Porque a gente combinou de tomar café naquela pequena padaria de Piri à qual nunca fomos juntos, mas fomos em outras andanças, separados, e combinamos de antemão que não teríamos dinheiro para comprar outras coisas senão café, porque nos conhecíamos bem e sabíamos que não teríamos. E também sonhamos que você usaria aquela camiseta vermelha de sempre que tinha a malha boa e não acabava nunca, mesmo muitos anos depois, quando nos encontrássemos naquela pequena padaria de Piri, você ainda a teria e a usaria, embora um tanto que desbotada. “A tinta pode até sair, mas essa malha nunca acaba”, você disse.
E a noite desmaiava dentro do meu estômago, a gente ora falava, ora só imaginava a pequena padaria como as coisas de Piri, toda enfeitada de doces caros e a gente rindo do pouco dinheiro que tivesse e mal daria para o café. A gente nunca que mudava, se eu estava mudando, era só de lugar, se você ficava, não era por muito tempo também porque a gente nunca que mudava aquele jeito de se mudar sempre, tal cigano. A gente ria na calçada do estrangeiro como riria em Piri, ria da nossa despedida se misturando com as coisas inventadas que estariam por vir. E o medo desmaiava em meu estômago, e se você perdesse a camiseta? E se não desse jeito de ir?
Por quê? Se a gente combinou de tomar café naquela pequena padaria, anos depois, você esteve ali com outra camiseta e outra garota? Por quê? Só para se vingar de mim? A gente estava certo, não estava? a gente nunca que mudava, nunca que deixava de se mudar, a gente nunca que daria certo assim.
(Mas gosto de imaginar, todos os anos, no dia marcado, que me sento no banco da pequena padaria, peço um café e brindo: à Piri! E você se aproxima, sem um puto no bolso, com uma camiseta vermelho-desbotado e diz: paga um pra mim?)












