E eis que o carnaval acabou E uma dor quase física Tomou conta do meu coração
Ontem, eu fui feliz Gente... muita gente... Bagunça, confete e serpentina Cabelo emaranhado, corpo suado Samba no pé, extrema euforia Tudo era festa... Tudo folia...
E eu naquela alegria Contagiava a todos Arlequins, pierrôs e colombinas
E eu cantava... Sambava... Rodopiava... Pulava... Amava... Beijava... E não me cansava
Para mim, não existia Nenhuma sombra de tristeza Pois tudo era uma beleza... Ao desfilar na passarela Com a fantasia amarela Cantando desenfreadamente Ao lado de muita gente Que brincavam alegremente
Abriam alas a minha passagem Jogavam flores na carruagem E aplaudiam as minhas micagens
Finalmente A Quarta-feira de Cinzas chegou... Tudo acabou... Minha alegria me abandonou Minha voz emudeceu Meu sorriso se apagou Meus olhos não mais brilharam Não ouviram o meu cantar A ilusão se foi... E o meu pobre coração Com um dos pierrôs, folião... Ficou...
Ah Su queria postar aqui um monte de coisas... quanto mais me afasto da poesia mais atrelada a mim ela fica. Atitudes poéticas, difícil dizer o que pode ser poesia para cada um, é tão subjetiva que o objetivo pode parecer poético. Eu me encanto com tudo, um dos motivos pelo qual não dirijo. Sou incapaz de me manter focada em algo, me encanto com o caminho. Com gestos, com palavras ditas ao acaso, me encanto com um sorriso escondido nos lábios quando não era para ser notado. Ultimamente dei de me emocionar com a beleza. Mesmo quando ela não é para ser beleza e lá no fundinho eu encontro, ou junto todas as palavras e encontro beleza lá... me emociono de verdade, choro a cântaros, mas tudo bem, faz parte do ofício.
Então gostaria muito de colocar algo meu aqui, mas... o meu é tão eu... que me impossibilita de dizer então coloco Elisa Lucinda. Como adoro ver essa mulher... Adoro o que escreve... E ilustra um pouco do que disse acima....
Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua... Imagine uma cachoeira às avessas: Cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço Às vezes parece erva, parece hera Cuidado com essa gente que gera Essa gente que se metamorfoseia Metade legível, metade sereia. Barriga cresce, explode humanidades E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar Mas é outro lugar, aí é que está: Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente Que vai cair no mesmo planeta panela. Cuidado com cada letra que manda pra ela! Tá acostumada a viver por dentro, Transforma fato em elemento A tudo refoga, ferve, frita Ainda sangra tudo no próximo mês. Cuidado moço, quando cê pensa que escapou É que chegou a sua vez! Porque sou muito sua amiga É que tô falando na "vera" Conheço cada uma, além de ser uma delas. Você que saiu da fresta dela Delicada força quando voltar a ela. Não vá sem ser convidado Ou sem os devidos cortejos.. Às vezes pela ponte de um beijo Já se alcança a "cidade secreta" A atlântida perdida. Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela. Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas Cai na condição de ser displicente Diante da própria serpente Ela é uma cobra de avental Não despreze a meditação doméstica É da poeira do cotidiano Que a mulher extrai filosofando Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso Julgando a arte do almoço: eca!... Você que não sabe onde está sua cueca? Ah, meu cão desejado Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir Então esquece de morder devagar Esquece de saber curtir, dividir. E aí quando quer agredir Chama de vaca e galinha. São duas dignas vizinhas do mundo daqui! O que você tem pra falar de vaca? O que você tem eu vou dizer e não se queixe: Vaca é sua mãe. de leite. Vaca e galinha... Ora, não ofende. enaltece, elogia: Comparando rainha com rainha Óvulo, ovo e leite Pensando que está agredindo Que tá falando palavrão imundo. Tá, não, homem. Tá citando o princípio do mundo!
Segundo Ezra Pound, aqui , a linguagem se carrega de significados principalmente de três maneiras:
● Induzindo correlações emocionais pelo som e pelo ritmo
●Trazendo um objeto para a imaginação visual
●Produzindo associações emocionais e intelectuais
Esses procedimentos não são usados separadamente. Todos eles contribuem para a significação do poema.
O poete é um inventor que usa palavras.
“Compreendi [...]que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”
(Manuel Bandeira, ‘Itinerário de Pasárgada’, in ─ ,Poesia completa e prosa, p.40.
Riscos de giz ao chão, definem sua vida, sua estrada, seu caminho está ali guardado num emaranhando de lembranças, que nem sequer sabemos ao certo o que foram. Riscos de giz ao chão, demarcam um mundo onde cada um viveu e vive, mostra um mundo único, onde cada um reside, eu no meu mundo e você no seu, que entram em colapso, a partir do momento em que os riscos de giz ao chão, brancos, esfumaçados, concretos, se tocam e sua linguagem, clara e objetiva, demonstra a tudo e a todos de forma inteligível o que nosso pensamento inconstante e nossas lembranças conseguem embaralhar e esquecer com tanta facilidade, nossa vida. Estes mesmos riscos de giz ao chão, que num olhar de um desconhecido podem lhe parecer um tanto singelos, são na verdade, muito mais que apenas riscos, são obras de arte, manifestos de vida em uma linguagem universal, a escrita, palavras, são o que são, esses riscos de giz ao chão
Ali sobre o móvel. Tanto movimento, tanto a se dizer, ali sobre o móvel, intocado, intácto. Longe de ser manso, se entranha, arrebata. Ávido e se houver havido? Um livro, uma vida, um átimo de segundo. Aguardando o ato. Há tantos atos aguardados, ali, simplesmente guardados, sobre as páginas fechadas. Ali um livro sobre o móvel.
Utilizar a linguagem verbal para construir imagens que representam seres, objetos ou cenas é assumir a atitude lingüística da descrição. Nesses casos, você estará empenhando em transformar em linguagem aquilo que seus sentidos captam a partir da observação de um objeto, de um recorte da realidade que se quer fixar.
Elaborar um texto descritivo é apresentar um ser, um objeto, um recorte da realidade a partir de um determinado ponto de vista, ou seja, o objeto da descrição deve ser observado a partir de uma determinada posição física. O ponto de vista é fundamental. Fica evidente, pois, que um texto descritivo acaba transmitindo uma imagem que pode estar mais ou menos impregnada da postura pessoal do produtor do texto. Isso não é nenhum problema, pois um texto desse tipo pretende transmitir uma impressão geral, uma sensação dominante despertada pelo que se descreve, muito mais do que um retrato fiel. Apenas a descrição técnica busca uma objetividade absoluta — e, mesmo nesse caso, é praticamente impossível anular totalmente a interferência do produtor do texto. Não é muito comum produzirmos textos descritivos puros. Normalmente, o processo descritivo é incorporado ao narrativo (personagens/ambiente) ou ao processo argumentativo (dados).
Leia o belíssimo texto, “"Se eu fosse um pintor" , de Cecília Meireles. Ela nos fala de uma limitação expressiva dos pintores: a impossibilidade de fixar o pensamento humano.
PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM- 19/04/2010
Elabore um texto descritivo. Pense na melhor forma de transpor o limite expressivo vivenciado pelos pintores,e citado por Cecília Meireles. Como seria? Leve em consideração: ─ a maneira que você quer apresentar o que está observando, os detalhes e o tipo de impressão que quer transmitir.
Acabo de abrir a janela e perceber que já estamos, de novo, em pleno outono. É outono também em minha vida e em meu coração. Coração repleto de saudades; saudades de ti e de mim mesma.
Na nossa velha vitrola pus pra tocar o nosso velho disco de Bob Dylan, já arranhado pelo tempo. A beleza das manhãs de abril já se anuncia. Diante de nossa janela, árvores peladas, o chão repleto de folhas secas e aquela ventania, vinda não sei de onde. Varrendo as ruas, causando reboliços, revirando folhas, levantando bingas de cigarros apagados, um brinco caído da orelha de alguma moça distraída, um papel de bombom sonho de valsa. De novo o vento assobiando velhos e bisados enredos.
O vento me traz de volta você. Seus cheiros, o gosto do seu beijo, seu toque amoroso e quente. Alisa minha pele ainda branca. Alisa tanto, mas tanto meu amor, que a sinto sem nenhuma ruga, nenhum vinco, nenhuma pinta ou marca que denuncie a passagem do tempo. Apenas como a deixava: úmida, pelos arrepiados, exalando desejos. Esta ventania me convida a revisitar outros tempos. Tempos de cabelos e emoções desalinhadas. Sinto sua presença, mas hoje a sinto como a senti pela primeira vez, lá nos dias do nosso começo.
A ventania começa também dentro de mim. Um vento que sussura baixinho e ininterruptamente a palavra saudade.... saudade..... saudade.
A força da junção de ambos, do vento que entra pela janela ao que nasce de dentro de mim, parece invadir, tomar conta do nosso quarto e abrir nosso antigo baú. Faz deitar em meu colo uma velha caixa de recordações. Levanta, de forma inesperada, a tampa da caixa. Desfaz o amarelado laço de fitas que envolve o maço de cartas de amor trocadas por nós durante anos. Cartas daquelas embaladas em envelope branco, barrado em verde amarelo, selo colado com a língua.
Ninguém mais escreve cartas, meu amor. Nossos netos só mandam emails e coisas ainda mais modernas que não sei entender. Mas não é igual: falta a letra, que é uma espécie de voz, uma fisionomia. Falta o cheiro da tinta, o papel, este pedaço da matéria que a outra pessoa tocou e pôs num envelope. Faltam os pequenos objetos que acompanhavam as cartas - um raminho seco, um recorte de jornal colado, um beijo dado em batom, um borrifo de almiscar displicentemente derramado. Falta o prazer de reconhecer o outro já no envelope. Adivinhar pelo número de páginas o tom da conversa: mais lento, madrugada adentro, ou mais fugidio, só para manter o carteiro empregado naquele dia.
Depois de reler algumas delas, a ventania agora coloca em minha mão a boa e velha caneta. E aqui estou, trêmula, tentando te escrever estas mal traçadas linhas.Espero que elas o encontrem bem, feliz, sonhando lindos sonhos de amor.
Amor de toda uma vida, a ventania, que tantos segredos nos revela, está passando. Hoje me trouxe um verso de Antonio Porchia.
"Estar en compañía no es estar con alguien, sino estar en alguien".
Devo apressar-me. Afinal, só conto com o vento para levar-lhe esta carta, esteja você onde estiver. Em breve seguirei também. Enquanto isto, ao fundo, Bob Dylan continua cantando para nós: “ the answer is blowing, is blowinnnnnnn in the Wind”
Para sempre sua, Vera
quarta-feira, 24 de março de 2010
Escrevo-lhe para dizer que as coisas aqui estão bem diferentes. Há dias, Beto não sai mais de casa. Diz sentir falta da sua pessoa. Não entendemos direito o por que você foi sem se despedir. Aqui em casa nós sempre, sempre pensávamos que você já fosse um membro da família. Isso acontece por sermos amigas de infância. Beto apegou-se com você. Ele disse que a casa não tem a mesma energia, nem a mesma alegria. Espero que você esteja bem. Espero que tenha partido sem se despedir apenas por falta de tempo, ou?? Disse ao Beto: - se bem conheço Marília foi embora sem avisar, pois, não gosta de despedidas...e também por ser bem chorona. Ele riu e confirmou a hipótese de ser isso mesmo. Amiga...embora tenha dito isso a ele. Não me convenci. Se puder mande-me uma carta, dê-me notícias. O Paulo tem ligado em casa e quer saber onde estás. Não dei teu antigo endereço, caso queira que dê, diga-me, ou melhor, escreva-me. Não sei também se essa carta encontrar-te-a no velho endereço, espero que sim. Aaaaa...Passei no Mestrado, nem acredito! Comprei aquele vestido que paquerava na vitrine já fazia uns dois meses. Não sei ao certo, mas, parece que o Diego está de flerte comigo. Menina do céu! O pai do Beto continua atrasando a pensão...pensando bem as coisas por aqui continuam iguais...exceto ressalvas: "Diego, Mestrado e vestido novo". O céu escureceu do nada e uma ventania chegou a bater fortemente as portas. Preciso terminar, pois, vou recolher as roupas do varal, antes que a chuva chegue. Um abraço forte amiga e que essa mesma ventania passe por ai e avise-lhe o quanto fazes falta por aqui. Dê-me notícias!
Como tem sido sua vida? Me conta, mesmo que não ache importante. Mandei arrumar o carro. Ficou bom, você tinha toda razão, estava precisando. Não entendo por que relutei tanto. Ainda não consegui ler Paixão Segundo G.H. e nem Relatos de um Náufrago, como me sugeriu certa vez. Ainda não me escolheram, mesmo sendo Clarice e Gabo. Pintei a casa. Laranja. Não como do poema "Impressionista" sempre amanhecendo. Entardecendo. Teria gostado, logo é noite. Refiz o jardim. Abandonei as orquídea, são melindrosas demais e sou por demais de incompreensiva para com elas. Hoje, cultivo as violetas, a janela da cozinha está florida, elas me dão a chance de acreditar que estou no caminho certo. Se falho, substituo por uma nova, já florida e tenho a impressão de que tudo continua sempre igual. Ontem encontrei aquele nosso amigo de longa data. Perdemos a intimidade. Senti essa perda, não somos mais crianças. Sabe, chego a conclusão, o tempo realmente passou, assim, feito ventania. E sigo assim. Como se nada nunca tivesse fim. Carinho.
O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
Uma frase? Que digo? Uma palavra!
O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina”.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
Sem mais nada.
Até sem nome.
Sem cor de vestido nem de olhos.
Sem se saber para onde ia...
Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.
Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar os seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?
Mário Quintana. Porta Giratória-São Paulo, Globo, 1988. p. 83.
PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM- 22/3/2010
1- Escreva uma carta de amor a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção, dos “insghits” que essa palavra desperta em voce.
Ou pode optar pela proposta nº. 2
2- Escreva uma carta a um amigo a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção e dos “insghits” que essa palavra desperta em você.
-- Bom dia. Sua passagem por favor. Disse ao 1° da fila. Essa educação formal o deixou ainda mais revoltado. Potencializava o desterro de mais uma cidade que lhe expurgava como um verme. Onde quer que ele fosse, a maldita lembrança do seu crime disparava e atingia a memória da cidade precedente, revelando o antecedente pelo qual pagou 13 anos numa penitenciária paulista. Lembrou e começou a chorar e soluçar angustiado. Compreendeu o que ouviu certa vez no corredor do tribunal: fazer justiça não é aplicar pena, é reconciliar as partes. -- Ai meu Deus! O ônibus capotou. Só sobreviveu um...
No final do caminho sempre existe o chão.
Da pena à pedra, do pé ao corpo, da cinza ao vento.
Nada desafia a gravidade que nos afronta.
Cabe às nuvens, com o eterno retorno das águas e breviedade subliminar, narrar detalhes desse embate.
Usando hierógrifos de algodão.
Conheci o Tião por acaso, navegando sem destino na blogosfera.Cheguei no dia em que comemorava dois anos de existência. Sabe, tipo melhores momentos? Foi o suficiente para passar a acompanhá-lo diáriamente.
Tião se tornou um dos meus melhores amigos, estava entre os favoritos. Eu seguia de perto sua vida cotidiana. Já lia até seus pensamentos. Torcia por ele, xingava, discordava.
Já havia decidido me declarar sua amiga de infância no domingo de Páscoa. Mas hoje , quando fui visitá-lo, deparei-me com o seguinte aviso: “ Este blog só pode ser acessado por leitores convidados. Digite sua senha”.
Como assim? Barrada no baile? Você sabe com quem está falando? Um soco no monitor!
Pena! Deveria ter me declarado antes. Sei que ele jamais me negaria um convite!
Olhando assim de longe ninguém diria que ela seria capaz daquilo. Tanta desordem. Aparentemente não tinha motivo para tanto. Tantos sorrisos, tantos carinhos. Eram feitos um para o outro. E agora isso. Em cinco minutos a cidade inteira já sabia do ocorrido. Em dois segundos todos já julgavam. O que houve com ela? Não tinha do que reclamar... tinha um marido de ouro... Nossa! Deveria estar louca... Nunca desconfiei dela, sempre tão certinha... Quem diria!!! Especulações. Mas quem estava ali quando escureceu e o fino fio escarlate maculava o tapete da sala?
A literatura contemporânea passa por profundas e velozes mudanças introduzindo novas formas na arte da escrita. O chamado “miniconto” ou “microconto”, um tipo de narrativa que tenta a economia máxima de recursos sem, no entanto, perder a expressividade e a beleza do texto, além de causar um impacto instantâneo sobre o leitor, surge com força no cenário literário.
Prova disso é a publicação em 2004 do livro: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizada por Marcelino Freire, em que os autores foram desafiados a escrever contos de no máximo cinqüenta letras.
..."Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, Augusto Monterroso, conhecido como menor e mais famoso miniconto do mundo; Dalton Trevisan, responsável pela canonização desse tipo de texto no Brasil; Julio Cortazar vem, juntamente com outros autores, reforçar a importância dessa nova estética.
Produzir uma narrativa com começo, meio e fim preservando as propriedades do conto dentro dessa nova estética, o miniconto, é o desafio que proponho.
Outra vez. E outra. Mais uma vez. Chova ou faça sol. Destino traçado tostão a tostão. Tochado goela abaixo. Mais uma criança interrompida. Desce o morro. Mais uma criança. Que arrasta o corpo. Mais um corpo que carrega outro. Mais um meio atropelando o inicio. Mais um dia sem fim. Sem Cruzeiro. Cruzado. - É 10,00 Real moço! Mais uma criança. Mais um treco. Mais uma que sobe o morro. Outra vez um trapo. Outra vez sem corpo. Outra caixa. Do lixo ao lixo.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Parabéns para você nessa data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Para Walter nada. Tudo! Tudo. Então como é que é? É...é... As bexigas coloridas. A família reunida. A mesa decorada. Apenas um bolo no centro da mesa, bolo de fubá com cobertura de chocolate. Jarras de suco. Suco artificial. A data do aniversário nunca passou esquecida, mamãe sempre comemora dessa forma. Percebi que nesses meus 14 anos, nunca tive um presente que sonhasse no meu aniversário, também não os tive no Natal e em nenhuma outra data comemorativa. Aqui no morro, meus amigos também não ganham nada significativo. E ainda dizem que tenho uma mãe e um pai que fazem tudo por mim e que não posso reclamar, pois eles estão em situação pior. Minha mãe é realmente uma mulher especial, trabalha de empregada numa escola de bacana e conseguiu uma bolsa para mim. Ela acha que fez o melhor que pôde, mas, não sei se realmente o fez. Enquanto eles todos têm o kit escolar do melhor, eu todo ano tenho uma mochila vinda de doação. Enquanto eles têm os tênis de marca (aqueles que eu sonho ganhar nas datas festivas), eu, muitas vezes tive de ir de chinelos de dedo. Sou apontado no intervalo. Aqui não tem merenda e eu nunca tenho R$ 1,00 para comer na cantina, às vezes minha mãe me chama e escondido eu como um pouco da marmita que ela traz. De manhã venho com ela de ônibus, mas, na hora de ir embora eu vou a pé, para economizar. Por mim, é bem verdade nunca mais voltaria. Porém, minha mãe disse que passa o que passa para me ver bem formado. Disse que vou ser médico, o sonho dela é que eu seja Dr. Nunca falei a respeito disso com ela, de certa forma, pela sua ignorância, não quero magoá-la. Médico? Vejamos bem, nós temos aquele certificado de miserável (vivemos abaixo do limite da pobreza). Meu pai, gari chegou todo feliz. Ganhou um curso técnico e passou para mim. Todo sábado vou ao curso, torneiro mecânico. Para que, diga-me para que um futuro médico, precisa se formar torneiro mecânico? São simples e ignorantes. Uns amigos meus lá do morro, andam fazendo “um dinheirinho”, e colocam coisas gostosas na geladeira, ajudam os pais a pagarem as contas, andam “nos panos”. Disseram que se eu quiser me arrumam uma vaga. Na escola eu já percebi que tem uns que curtem as mercadorias que eles vendem. De repente aqui eu faço uma boa clientela. Decidi que sim. Comecei a vender para um, que já falou para outro e mais outro e assim fui crescendo. Comprei todos os presentes que almejei em pouco tempo e meus pais um pouco chateados andam desconfiados de mim. Ainda sou um bom aluno e faço tudo do portão para fora, não quero complicar a vida da minha mãe. Já avisei para ela, no meu aniversário de 15 anos nada de bolinho de fubá com suco artificial. Vamos mesmo é fazer um churrasco com carne de primeira, refrigerantes de marcas boas e bebidas alcoólicas para os adultos. Nunca bebi e nunca me aproximei intimamente das mercadorias que vendo. Acho que não dá para misturar, sou um bom comerciante. Apenas! Lá na escola as coisas já mudaram, todos me convidam para baladas e me chamam para ficar no intervalo. O problema é que meus amigos lá do morro é que me olham diferente, dizem que eu fiquei metido, que não saio mais com eles. Eu sei que a probabilidade de ser pego com eles é muito grande. Juntos, somos muitos favelados. Já com o pessoal da escola não há tanta marcação policial, eles são elite e com eles eu só tenho a crescer. Sábado agora é meu churrasco convidei todo pessoal da escola e também meus amigos do morro. Precisa ver como a casa está bonita, dei uma bela reformada. Parabéns para você! Tudo... Tudo... Então como é que é... é...papapapapapa.....Eu não comprei rojões...que significa isso? Tiros, muitos tiros. Entraram em casa e não atiraram em ninguém. Apenas em mim. Fiquei tetraplégico. Minha mãe saiu do trabalho para cuidar de mim. Meu pai assumiu o curso de torneiro mecânico. Quando vamos ao médico minha mãe calça nos meus pés os tênis de marca que tanto desejei e sei que por esse desejo aqui estou nessa situação. Nunca mais falamos sobre eu ser um Dr . Nunca mais falamos sobre nada, mamãe e eu passamos tardes silenciosas. Ela a preparar os tais bolos de fubá para eu tomar meu café da tarde. Ela se decepcionou comigo. Eu sinto. Papai decepcionou-se comigo. Eu sei. Mas, eles não falam sobre isso, apesar de tudo, dão graças a Deus, por eu estar vivo. Também me decepcionei comigo, pois nasci no morro, e não tenho sequer direito a comida boa e coisas tão simples. Silencia o fato de eu ser pobre. Miserável. Silencia o fato de eu não ter nada, mas, estar no mundo capitalista que me impõe tantas coisas. Silenciam as minhas pernas, que já não mais andam. Todos dirão que sou mais um marginal que buscou o lado mais fácil. Tolice. Esse lado é sempre o mais difícil. Cá estou eu... Vivo!! E como dizem: - “a esperança é a última que morre”. Então meu pai todo sábado diz: - Dias melhores virão e nossa vida será outra depois que eu me formar um Torneiro Mecânico!
Como sabemos, enredo é o corpo de uma narrativa, comumente conhecido como o desenvolvimento de ações em uma linha de tempo, o enredo é a própria história narrada que contém as situações/ações, as personagens que se envolvem entre os fatos e as mudanças que ocorrem nelas e entre elas.
Considerando-se que enredo é também intriga e trama, estas são estruturadas a partir de um núcleo temático que será desenvolvido pelas personagens em todas as circunstâncias do percurso narrativo. Desse modo, o enredo pode ser de amor, de aventuras, de problemas existenciais, de problemas sociais, de fantasia, de ficção científica e etc.
No caso, enredo de problemas sociais, - essa história é relatada com ironia amarga, pois desenvolve o tema do menor infrator, evocando as condições sociais que o levam ao delito: pobreza (mora no morro), a ausência do pai, de educação sistematizada, de emprego (a mãe vê como fruto do trabalho (ironia do autor) os objetos com os quais o filho a presenteia).
O verso final de cada estrofe (“E ele chega”) é carregado de ambigüidade: ele chega a casa; aonde ele chega?
“Ele um dia me disse que chegava lá” Lá, na condição de superior e/ou na condição de marginal?
PROPOSTA-Elabore, mantendo as mesmas duplas da proposta anterior, um texto ou um crie uma crônica abordando a temática:“Problemas Sociais”
Veja as imagens ao som da bela musica de Chico Buarque como fonte de “inspiração” clicando em “enredo de problemas sociais”
"É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor. Se eu não escrevesse não me sentiria vivo, não me sentiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo.
É aquela história: escrevo, logo existo. Uma resposta meio cartesiana".
"Escritos-Linguagem no corpo",uma busca, uma troca,um eterno exercício da escrita.
'Escritos-Linguagem no corpo"
É um blog voltado para os escritos de cada participante que mediante “orientações” previamente estabelecidas desenvolverá os trabalhos a serem postados.
Algumas explicações são necessárias, a começar pelo título. Optei por “no corpo” ao invés de “do corpo”, uma vez que trazemos marcas escritas em nossos corpos, fruto de nossas experiências. É o corpo também do próprio blog e tantos outros corpos-símbolos, além do corpo da linguagem: o corpo do corpo no corpo.
A imagem superior é da capa do livro de Gilles Deleuze (Mil Platôs), escolha feita pela beleza em si mesma, mas principalmente pela grandeza da obra desse autor.
Sem pretensão alguma de “orientar”, mas sim sugerir algumas técnicas partindo da idéia de que estamos sempre aprendendo um com o outro, criei: “Escritos”.
A proposta (adorei) foi uma sugestão da Veroca, sabendo que sou professora e trabalho com Oficinas de Literatura me incentivou e (depois de alguns ótimos blá-blá-blás) chegamos ao blog.
Contudo, longe de mim essa coisa professoral (rs). Minha opção é sempre pela Oficina onde a troca é a regra!!!
sueliaduan-20/10/2009
Começaremos em breve... Espero