quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cubra-me de pedras











 imagem Google




Cubra-me de Pedras.


Cubra-me de pedras
Lance seus espinhos
Do puro curare

Pedras que esmagam
Na minha fronte que sangra
No desmonte deste ser.

Cubra-me de folhas secas
Das arvores mortas do sertão
E assim acaba.



Toninho 
09/02/2011





Baseada em:
Coroai-me de Rosas
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade,
De rosas —

Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!

Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"A Paródia" (uma relação intertextual)




A paródia é um tipo de relação intertextual, ou seja, aquela que um texto (de partida) tem com um outro texto, filme, quadro, música, etc.
Nela o autor retoma o que foi dito ou escrito por outra pessoa e modifica a mensagem com o objetivo geralmente crítico-humorístico de contestá-la, de ridicularizá-la. Um bom exemplo é o poema Canção do exílio, de Murilo Mendes, AQUI.
Nota-se que a paródia de Murilo quer ridicularizar o texto de partida (de Gonçalves Dias), afirmando que no Brasil a elite come maças importadas, nas árvores cantam pássaros estrangeiros, os poetas mulatos querem ser mais do que realmente são, os militares se metem a ser pintores de vanguarda, os pensadores se vendem etc.

DATA DA POSTAGEM 21/02/2011

PROPOSTA

Tome uma letra de uma canção, ou de um poema de sua preferência, e coloque nela(e) (palavra por palavra) uma nova letra bem-humorada.

Apenas um lembrete: “criticar sem denegrir”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As Tais Recomendações!


Passado: algo latente que cutuca o presente e perpetua o futuro. Outrora o psicólogo disse que há de se despir desse passado e para isso basta passá-lo a limpo e que isso é bem simples, tais recomendações foram:
Distrair-se! Fazer o que ama! Preencher o Tempo Vazio! Aproveitar a Vida! Rir Mais! Não levar tudo tão a sério! Reescrever a própria história a cada dia! Mas, se por ventura, nada disso resolver é bom ter mesmo sempre à mão uma caixinha daqueles de Tarja Preta.
Preta mesmo: a lembrança da roupa utilizada no velório. Preta Mesmo: Luto!
Lutar para esquecer esse episódio também entra naquelas tais recomendações. Para esse fato não há remédio não, nem receita pronta, nem ocupação de corpo, alma, tempo, mente.
Mente quem diz que passado não interfere no presente. Mente quem diz que lembranças são apagadas com o tempo. Mentem ainda mais os que acham que as apagam . Lembranças do passado, de ontem como queiram estão inerentes ao dia de hoje. Hoje: Presente!
Encontrar poesia nas lembranças de ontem é começar a rascunhar a história de hoje. Tudo é uma questão filosófica. É preciso galgar o meio da estrada! O meio é o que determina o presente, o agora, o já. Porém, naturalmente existira possibilidades de se olhar para trás. Lá terá sim: "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", existirá também: "Cem Anos de Solidão". Mas, ao olhar desse meio tem se a vantagem de enxugar as lágrimas e recontar tudo construindo sim uma nova versão. Versão essa que faz encontrar no já, no agora, no imediato: "Um olhar para Os Lírios do Campo" e busca inocente a "Noites Brancas".
É preciso então deixar de se preocupar com os passos rápidos. Vai-se vagarosamente , pois , ao fim desse caminho há de se entender que é preciso viver e viver é ter sim de se esbarrar com o passado. É preciso agradecer aos psicólogos por suas receitas , porém, vale prescrever a eles que também têm passado que o melhor mesmo é colecionar lembranças e não descartá-las. Não se destrói jamais uma lembrança. Constrói-se a partir dela uma outra, uma obra.
De obra em obra, de vida, história e da trilogia Passado, Presente, Futuro aprende-se mesmo que no ápice de uma catarse prevalecerá de fato: "A Comédia da Vida Privada".

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Viagem Fantástica



Sempre foi e será o desejo
De todo e qualquer ser humano,
Uma viagem pelo mundo afora.
Um sonho que todos fazem
E poucos conseguem realizar.
Porém após meditar... A vida,
O maior anseio para ser feliz,
É dar uma volta fabulosa
Em volta de si mesmo.
Descobrir quem sou, afinal!
Eu posso girar em torno de mim
E pensar, ver, observar e definir.
Mais que isso é decidir-me.
O mundo é belo visto por mim.
O meu interior adormecido
Não dá tudo que tem para dar.
Um espírito sem rumo, que pena!
É só decidir-me! É viagem grátis.
Tudo a fazer em prol de todos.
Missão esplêndida, meu Deus.

Santiago Ribeiro

sábado, 22 de janeiro de 2011

Simone

Simone era bem pequena e já estava fadada ao fracasso. Nenhuma súplica muda seria ouvida porque não existiam ali os ouvidos que dessem conta daquele recado. Óbvio. Em um apartamento espremido entre tantas outras coisas de cidade grande, as crianças não crescem como flores nem os cachorros latem pelos melhores motivos. E Simone queria latir de ouvido, como quem canta. Alto, sentindo uma partezinha da garganta que quase ninguém vê (quanto mais ouve!). Ali, ninguém entendia disso, nem sua mãe, nem sua avó, nem seu avô, muito menos seu pai – que não voltava nunca de onde tivesse ido. Para aquela gente, latir, bem, era, claro, coisa para os cachorros. Simone estava fadada ao fracasso.

Não que fosse de todo diferente, tinha lá seus vinte dedos, seus dois peitos por inflar e algumas manias (rosnar à hora do angelus e uivar ao meio dia) como todo mundo tem suas manias. Mas, os avós, que a tudo julgavam ter visto, aquilo não tinham visto nunca, aquilo de uivar à mesa do almoço. O que se crê do que se viu, parece impossível do que nunca se viu, e não se vê por aí as coisas que nascem da impressionante habilidade de ouvir o que não se diz. E assim que ouvia as coisas não ditas, Simone queria dizer de volta, sem ver outro jeito entretanto: só se fosse latindo, sentindo uma partezinha da garganta que ou arranhava ou fazia cócegas e de cuja existência quase ninguém sabia. Isto fazia quando ninguém mais via: latia.

Os doutores eram unânimes em dizer que a coisa toda era psicológica. Os psicólogos eram unânimes em dizer que a coisa toda era esotérica. Os esotéricos eram unânimes em dizer que a coisa toda era física. Os físicos eram unânimes em dizer que a coisa toda era metafísica.

Outros que sabem (quem dera chegassem logo os que ouvem!) diriam que, Simone não falava porque ainda nem sabia latir, o que seria engraçado e do que os Outros Que Sabem ririam às pampas. Óbvio. Se Simone queria antes latir, antes não falaria nada, era, além de muda, coerente com seus princípios. Isso acertaram mesmo, que ela fosse coerente, tivesse olhos em brasa e dentro um grito preso, uma qualquer raiva que, com Simone, ao longo dos anos, ia crescendo.

Enquanto isso, a tudo assistia calada, aprendendo de cor todas as palavras também do inglês para latir em barks quando sozinha, sem ser incomodada.

Durou assim até a azeda festa de aniversário de seus 15, quando a irritou que sua mãe temperasse o bolo com lágrimas e tivesse ainda naquele dia entupido a minúscula sala com balões coloridos que ali pareciam os grandes invólucros dum velho desgosto. Não falou nem latiu. Não comemorou. Abriu a porta e saiu.

Sabe-se bem que as coisas das cidades são todas muito perigosas, que atrás dos postes podem se esconder os seres mais hediondos. A mãe de Simone não se conformava, de um tudo tinha tentado e,se agora se resignava, era porque dois calmantes faziam o bom efeito. Faltou-lhe um pai que chegasse e fizesse qualquer coisa. Era o que se ouvia entre o choro. Faltou-lhe um pai, repetia, aquele cachorro, repetia. Aquele cachorro.

Mas Simone já andava longe, já latia alto, já mijava nos postes e nos seres hediondos que atrás deles se escondessem. Quase como se tivesse pêlos, quase como se tivesse sido criada do nada, quase como se já estivesse na maior idade, quase como uma cadela vadia.

Só muito mais tarde, aos 80, ao meio dia, uivando seu último uivo entre os amigos de sargeta que com ela conheceram o mundo inteiro (Nova Yorks, Londres, Sidneys e Brasílias...) Simone se daria conta de que estivera fadada ao fracasso, não tivesse percebido cedo que a porta daquele minúsculo apartamento, naqueles velhos dias, sempre aberta, jazia.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Inegável Verdade do Ser


Sermos o que somos e mesmo assim almejando sempre o que devemos ser. De fato, ser é essencial. Se não for, você não é e logo não será o que deveras deveria ser sendo assim nada mais do que nada. Nada além do nada. Se formos o que somos seremos. Mas o que devemos ser? Devemos ser o que se é e logo, nada mais é do que nós mesmo. Pois cada ser é um ser diferente em sua essência, sendo assim um ser a existir com a certeza daquilo que se é e que isso que se é, é o que deveríamos ser.

A menina


A menina atravessava a rua, mãos dadas com a mãe. Preparava-se para descer o meio-fio. Aguardava meu carro passar para só assim chegar ao outro lado.

Ali paradinha, olhando para os próprios pés, sorria. Indiferente ao transito, indiferente à correria do sábado. Indiferente à conversa dos pais, ao irmão que corria. A menina estava só, ria só. Um faz de conta. Uma história inventada.
Era princesa, era fada.

O carro passou, a menina atravessou, inventando sozinha. Um futuro, uma brincadeira. Um sonho.O tempo passa. A menina passou. O carro passou. O dia foi. O sorriso ficou.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Em quê?


É preciso estar sempre atento, mas que isso não seja motivo para se perder a leveza do passo, nem a cadência do corpo. Para que a vida seja sempre um encontro, feito o beija-flor com a flor, ou o rio com o mar. Se é preciso atenção, e, sabemos que é, resta a dúvida. Em quê? No trabalho? Na casa? No relógio sobre a parede marcando nosso tempo de ir e vir? No homem que passa cabisbaixo? Na folha caída ao chão? Na moringa de barro, no cesto de vime, na garrafa de vinho, nas toalhas brancas com dobras bem marcadas dos finos restaurantes? Em teu doce olhar? Ou na dura realidade da vida — na moça apressada atrás do ônibus? Na feira? No preço do pão? Na tragédia da criança morta no semáforo? É preciso ir além. Estar atento aos minúsculos seres vivos da flora e da fauna, no cheiro da terra molhada, nos movimentos climáticos, nas ondas do mar, na vida que palpita em tudo e em todos. Atentos ao sabor e ao saber. Mas é chegada a hora da atenção maior, aquela a qual fomos chamados para que a vida não seja um simples passar. É preciso estar atento, sem descanso, numa busca incessante e prazerosa para nos conhecermos cada vez mais e saber quem realmente somos.


domingo, 9 de janeiro de 2011

Poema em prosa

O poema, para ser poema, precisa do verso?
O poema depende do verso?
É refém do verso?
Há poema fora do verso?

O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM
“Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol”. Jorge de Lima

EMBRIAGAI-VOS
“É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: - É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor”. Charles Baudelaire

DATA DA POSTAGEM- 24/01/2011
PROPOSTA

Escreva um poema em prosa sobre um fato, um acontecimento ou ainda, em forma de “ensinamento”, “advertência”, como fizeram respectivamente Jorge de Lima e Charles Baudelaire.
  
Alguns clássicos do gênero "poema em prosa”:
- Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire (Nova Fronteira).
- Uma estadia no inferno e Iluminações, de Rimbaud (dentro do volume Prosa poética, da Topbooks).
-Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto (Nova Fronteira, dentro da Poesia completa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma conversa puxa outra... Uma idéia. ...

Meus agradecimentos à Veroca ,queridíssima,que sugeriu a criação  do BLOG,
(a grande mentora)

Uma coisa chama outra já dizia minha avó. E não é que ela estava mesmo certa. A coisa aconteceu assim mesmo meio que por acaso. Bem, não vamos começar com essa coisa de: “O que tem que acontecer acontece”. Isso dá pano pra manga. Essa era outra coisa que minha avó também vivia falando pelos cantos da casa enquanto cuidava de tudo. E como cuidava. Não sei por que, mas hoje ela não me sai da cabeça. Vai ver é porque era uma pessoa generosa, cheia de boas idéias, semelhante a essa “moça” que conheci AQUI  e feito minha avó é pura generosidade.
O fruto desse carinho todo se concretizou "E FICOU LINDO" agora é só cuidarmos, colocarmos nossas idéias, de outros...outros e muitos...
Sermos generosos... saudade da minha avó

publicado no Oficio de escrever
quarta-feira, 4 de novembro de 2009

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Linha tênue.


A equipe passa rápido, logo em seguida, alguém empurra a maca. Sentada ali na sala de espera. Nem sabe ao certo a espera do que. Lembrou-se do passado. De quando em frente ao espelho "maquiava-se". Da vida agitada e entediante. Da vida agitada e interessante. Apenas um vacilar, um vacilar e tudo estava por um fio. A vida e a morte estavam ali face a face. E ela sentada a espera de algo. Três horas da madrugada foi o momento em que entrou por aquela porta. Um pouco embriagada acreditava. Bastante embriagada reconhecia. Extremamente embriagada admitiu!!! Na maca o tecido branco tornou-se vermelho. Cadê a equipe que não traz noticia? Lembrou-se do dia seguinte. O jornal estamparia na primeira capa: Acidente trágico. Vítima fatal! Vitima e fatal! Dois bons motes para se virar matéria de jornal. Bobagem, no jornal a escrita dela não teria espaço. Espaço no jornal só mesmo se a noticia for de morte. E ninguém vem lhe trazer a noticia que espera... Morreu, não morreu, ainda existe? Ainda existe, nessa sala, uma coisa que ronda os seus pensamentos. Como pôde ter feito aquilo? Essas roupas brancas levam-na a pensar coisas obscuras. Sim, ela sabe que é paradoxal. Mas, essas roupas brancas (nem tão brancas assim), visto que viu umas enfermeiras com umas camisetinhas bem amareladas. Teve vontade de dizer para “botar” de molho na cândida. Mas veja se são horas para se pensar nesse assunto? Veja se são horas para se pensar nas escritas dos jornais? Veja se são horas para se pensar em alguma coisa? Sentia-se lúcida. Ao mesmo tempo bêbada, pois só conseguia proferir pensamentos incompletos. As ideias dançavam e cintilavam em seu cérebro... uma euforia atraente.

Sete da manhã ainda a espera. Um café bem preto, bem forte, vai bem! Esse preto do café confunde ainda mais suas ideias. - Mais um café. - Tem com rum ou com vodka?

- Não . Isso aqui é um hospital!

12h. Tocam as badaladas. E ela aqui desde a ultima balada. Lá vem o medico.

- e aí Dr?

- Dr...? Tem certeza? Largue o café. Você precisa mesmo é de uma boa dose de glicose e na veia! Ao sair da sala sentiu que a espera...Essa espera...Esse local...Esse branco...O preto...As cores..Os pensamentos... O estresse...A embriaguez...Tudo isso acabaria em breve. Apenas uma dose de glicose e tudo isso ia para o espaço. Correu...Fugiu...Gritou... Xingou... Jogou a xícara no chão!

.................................

Só souberam dela pela foto estampada no jornal. O título dizia: - Mulher descontrolada e embriagada faz escândalo!!!

Ao ler a noticia, riu. Riu escandalosamente. Imaginou como seria se eles soubessem que ela não tomava nunca em hipótese alguma, bebida alcoólica? Continuou a admirar sua foto.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A queda diante da lei


De vida medíocre, nada de extraordinário me aconteceu. Minto, afinal, escrever é mentir -- elegantemente, óbvio. Nada de extraordinário até uma conversão proibida à esquerda: não sinalizei com seta, esqueci os retrovisores, não reduzi a velocidade. E também não precisava ter virado logo ali. O certo é que colidi com uma motocicleta, embora não tenha parado de cantar o refrão de "Nobody knows you When you're down and out".
Fui então conduzido à delegacia, para o registro da ocorrência. Entre pequenos furtos, uma briga de ex-casados, um adolescente e a diretora de sua escola, um patrão agredido pelo estágiário, entre tudo isso ouvi "terá de aguardar o escrivão". Eu ri, mas conservei a face séria. Assumindo a inexatidão da minha perícia ao dirigir meu popular (vê-se que mentir é escrever) não tive outra solução: cruzei as pernas, rememorei Bessie Smith e esperei. Passavam pernas fardadas, pernas enfaixadas, pernas com passos titubeantes -- talvez de algum algemado --, pernas bonitas, magras, gordas, brancas pretas amarelas. Meu coração não perguntou nada: "Nobody wants me round their door", cantava a rouca voz daquela negra e eu simplesmente acompanhava com o pé.
Perdi a noção de tempo (veja a mentira que é escrever!), mas continuei ali. Minha vista foi cansando daquelas lâmpadas fluorescentes, daquele constante murmurinho entrecortado por sirenes, lamentações e suplícios. Percebi que, aos poucos, meus cabelos foram tornando-se raros e, quando conseguia sentir uma mosca incomodando, meus movimentos faziam saltar fios brancos da minha cabeça. Abandonei os sapatos visando descanso: enfraqueci, é claro. A calça, dobrada até os joelhos, mostrava uma perna de onde pendiam peles ressacadas, como um tecido amarrotado depois de um longo dia de trabalho. E o jornal em que li a morte de um motociclista depois de um acidente com um carro datava de dezesseis anos atrás. A redação da notícia, imprecisa pela sanha de veracidade, dizia que o motorista do auto havia "evadido do local sem prestar socorro". Dada minha condição, não vejo opções a não ser acatar -- hoje sou um indiferente espectro na sala de espera de uma delegacia qualquer.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A ânsia da idade

Ansiedade. Por quê isso agora? Porque não domino a arte de usar porquês? Embora escreva, ainda não sei ler, ou seria o inverso, ...possivelmente. Despir-me-ei de qualquer complexo do uso da linguagem e narrar-vos-ei-te meus calabouços de escritor falido e louco. Falido de nascido, e louco por maioria de votos. Aqui nesse banco de praça, ou seria a beira de um vulcão extinto? Instinto, é o que me faz escrever embora esteja eu a beira de um surto de genialidade. Sim porque para mim, o que virá vai me fazer bem, vai me trazer paz... vai me fazer enxergar,... as coisas como os outros não vêem, veem..? E quando eu enxergar tudo bem certinho, todos vão dizer que fiquei cego, mas na verdade mudo ficarei, me calarei para que não zombem de mim...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"À queima roupa"


 Nesse momento olho-a fixamente. Alheia a tudo  ela não se dá conta, não me vê  não enxerga. É como se uma nuvem de fumaça existisse nessa ousada troca de rápidos olhares. Contraio os lábios num quase sorriso, e sutilmente escondo a imensa necessidade de perguntar-lhe:
— Como vai ?  De falar-lhe:
— A lua está tão linda.
Seu olhar perplexo me confunde. Desisto. Quem sabe amanhã. Um outro olhar, mais demorado, uma piscadinha, uma cumplicidade, ou até, quem sabe, um sorriso mais largo, frouxo, debochado. Por quê, não?
E eu vestida de coragem à queima roupa, pergunte-lhe
— O porquê de tanta distância. E feito criança mostre -lhe uma borboleta.  E ela cheia de vida:
—Linda, é azul. Voou.
Mas é só uma possibilidade. Nem um som sai de sua boca. Silêncio absoluto.
Com o olhar marejado de lágrimas olhamo-nos fixamente.
Nesse momento uma  infinita vontade de passar-lhe a mão pelos cabelos. Niná-la. Mas, não.
Então, abro lentamente a gaveta e guardo, mais uma vez, o espelho.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Qual é o limite entre a loucura e a lucidez?"


PROPOSTA

Crie um conto a partir da seguinte imagem:
"Em uma sala uma pessoa aguarda ser
chamada".

Leve em conta, na criação do conto, a loucura e a lucidez.

Observe, como isso acontece no conto de
Baudelaire,    AQUI.

DATA DA POSTAGEM-
10/12 /2010



sábado, 30 de outubro de 2010

Verdadeiros sóis


Lembro-me
do milharal
na memória
pequenos grãos
verdadeiros sóis
terra de meu pai


Lembro-me
de suas grossas mãos
na terra a cavoucar
de seu doce olhar
verdadeiros sóis
um homem a trabalhar


Lembro-me
da terra seca
do gado magro
da despedida
da partida
sol a nos guiar

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para sempre, amor!


HOJE
Na plenitude do amor,
Viverei cada minuto, cada instante perto de você!

HOJE
Como nunca,
Beijarei intensamente teus lábios, tão doces quanto favos de mel!

Com vigor,
HOJE, acariciarei tua pele veludosa
E direi, como se da última vez, o quanto lhe amo.

Ao teu lado, HOJE
Sentirei a paixão arder feito chama
Que nos aquece e protege da brisa fria ao entardecer.

E HOJE, ao Senhor
Pedirei em prece
Que da noite se suceda uma aurora reluzente

Para que assim
Eu possa, AMANHÃ
Estar novamente ao teu lado e ser eternamente feliz!
Santiago Ribeiro

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vê?



Vê?
...
Como o tempo mudou...
Vê?
...

Ontem a Terra parou...


...


Por um tempo eu pensei:
a minha hora chegou.
E muitos pensaram da mesma maneira
não fui só eu que me surpreendi
ainda que eu seja um tanto egoísta
naquele momento me dei por vencido
chorei como todos, arrependido.
Mas não haviam lágrimas que bastassem
fissão nuclear, correr ou ficar
dá no mesmo.




terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quem dera


Quem dera...
A juventude não tivesse se esvaído.
Não tivesse escapado pelos vãos de seus dedos.
Quem dera não tivesse...

E quem dera?
Escorregando em seu peito
desembocar num mar de lembranças.
Desbotadas.

Quem dera fosse pecado.
Quem dera fosse crime.
Não seria assim tão prisioneiro.

Quem dera...
Pudesse ter minhas culpas.
Maldizer seu nome.
Mandingas.
Maledicencias.

Quem dera.

Quem dera o retrocesso
Quem dera a dor fosse finda.
Quem dera não hovesse fantasmas.
Quem dera o perdão.
Quem dera recolher as palavras.
Quem dera aguardar sua vinda.
Quem dera o fundo do poço não fosse eterna morada.
Quem dera.
Quem dera.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A linguagem poética

“Os poemas são encontros, caminhos de uma voz para um tu - receptor, caminhos criaturais, talvez esboços de modos de ser, um projetar-se avante para si mesmo, e em busca de si mesmo. Uma espécie de retorno ao lar. O poema quer ir para um outro, precisa deste outro, precisa de outrem. Procura-o, promete-o para si”.
Paul Celan

“O poema é transitivo. Precisa do outro. Dos outros. O ato de ler criadoramente é insubstituível. Ler é realmente reescrever. Leitura é co-criação: desvenda dimensões do texto, descobre relações, realiza possibilidades. Os olhos do leitor fazem novos caminhos com o poema. Travessias que não se repetem. E que, muitas vezes, não estavam previstas pelo poeta. Assim, a leitura é também invenção”.
Roland Barthes

Observe, como isso acontece na poesia de Cecília MeirelesAQUI,

( A expressão "no último andar” lugar distante da realidade, ou seja, sentido sugestivo da palavra)


DATA DA POSTAGEM- 25/10/2010

PROPOSTA


Crie você também uma poesia com base numa palavra que adquira no seu texto um sentido sugestivo.

Para isso,  pense primeiro na emoção que você pretende comunicar: dor, saudade, amor, carinho, sonho, frustração, desilução, medo, alegria,etc.. A seguir, procure encontrar uma palavra - chave que possa sugerir essa emoção.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

É um alento

 Quando voltava para o seu apartamento , aqui , e só restou cantar Give Peace


Negros, mulatos, brancos.

chinês, japonês, norueguês.

Filhos do morro, do Capão, do Brás.

Filhos de Xangai, Quioto, Leirvik.

Filhos do mundo.

Punk, funk, rock

Harmonia, dança do corpo.

Mas corpo sem vida cai.

À bala, o choro, o silêncio.

Garoto inquieto,

tua música trago no peito.

É um grito.

É um alento.