sumindo no horizonte. Nuvens negras apareceram do lado do poente. Estava se aproximando uma grande tempestade. Sai da sala por alguns instantes para buscar lençol e cobertor. Quando voltei ele estava mais animado. Perguntei se tinha fome. Ele disse que queria ficar apenas do meu lado, nada mais. Enquanto ele me olhava arrumei o sofá-cama da sala e ele deitou. Depois, um pouco tímida, abaixei o corpo e beijei o seu rosto. Ele segurando os meus braços pediu que ficasse ali com ele. Tirei o sapato e arrumei um lugar próximo, colocando meu rosto bem próximo do seu peito. Depois de alguns minutos levantei e abri a janela para que pudéssemos ouvir o barulho da chuva que caia fortemente. Isso trazia calma e relaxamento da tensão nervosa. Então me contou sua história, o acontecimento que fez nele uma transformação de causar arrepios... Mudança tão grande que não sabia mais se essa era a sua vida.  Não era feliz, mas agora estava começando a depositar toda a sua confiança naquela coisa que todos nos conhecemos muito bem: o amor. “Ela agora existe”, disse. Pelo menos da mesma maneira como teria existido antes. Quando ela aparecia ele tinha de estar presente para vê-la. Isso o ajudava a conservar a imagem dela como a coisa mais preciosa que possuía nesse mundo. Ela trazia alegria para seus dias e separado dela ele morria a cada instante.

Fez um relato completo das suas falhas, sua vida, seus sonhos... Contudo sem jamais chegar ao fim, mas eu fiquei sabendo pela constância com que olhava a tela do computador. Já sabia desde o momento em que o vi.

Mlailin

domingo, 17 de julho de 2011

Menino que vi







imagem Google




Nasce o dia vejo o menino apressado
Nas costas uma mochila tão pesada
Menino carrega o fardo do passado

Naquela sua aparência curvada

Finge feliz para a vida, que não tem
Em contraste com seu olhar triste.

Ignora os olhares e segue para o trem

Na janela viaja no que não existe


Ele não leva as esperanças na vida

Que perdida em mistérios e segredos
Compõem apenas uma carga fingida.


Assim desce menino, sobe homem suicida

Numa corrida desesperada entre medos
Parte desta vida nua, na bala perdida.


Toninho

terça-feira, 12 de julho de 2011

Raízes.


Presos em seus anseios, eles correm, soltos, por medo, o medo de se encontrar.
Encontrar-me, transição impensada. É como se nada se completa, antes que se quebre totalmente. Nos fere, nos destrói, sem pensar. A tristeza corroeu seus tímpanos com límpidas notas de orgulho e saudade. Liberdade. Antes fosse almejada, nos prendemos, aos mais impares desejos. Ele se sentiu passado. Ele se viu futuro. Mas não é presente. Ausente, de pensamentos e momentos. A espera da reciprocidade, infundada! Mas que diabos é isso? Só se sabe que existe. De que vale existir? Sem sentir o tempo a passar. Ele parou de divagar, lembrou-se de que a vida não é de sonhar, colocou-se a dispensar delongas emocionais, e cogitou na idéia de transcrever pequenas idéias. Mas caiu por si a sentir sua vida transcriando momentos de angustia através de papeis, seus vômitos tomando forma. Logo, se viu, inútil. Sozinho, inútil e desprezível. E mesmo assim, foi. Foi, pra onde? Não sei te dizer, mas ele foi, caminhar.
Andou, sim, andou por ai. Subiu até a esquina e correu toda a rua, a chorar, sem saber o que fazer e desesperado procurou o primeiro bar nojento que encontrasse, mas tinha que ser o mais nojento, o mais desprezível e o mais, vazio. Como ele. Mas, covarde, não teve coragem de entrar. Tímido, dos ombros arqueados, desceu a rua a olhar o céu.
Pra que existimos? Divagava a caminhar. Lembrava dos momentos que passaram, e, tropeçava a cada passo na calçada de pedras cor de barro batido. Distraído. Esbarrava em todos, e ficava, mais e mais, arqueado, fechado, recluso.
A solidão é algo terrível, mas temível mesmo, é a reclusão. Impulsivo, ele correu até o parque mais próximo, a praça mais longe ou o gramado menos verde. E se jogou. Na magnífica desolação verde das praças urbanísticas e infestadas de mendigos. Desligou seus suspiros, seus pensamentos. Ligou sua ancestralidade. Mãe terra.
Como num transe, não se mexia, nem um músculo. Parou, respirou. Respirar!
...
Respirou.
E ainda lá, sentia, o corpo-chão, universo. E sentia-se pequeno, mas, presente. Desligou-se da reciprocidade, o universo já lhe cedia isto e ele nem percebia, nunca.
Minutos passaram, horas voaram, meses chegaram. E ele ficou, findou raízes, cresceu. Preso a mãe terra. Sem pensar, sem chorar, sem se distrair com as tristezas mundanas. Em seu tronco-torso, sente, uma mão a lhe tocar. A razão de todo o seu penar, que volta, de repente, para juntar. Mas o corpo-chão, já endurecido por suas cascas, não desprende ao chão.
A mão, lhe pede só mais dois minutos. Sem sinais pra continuar, segue, direto e reto.
O rapaz e suas raízes, se tornam apenas um emaranhado de lembranças, porém isolados. Arqueados, fechados. Galhos e ombros levantados. Pernas cruzadas, sorrisos acanhados.
E ele se vê assim, alheio. Ao mundo que está tão conectado.
(Des)conectado.

domingo, 10 de julho de 2011

Não nos damos conta Quitéria

Às vezes sentimos uma tristeza dessas que não se consegue chorar, por maior que seja nosso esforço, por mais que se tente. Secamos. Nem uma lágrima brota dos nossos olhos. Parece que qualquer movimento, um único virar de rosto ou piscar de olhos, vai doer mais.É como se a gente quisesse parar tudo em volta, paralisar o tempo. Talvez seja assim mesmo e nós que não nos damos conta. Tudo pára dentro da gente. Lá no fundo do nosso ser só um vazio, um nada, um não querer.

Foi assim que vi Quitéria naquela tarde, naquela hora da tarde mais precisamente, com rosto fechado e o olhar parado.Com passos lentos veio em minha direção. Tinha os cabelos escorridos, os lábios entreabertos parecendo que queria dizer algo, um andar bambeante, quase um arrasto, uma dor sem fim.E eu fiquei ali olhando para ela, olhando através dela sem fazer nada imóvel. Por uns momentos tive a sensação que não existia. Eu não estava vivendo. Não podia mesmo falar nada, não havia nada a ser falado. Minhas dores eram outras, não tão cruas, tão puras como as dela.

Havia um silêncio pairando no ar, as poucas lojinhas da pacata cidade já estavam começando a fechar-se.
O relógio da matriz marcava 17h45min, aquele finalzinho de tarde, igual a tantas outras tarde, tornou-se a mais diferente de todas as tardes de minha vida.E ainda, hoje, passado tanto tempo quando me recordo daquela tarde, vejo que ela foi a mais marcante, a mais dolorosa de todas já vividas. E já vivi muito. Mas por mais que viva nenhum outro olhar será como o de Quitéria, nenhuma outra dor se igualará a dela. Nada nunca.

Só seu olhar continua cravado fundo em mim doendo em mim. No fundo também acho que somos nós que não nos damos conta. Tudo é sempre muito igual, os dias, o ir e vir, as horas passando, o trabalho feito. O que tem valia mesmo é a nossa emoção, é o cheirinho do café passado na hora, o cãozinho latindo ao longe, uma brisa suave a nos refrescar, tardes a conversar. Ouvir a chuva batendo assim nos telhados, escutar criança chorar. Acho que é só isso mesmo o que conta o resto é enfado, canseira, obra do tinhoso, como diz o povo daqui, como disse Quitéria. E pensando bem acho que a gente é que não se dá conta de tudo isso mesmo e o abraço morre antes da junção dos corpos e sobram palavras, palavras, palavras.

Hoje me pergunto por que não abracei Quitéria, não a acolhi em meus braços, acarinhei seus cabelos? Tudo tão simples. Acho que somos nós que não nos damos conta da simplicidade do gesto modificando a vida.Na minha memória as palavras pausadas de Quitéria quase sussurrada, um sopro, um quase gemido, um pedido de socorro: -“quem qui punho curagem pruma barbaridade dessa, uma farta di amor tão inorme, qui homê ou muiê vive despois do acontecido”

E eu ali, tentando entender, raciocinar, perplexa não derramei uma lágrima. Mas doeu. Não sei o que mais me machucou o fato ou Quitéria. Acho que os dois. Tudo. A nossa própria impotência diante do imprevisto, diante da tragédia.E foi uma tragédia.A poeira que levantou o barulho das patas no chão, o relinchar, os berros das pessoas, a agonia, o sangue no chão, o choro, tudo meio misturado assim mesmo. Não parecia real.Aquele cavalo forte desembestado, o menino pendurado, preso pelas amarras do arreio, se debatendo entre pedras e pedregulhos, os lábios já cortados, ensangüentados, a pele das pernas já corroídas. E nada parava aquele animal, era obediente a ordem dada.E ela foi dada. Corre, corre Untu. Ele correu. Nada iria fazê-lo parar conhecia a voz do dono gritando: - Corre, corre Untu. Vingança estranha essa ferir o filho pra atingir a mãe.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Novela

    Assistia todas as novelas, duas, seis, sete, oito e qualquer outra reprise que pudesse passar entre esses horários. Entre sonhos e panelas, desejos e afazeres aquela vida encantada das novelas dividia sua mente entre os devaneios e a realidade, mais devaneios que realidade. Se imaginava a mocinha da novela das seis e num passe de mágica era a própria megera da novela das oito. As megeras tem seu charme, mas isso até o próximo capítulo pois no final queria a mocinha, seus destinos são perfeitos, todo sofrimento em prol ao um destino de contos de fadas.
    Por vezes se revoltava diante do sapato gasto e as roupas de todos os dias, nem as empregadas da novela das sete repetiam figurino, sempre tão coloridos e alegres. E tudo acabaria bem no final, com casamento e festa. Assim seria sua vida, por hora imaginava, mas cria piamente, seria um enredo de novela.
    Sofreu horas e horas a fio o triste destino do núcleo pobre, vítima de carrascos e injustiças. “Ah um dia o mocinho olharia para ela e só ele saberia o seu real valor. E a levaria para sua grande casa, com carrão e mordomo, e o esperaria com seu lindo vestido longo no topo de uma escadaria enorme.” Ensaiava mentalmente o que diria quando o mocinho se declarasse, diria palavras bonitas, nem sabia o significado de muitas delas, mas eram bonitas.
    Um dia, como outro dia qualquer. Acordou cedo com a cara inchada, descabelada, insatisfeita com seu destino tão lento, dia de feira, a patroa queria que fosse cedo, não podia perder o melhor da feira. Arrastou as sandálias pelo asfalto com a cabeça nas nuvens. Entre pepinos e abobrinhas o moço era lindo, a voz que lhe cortejava para uma compra perfeita e lhe piscava um olho galante. O coração lhe saltou à boca. Se deteve analisando as possibilidades. Virou-lhe as costas afinal, o mocinho não estava encerrado num cubo.

sábado, 25 de junho de 2011

Ruídos do Centro de São Paulo


O vagão vazio da alma curiosa está parado na estação Liberdade. Aponta para a rua, subo. Subo pelas escadas rolantes da estação, cantando Villa-Lobos. Louco, rouco. Corro pela rua vazia de sentidos, e desço na esquina que a corta. Rasga coração da avenida. Travessia de sentidos, ouço ruídos transeuntes, me perco. Não geograficamente, mas, psicologicamente. Percebo que nada mais existe para me receber e que nada se enxerga quando não se quer ver, nada respira quando não há necessidade. Tento gritar, mas o choro n.10 roubou-me a voz. O que fazer? Nada, meu celular se foi na Sé, meus pensamentos se perderam no caminho, meus sentidos pararam na esquina para comer no açaí. Me percebo vazio. Olho em volta, apenas pessoas de braços cruzados me percebem, não me recebem. Acima, na Pérola Byington, desisto. E volto, todo o percurso, para tentar recuperar o que me foi roubado. Mas, desolado, resolvo escrever em um pedaço de papel com o extrato do meu cartão de débito no vermelho: nunca sair de casa, sem anotar pra onde vai. Pois se o caminho te desorientar, você saberá pra onde chegar. Pois nestas andanças sem sentido, acabei perdendo forças ao invés de algum lugar voltar. Fato, devo pelo menos anotar o número do lugar.

domingo, 19 de junho de 2011

"O DESFECHO"


Lendo o texto de Bandeira , AQUI,  percebemos o impacto de um desfecho não esperado pelo leitor. Muitas vezes, o momento mais importante  da construção do enredo é o fim da história, o desfecho. O desenlace. Principalmente em anrrativas curtas, é geralmente importante manter o leitor preso ao desenrolar das ações, com a imaginação seduzida, com a curiosdiade fisgada até o fim até o desenlace

Nosso hóspede

Era um sujeito de poucas palavras, desses que vez ou outra aparecem por aqui e só nos cabe o silêncio e um impecável atendimento. Não posso dizer que não ficava intrigada toda vez que o via descendo as escadas. Arrastava um pouco a perna o que aumentava a áurea de mistério que envolvia sua vida, além da minha própria desconfiança. E, a bem da verdade, a desconfiança não era só minha, não. De hábitos estranhos saía de manhãzinha levando uma pequena maleta preta e só retornava a noite. Exatamente no momento em que nosso hóspede chegava eu sempre me encontrava sozinha na portaria. Foi quando numa dessas noites e com um céu estranhamente estrelado, a lua indo alto, que percebi: não voltou com a maleta,  e as mãos estavam manchadas de vermelho. Sangue, pensei.  Tive a exata sensação que ele leu meu pensamento ,e, também notou  o meu espanto, pois rapidamente olhou-me nos olhos e a queima-roupa disse: A próxima será você. Quis correr, mas não consegui. E ele rindo muito falou: Vermelho deve ficar muito bem  para você. Sou cabeleireiro. 
sueliaduan

Podemos perceber como a preocupação com o desfecho torma mais interessante textos, histórias, poemas.  No texto de Sueli aduan, a surpresa do final inesperado parece ter como fator comum aliviar a tensão o "choque" das expectativas do leitor, e fazê-lo rir, desconcertá-lo, semelhantemente ao poema de Bandeira.

DATA DA POSTAGEM 04/07/2011

 PROPOSTA

Escreva um conto curto ou um poema

com desfecho inesperado.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Do ato de conceber


Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo de pensar por si. E uma folha é uma folha tão somente, e sempre bela. Podem ser secas com suas nervuras amarronzadas e quebradiças ou ainda verdes brilhantes, cheias de vida. Árvore, papel. Não importa.

Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo de olhar, observar. E um copo é um copo tão somente, e sempre belo. Podem ser de vidros transparentes, jateado ou de cristal, âmbar, azul. Cheio ou vazio. Não importa.

Era assim que concebia a beleza. Não que alguém lhe tivesse dito, não. Isso não. Gostava mesmo do apreciar o movimento. E um corpo é um corpo tão somente, e sempre belo. Nem sempre nu é que se encontra livre; nem sempre sorrindo, feliz; nem sempre se sabe. Não importa.

Era assim que concebia a beleza.

Uma folha,
Um copo,
  Um corpo.

Palavra.
Vinho.
Prazer.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Deixe o amor invadir seu edifício

O amor é diferente de todas as coisas delicadas que já vi: é a mais delicada de todas.
Ou se percebe nele a fragilidade de cada instante, ou não se percebe nada: ou se faz amor às avessas, com insultos, berros, lágrimas.
O amor volta
e cura as feridas como uma espécie de tempo morno e úmido que invade a sala.

O amor tem a delicadeza das florestas, como um broto de planta, um pássaro catando gravetos, a suavidade da natureza invadindo um edifício abandonado: primeiro as poeiras, depois os bichos, depois a mata.

E tudo ali se renova, como no amor, na delicadeza, do seu jeito de me acalmar, com amor com chás, piadas, sorrisos e beijos encantadores.
É claro,
assim como o homem dominou a delicadeza das florestas, dominou também a do amor: esse que tanto se faz, tanto se faz às avessas, com gritos, pontapés, armas, festejos de morte, à mercê.

Mas isso deixamos lá fora, longe do nosso apartamento.
Perto de você
estou perto de uma cachoeira de amor correndo suas águas mornas.

*Imagem daqui: http://www.flickr.com/photos/3sth3r/2065611897/

sábado, 4 de junho de 2011

Memórias de um silêncio eloquênte.

            Pensei em te agarrar pelo colarinho, te chacoalhar, gritar, pensei até em te esbofetear.  Até entender o que estava fazendo.
            Pensei em ignorar.
Pensei em disfarçar, em me fingir de santa.
Pensei em dar um tempo.
Pensei em sumir.
Pensei em te castigar.
Pensei até em te humilhar. Causar escandalos. Colocar sua vida na lama.
Pensei que se eu dissesse, que se eu me fizesse presente e se relevasse entenderia.
Eu pensei também que isso tudo era uma grande bobagem. Uma coisa de momento, que iria passar e eu tocaria a vida.
Ah pensei em ir atrás.
Pensei em implorar.
Eu pensei...
Em fugir.
Pensei em correr.
            Em me esconder.
            Pensei em que faria com essa raiva, que é a antítese desse amor.
            Diacrônico.
            Pensei, pensei tanto, pensei tudo.
            É o que me há de fazer.
            E guardei o silencio.
            Que é eloquente.
    ... não há de ser em vão.
   

sexta-feira, 3 de junho de 2011

AMO-OS CARINHOSAMENTE



Fecho a tela da pesquisa
Melhor não saber nada
Coisas que para dizer a verdade temo
Passo longas horas
No processo de espera
Longos dias deitada
Longas noites procurando nomes...
Tantos nomes difíceis de gravar
May, Selenia, Valéria, Dani, José, Romério...
Não há nada melhor
Do que acordar na madrugada
E ver que estão todos ali
Me dizendo alguma coisa
Enquanto eu aborrecida e indisposta
Tentando mudar o sentido
Então, Patricia, insistia nos eventos
Uma vez ou outra contava os episódios de sua vida
Seu trabalho
Suas lutas
Eu, silenciosa e absorta
Passando as horas
Olhando a tela
Uma música e uma voz dizendo:
Será um brilhante, um brilhante dia de sol
Pensei nisso - pensei e pensei
Fecho os olhos e
Olho para as nuvens
O esplendor do mar e do sol
enquanto as palavras jorram
rápidas e eloquentes, como nunca

Mlailin


segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Liberação da linguagem e do Pensamento"

 
Existem experiências que nos despertam o fluxo de idéias e de palavra, que nos trazem o gosto de estar escrevendo; além disso, experimentamos o reconhecimento de que estamos redigindo com a nossa própria voz, com as nossas palavras, escrevendo o que queremos, o que faz sentido para nós. Dentre inúmeras experiências de liberação, provavelmente a mais fecunda seja a enumeração. Enumerar é um dos modos básicos de se redigir um texto, um modo milenarmente praticado, muito importante na literatura — principalmente no Modernismo.

A escrita enumerativa não substitui a escrita discursiva. São duas formas diferentes de escrever, de certo modo opostas, mas complementares. A associação por analogia, característica da enumeração, vai revelando a presença de acontecimentos, lembranças, objetos, iluminações, desejos, contradições, marcas, sentimentos, sensações, ausências, sonhos, de elementos que são a própria matéria-prima do texto enumerativo.

Enumerar e descrever; Enumerar e narrar; Enumerar e dissertar; Enumerar e definir. Observe como isso se acontece no poema em prosa de Jorge de Lima, AQUI ,e também no belíssimo: Sonetos-Luis Vaz de Camões, AQUI,   E há muitos outros como: — “Perguntas de um trabalhador que lê”, de Bertolt Brecht, “Felicidades” do mesmo autor, “Cidadezinha qualquer”, de Carlos Drummond de Andrade.



DATA DA POSTAGEM 13/06/2011

PROPOSTA

Escreva um conto curto ou um poema no qual
ocorra o processo enumerativo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Segundo período da faculdade de psicologia da federal


É difícil precisar o segundo exato em que um qualquer pensamento mata qualquer coisa no corpo que passa então a ser apenas uma memória do que já foi um dia. Mas por um motivo simultâneo, o grupo de amigos do segundo período da faculdade de psicologia da federal acordou na manhã de sexta com qualquer coisa faltando em si, o que resultou em um frenético desejo de cuidar da própria vida. Como só tinham aula na faculdade à tarde, usaram a manhã para fazer coisas.

João cuidou de fazer a barba, cortar o cabelo curto e comprar um tênis que substituísse as alpargatas compradas há dois anos na Bolívia. Marcela telefonou às 10:30 para transformar em ex-namorado o que então era só um cansaço, e confessou desejar sinceramente que ele fosse se foder. Lívia passou na farmácia para comprar drammin, sal de frutas e remédio para o fígado e aproveitou para anotar, equilibrando o cigarro e a caneta entre os mesmos dedos, o telefone da religião perto de sua casa que misturava ioga, budismo e macrobiótica e que não era bem religião, mas uma filosofia de vida. Alfredo foi até a rodoviária comprar passagens para passar o próximo final de semana em Passos e, reunido à sua família, interá-los de seu homossexualismo. Estér escreveu uma lista com dez motivos para não se suicidar e a meteu na bolsinha que carregaria pelos próximos setenta anos. Só Minerva fez exatamente o que fazia todas as manhãs: foi ao treino de dança, como que excluída da necessidade dos outros de mudar porque já tinha os cabelos na altura certa, a cintura de bailarina e o amor voltado todo para a dança. Era o que Estér dizia dela, que não mudaria nunca porque era perfeita e navegava rumo ao futuro como um barquinho charmoso cortando águas mornas e serenas. 

À tarde, quando se encontraram na cantina antes da aula de história, João cuidou de fazer piada sobre seu próprio novo visual e manter escondidas suas verdadeiras resoluções. Marcela gritou que estava solteira assim que foi avistada de longe. Lívia ficou do lado de fora porque estava fumando, não tirou os óculos escuros. Alfredo cismou de esfregar ininterruptamente as palmas das mãos que sentia geladas e quis animar o pessoal a pedir um café quente. Estér pediu uma salada de frutas e gostou do gosto de decidir e fazer o que decidiu: viver: isso disse aos outros sorrindo. Só Minerva não foi à aula, porque passou a tarde morrendo no hospital das clínicas por conta de um aneurisma cerebral. 

Quando souberam da notícia, sentiram escapar por entre os dedos os cuidados com suas próprias vidas e, entre abraços e pêsames, sussurraram que tudo muda de uma hora para a outra à sombra do destino. João trancou a faculdade de psicologia, cursou engenharia, mas só se formou em biologia onze anos depois. Marcela casou-se sem amar, e teve três filhos. Lívia nunca conseguiu parar de fumar. O pai de Alfredo passou quatro anos e três meses sem dirigir-lhe a palavra. Não conseguiram precisar exatamente a hora em que Minerva morreu, mas dizia-se que à mesma hora Estér anunciava, enquanto comia uma salada de frutas, que havia decidido viver. Como Minerva. Como um barquinho charmoso cortando águas mornas e serenas.

Estér morreu aos noventa e três anos, muito depois de seus amigos de faculdade, de quem sentia falta e por quem, às vezes, chorava, especialmente quando pensava em Minerva e desejava lhe falar que era pra ter acontecido com ela, era pra ter sido ela, era para ela ter ido primeiro. E o que pode fazer Estér então, senão viver setenta anos com um motivo a menos.


*Imagem de: Gatnau/Flickr: 
http://www.flickr.com/photos/gatnau/224691493/sizes/m/in/photostream/ (c/c)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"LOUCO!"


Qualquer semelhança não é mera coincidência
Juvenal havia pedido a seu patrão para sair uma hora antes do horário. Sua esposa Maria queria que ele chegasse mais cedo para ajuda-la com o jantar para o filho. Quer dizer não era seu filho. Era o filho mimado de sua Maria, sua querida Maria. Quase cinquenta anos de casamento, tinha veneração por ela. E assim Juvenal correu para fazer sua vontade.
Eram quase 19Hs. e Maria do Juvenal estava na metade do jantar. Depois de quatro anos com o filho morando em Hortolândia, aquela para ela seria uma noite especial. Iria comemorar a volta do filho querido. Tanto tempo longe. Essa não era a primeira vez, ele já esteve uma vez em Araraquara. Mas a vida é assim mesmo. Que família hoje não sofria? Por ele era capaz de qualquer sacrifício. Até mesmo de sacrificar a sua vida, como fez muitas vezes. Os vizinhos podiam sentir o aroma gostoso de um frango sendo frito numa panela de ferro. Mesmo com os olhos cansados e sentindo uma dor insuportável no nervo ciático, iria aguentar, e depois logo mais, ela poderia descansar e amanhã ficaria o dia inteiro na cama. Quase oito horas e a campainha tocou. Maria enxugou as mãos e foi atender. Se jogou nos braços do filho num longo e demorado abraço, deixando as lágrimas caírem em seu rosto enquanto alisava os braços daquele homem de 53 anos, estatura média, gordo e oleosos cabelos claros. Depois dos abraços e beijos os três sentaram-se à mesa da cozinha e o jantar foi servido.
Meia hora depois ouviu o filho dizendo ao pai que não devia se preocupar. Que agora tudo iria dar certo. Precisava de alguma quantia, não era muito, era o suficiente para pagar as dividas que havia feito nos anos em estivera fora. Eles sabiam como era difícil encontrar um emprego. Depois que encontrasse um lugar para ficar, e a poeira baixasse, poderia cuidar melhor da sua vida, mas agora precisava de ajuda, seria só essa vez. Juvenal ficou olhando-o, apreensivo. Há quanto tempo vinha aguentando isso. Por quanto tempo ainda teria que aguentar isso? Quatro anos preso pelo mesmo delito e pela segunda vez! Não aprendera nada. Nunca iria aprender nada. O filho percebendo a angústia do pai disse, um pouco mais brandamente: Vamos tomar um café. É disto que está precisando para reanimar-se.
A caixa de fósforos havia voado pelos ares. Na porta Zé Branco apanhou-a e colocou-a no bolso. Era quase meia noite, quando se afastou da casa de tijolinhos guiando o carro do seu pai Juvenal. A pequena distância dali, no posto de gasolina ele parou tirou algumas notas do bolso e pediu ao frentista que enchesse o tanque, enquanto ia buscar uma cerveja.
Na manhã seguinte quando Aninha a empregada da casa chegou, estranhou encontrar a porta da sala fechada só com o trinco. Mas pensou que idosos sempre esquecem. Seguiu até a cozinha, mas não entrou ali mesmo na porta colocou a mão na boca segurando o grito enquanto corria em desabalada carreira para a casa vizinha.
Cont...
mlailin

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Uma noite estranha

Era noite de Natal, estavam todos reunidos na sala, ainda esperando a chegada de outros convidados, Roberto estava nervoso, pois era o primeiro Natal de casado e não sabia se estava recebendo bem os convidados, preocupado com Marina, que não saia do quarto para ajudá-lo na recepção.
Marina estava lá, sozinha trancada, tomando coragem para a decisão que mudaria sua vida.
convidados rindo na sala, todos animados, comentando do capricho de Marina ao prepaparar o cardápio, a decoração, tudo perfeito e de bom gosto, bem ao estilo dela, Roberto rindo amarelo e arrumando desculpas para a ausência da esposa.
Ela decidiu, então, que mudaria tudo aquela noite, não aguentava mais esperar para comunicar, sabia que seria um choque, mas aguentaria a reação, chega de se importar com a opinião da família, já havia estudado o que eles queriam, casado com quem eles concordaram, o marido era um bom homem, bem mais velho, amigo do pai.
Quando ele declarou-se para ela, o pai fez de tudo para que aceitasse a proposta de noivado, e como ela tinha muito carinho por Roberto, sem esperança de ficar com seu verdadeiro amor, acabou aceitando.
Enfim, mas agora resolveu tomar as rédias de sua vida, desceu a escada, pediu a atenção de todos e deu a notícia...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Noite densa, noite de trevas.

Belíssimo/forte/arrepiante: "Noite densa, noite de trevas", da minha querida  amiga  Márcia Lailin, será postado no OFICIO.
E com o aval dela. 
grata, Lailin.

sábado, 7 de maio de 2011

Aroma de Café


Indecisa escolheu não acender todas as lanternas da entrada, os convidados, os de sempre, conheciam muito bem o caminho até a sala de jantar. Agindo dessa forma poderia olhar e ser olhada sem que ninguém desconfiasse de nada. Há tempos vivia esse dilema: — encontros escondidos, bilhetes trocados por debaixo da mesa, um sorriso mais demorado, coisinhas delicadas que tão bem lhe faziam. E, toda cheia de si não tinha o menor interesse em mudar essa situação, não. Situação que Heitor achava insustentável e com desculpas, que não convenciam Beatriz, ele não comparecia em todos os jantares.


Esse fato muito alegrava Quitéria que podia se recolher mais cedo, já que Heitor era o único dos convidados a tomar café após o jantar. Ainda ontem pensei sobre o fato e o que poderia ter dito. No momento a gente nunca diz né Quitéria. Você sabe tudo é sempre depois. Quitéria ali no canto, esperando a água ferver, ouvia Eulália com seu jeito desbocado de falar e mesmo sem entender muita coisa balançava a cabeça numa atitude de concordância. De menina aprendeu a concordar com todos.


O aroma do café chegou até a sala e Heitor já de pé se dirigia à cozinha seguido discretamente por Beatriz. Ao vê-los juntos Quitéria entendeu, como num passe de mágica, o que Eulália tentou evitar. Na hora, o que me veio foi tirar a faca da mão dele e limpá-la. Porque tudo foi também rápido. O chapéu caído ao chão, Beatriz morta. Seu grito abafado pelas risadas vindas da sala. O silêncio de Eulália que mesmo pressentindo o infortúnio calou-se. Uma dor inimaginável percorreu todo meu ser. A dor em constatar que no momento a gente nunca diz. Tudo é sempre depois.