quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Inegável Verdade do Ser


Sermos o que somos e mesmo assim almejando sempre o que devemos ser. De fato, ser é essencial. Se não for, você não é e logo não será o que deveras deveria ser sendo assim nada mais do que nada. Nada além do nada. Se formos o que somos seremos. Mas o que devemos ser? Devemos ser o que se é e logo, nada mais é do que nós mesmo. Pois cada ser é um ser diferente em sua essência, sendo assim um ser a existir com a certeza daquilo que se é e que isso que se é, é o que deveríamos ser.

A menina


A menina atravessava a rua, mãos dadas com a mãe. Preparava-se para descer o meio-fio. Aguardava meu carro passar para só assim chegar ao outro lado.

Ali paradinha, olhando para os próprios pés, sorria. Indiferente ao transito, indiferente à correria do sábado. Indiferente à conversa dos pais, ao irmão que corria. A menina estava só, ria só. Um faz de conta. Uma história inventada.
Era princesa, era fada.

O carro passou, a menina atravessou, inventando sozinha. Um futuro, uma brincadeira. Um sonho.O tempo passa. A menina passou. O carro passou. O dia foi. O sorriso ficou.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Em quê?


É preciso estar sempre atento, mas que isso não seja motivo para se perder a leveza do passo, nem a cadência do corpo. Para que a vida seja sempre um encontro, feito o beija-flor com a flor, ou o rio com o mar. Se é preciso atenção, e, sabemos que é, resta a dúvida. Em quê? No trabalho? Na casa? No relógio sobre a parede marcando nosso tempo de ir e vir? No homem que passa cabisbaixo? Na folha caída ao chão? Na moringa de barro, no cesto de vime, na garrafa de vinho, nas toalhas brancas com dobras bem marcadas dos finos restaurantes? Em teu doce olhar? Ou na dura realidade da vida — na moça apressada atrás do ônibus? Na feira? No preço do pão? Na tragédia da criança morta no semáforo? É preciso ir além. Estar atento aos minúsculos seres vivos da flora e da fauna, no cheiro da terra molhada, nos movimentos climáticos, nas ondas do mar, na vida que palpita em tudo e em todos. Atentos ao sabor e ao saber. Mas é chegada a hora da atenção maior, aquela a qual fomos chamados para que a vida não seja um simples passar. É preciso estar atento, sem descanso, numa busca incessante e prazerosa para nos conhecermos cada vez mais e saber quem realmente somos.


domingo, 9 de janeiro de 2011

Poema em prosa

O poema, para ser poema, precisa do verso?
O poema depende do verso?
É refém do verso?
Há poema fora do verso?

O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM
“Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu stradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol”. Jorge de Lima

EMBRIAGAI-VOS
“É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e voz faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: - É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor”. Charles Baudelaire

DATA DA POSTAGEM- 24/01/2011
PROPOSTA

Escreva um poema em prosa sobre um fato, um acontecimento ou ainda, em forma de “ensinamento”, “advertência”, como fizeram respectivamente Jorge de Lima e Charles Baudelaire.
  
Alguns clássicos do gênero "poema em prosa”:
- Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire (Nova Fronteira).
- Uma estadia no inferno e Iluminações, de Rimbaud (dentro do volume Prosa poética, da Topbooks).
-Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto (Nova Fronteira, dentro da Poesia completa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma conversa puxa outra... Uma idéia. ...

Meus agradecimentos à Veroca ,queridíssima,que sugeriu a criação  do BLOG,
(a grande mentora)

Uma coisa chama outra já dizia minha avó. E não é que ela estava mesmo certa. A coisa aconteceu assim mesmo meio que por acaso. Bem, não vamos começar com essa coisa de: “O que tem que acontecer acontece”. Isso dá pano pra manga. Essa era outra coisa que minha avó também vivia falando pelos cantos da casa enquanto cuidava de tudo. E como cuidava. Não sei por que, mas hoje ela não me sai da cabeça. Vai ver é porque era uma pessoa generosa, cheia de boas idéias, semelhante a essa “moça” que conheci AQUI  e feito minha avó é pura generosidade.
O fruto desse carinho todo se concretizou "E FICOU LINDO" agora é só cuidarmos, colocarmos nossas idéias, de outros...outros e muitos...
Sermos generosos... saudade da minha avó

publicado no Oficio de escrever
quarta-feira, 4 de novembro de 2009

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Linha tênue.


A equipe passa rápido, logo em seguida, alguém empurra a maca. Sentada ali na sala de espera. Nem sabe ao certo a espera do que. Lembrou-se do passado. De quando em frente ao espelho "maquiava-se". Da vida agitada e entediante. Da vida agitada e interessante. Apenas um vacilar, um vacilar e tudo estava por um fio. A vida e a morte estavam ali face a face. E ela sentada a espera de algo. Três horas da madrugada foi o momento em que entrou por aquela porta. Um pouco embriagada acreditava. Bastante embriagada reconhecia. Extremamente embriagada admitiu!!! Na maca o tecido branco tornou-se vermelho. Cadê a equipe que não traz noticia? Lembrou-se do dia seguinte. O jornal estamparia na primeira capa: Acidente trágico. Vítima fatal! Vitima e fatal! Dois bons motes para se virar matéria de jornal. Bobagem, no jornal a escrita dela não teria espaço. Espaço no jornal só mesmo se a noticia for de morte. E ninguém vem lhe trazer a noticia que espera... Morreu, não morreu, ainda existe? Ainda existe, nessa sala, uma coisa que ronda os seus pensamentos. Como pôde ter feito aquilo? Essas roupas brancas levam-na a pensar coisas obscuras. Sim, ela sabe que é paradoxal. Mas, essas roupas brancas (nem tão brancas assim), visto que viu umas enfermeiras com umas camisetinhas bem amareladas. Teve vontade de dizer para “botar” de molho na cândida. Mas veja se são horas para se pensar nesse assunto? Veja se são horas para se pensar nas escritas dos jornais? Veja se são horas para se pensar em alguma coisa? Sentia-se lúcida. Ao mesmo tempo bêbada, pois só conseguia proferir pensamentos incompletos. As ideias dançavam e cintilavam em seu cérebro... uma euforia atraente.

Sete da manhã ainda a espera. Um café bem preto, bem forte, vai bem! Esse preto do café confunde ainda mais suas ideias. - Mais um café. - Tem com rum ou com vodka?

- Não . Isso aqui é um hospital!

12h. Tocam as badaladas. E ela aqui desde a ultima balada. Lá vem o medico.

- e aí Dr?

- Dr...? Tem certeza? Largue o café. Você precisa mesmo é de uma boa dose de glicose e na veia! Ao sair da sala sentiu que a espera...Essa espera...Esse local...Esse branco...O preto...As cores..Os pensamentos... O estresse...A embriaguez...Tudo isso acabaria em breve. Apenas uma dose de glicose e tudo isso ia para o espaço. Correu...Fugiu...Gritou... Xingou... Jogou a xícara no chão!

.................................

Só souberam dela pela foto estampada no jornal. O título dizia: - Mulher descontrolada e embriagada faz escândalo!!!

Ao ler a noticia, riu. Riu escandalosamente. Imaginou como seria se eles soubessem que ela não tomava nunca em hipótese alguma, bebida alcoólica? Continuou a admirar sua foto.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A queda diante da lei


De vida medíocre, nada de extraordinário me aconteceu. Minto, afinal, escrever é mentir -- elegantemente, óbvio. Nada de extraordinário até uma conversão proibida à esquerda: não sinalizei com seta, esqueci os retrovisores, não reduzi a velocidade. E também não precisava ter virado logo ali. O certo é que colidi com uma motocicleta, embora não tenha parado de cantar o refrão de "Nobody knows you When you're down and out".
Fui então conduzido à delegacia, para o registro da ocorrência. Entre pequenos furtos, uma briga de ex-casados, um adolescente e a diretora de sua escola, um patrão agredido pelo estágiário, entre tudo isso ouvi "terá de aguardar o escrivão". Eu ri, mas conservei a face séria. Assumindo a inexatidão da minha perícia ao dirigir meu popular (vê-se que mentir é escrever) não tive outra solução: cruzei as pernas, rememorei Bessie Smith e esperei. Passavam pernas fardadas, pernas enfaixadas, pernas com passos titubeantes -- talvez de algum algemado --, pernas bonitas, magras, gordas, brancas pretas amarelas. Meu coração não perguntou nada: "Nobody wants me round their door", cantava a rouca voz daquela negra e eu simplesmente acompanhava com o pé.
Perdi a noção de tempo (veja a mentira que é escrever!), mas continuei ali. Minha vista foi cansando daquelas lâmpadas fluorescentes, daquele constante murmurinho entrecortado por sirenes, lamentações e suplícios. Percebi que, aos poucos, meus cabelos foram tornando-se raros e, quando conseguia sentir uma mosca incomodando, meus movimentos faziam saltar fios brancos da minha cabeça. Abandonei os sapatos visando descanso: enfraqueci, é claro. A calça, dobrada até os joelhos, mostrava uma perna de onde pendiam peles ressacadas, como um tecido amarrotado depois de um longo dia de trabalho. E o jornal em que li a morte de um motociclista depois de um acidente com um carro datava de dezesseis anos atrás. A redação da notícia, imprecisa pela sanha de veracidade, dizia que o motorista do auto havia "evadido do local sem prestar socorro". Dada minha condição, não vejo opções a não ser acatar -- hoje sou um indiferente espectro na sala de espera de uma delegacia qualquer.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A ânsia da idade

Ansiedade. Por quê isso agora? Porque não domino a arte de usar porquês? Embora escreva, ainda não sei ler, ou seria o inverso, ...possivelmente. Despir-me-ei de qualquer complexo do uso da linguagem e narrar-vos-ei-te meus calabouços de escritor falido e louco. Falido de nascido, e louco por maioria de votos. Aqui nesse banco de praça, ou seria a beira de um vulcão extinto? Instinto, é o que me faz escrever embora esteja eu a beira de um surto de genialidade. Sim porque para mim, o que virá vai me fazer bem, vai me trazer paz... vai me fazer enxergar,... as coisas como os outros não vêem, veem..? E quando eu enxergar tudo bem certinho, todos vão dizer que fiquei cego, mas na verdade mudo ficarei, me calarei para que não zombem de mim...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

"À queima roupa"


 Nesse momento olho-a fixamente. Alheia a tudo  ela não se dá conta, não me vê  não enxerga. É como se uma nuvem de fumaça existisse nessa ousada troca de rápidos olhares. Contraio os lábios num quase sorriso, e sutilmente escondo a imensa necessidade de perguntar-lhe:
— Como vai ?  De falar-lhe:
— A lua está tão linda.
Seu olhar perplexo me confunde. Desisto. Quem sabe amanhã. Um outro olhar, mais demorado, uma piscadinha, uma cumplicidade, ou até, quem sabe, um sorriso mais largo, frouxo, debochado. Por quê, não?
E eu vestida de coragem à queima roupa, pergunte-lhe
— O porquê de tanta distância. E feito criança mostre -lhe uma borboleta.  E ela cheia de vida:
—Linda, é azul. Voou.
Mas é só uma possibilidade. Nem um som sai de sua boca. Silêncio absoluto.
Com o olhar marejado de lágrimas olhamo-nos fixamente.
Nesse momento uma  infinita vontade de passar-lhe a mão pelos cabelos. Niná-la. Mas, não.
Então, abro lentamente a gaveta e guardo, mais uma vez, o espelho.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Qual é o limite entre a loucura e a lucidez?"


PROPOSTA

Crie um conto a partir da seguinte imagem:
"Em uma sala uma pessoa aguarda ser
chamada".

Leve em conta, na criação do conto, a loucura e a lucidez.

Observe, como isso acontece no conto de
Baudelaire,    AQUI.

DATA DA POSTAGEM-
10/12 /2010



sábado, 30 de outubro de 2010

Verdadeiros sóis


Lembro-me
do milharal
na memória
pequenos grãos
verdadeiros sóis
terra de meu pai


Lembro-me
de suas grossas mãos
na terra a cavoucar
de seu doce olhar
verdadeiros sóis
um homem a trabalhar


Lembro-me
da terra seca
do gado magro
da despedida
da partida
sol a nos guiar

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Para sempre, amor!


HOJE
Na plenitude do amor,
Viverei cada minuto, cada instante perto de você!

HOJE
Como nunca,
Beijarei intensamente teus lábios, tão doces quanto favos de mel!

Com vigor,
HOJE, acariciarei tua pele veludosa
E direi, como se da última vez, o quanto lhe amo.

Ao teu lado, HOJE
Sentirei a paixão arder feito chama
Que nos aquece e protege da brisa fria ao entardecer.

E HOJE, ao Senhor
Pedirei em prece
Que da noite se suceda uma aurora reluzente

Para que assim
Eu possa, AMANHÃ
Estar novamente ao teu lado e ser eternamente feliz!
Santiago Ribeiro

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vê?



Vê?
...
Como o tempo mudou...
Vê?
...

Ontem a Terra parou...


...


Por um tempo eu pensei:
a minha hora chegou.
E muitos pensaram da mesma maneira
não fui só eu que me surpreendi
ainda que eu seja um tanto egoísta
naquele momento me dei por vencido
chorei como todos, arrependido.
Mas não haviam lágrimas que bastassem
fissão nuclear, correr ou ficar
dá no mesmo.




terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quem dera


Quem dera...
A juventude não tivesse se esvaído.
Não tivesse escapado pelos vãos de seus dedos.
Quem dera não tivesse...

E quem dera?
Escorregando em seu peito
desembocar num mar de lembranças.
Desbotadas.

Quem dera fosse pecado.
Quem dera fosse crime.
Não seria assim tão prisioneiro.

Quem dera...
Pudesse ter minhas culpas.
Maldizer seu nome.
Mandingas.
Maledicencias.

Quem dera.

Quem dera o retrocesso
Quem dera a dor fosse finda.
Quem dera não hovesse fantasmas.
Quem dera o perdão.
Quem dera recolher as palavras.
Quem dera aguardar sua vinda.
Quem dera o fundo do poço não fosse eterna morada.
Quem dera.
Quem dera.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A linguagem poética

“Os poemas são encontros, caminhos de uma voz para um tu - receptor, caminhos criaturais, talvez esboços de modos de ser, um projetar-se avante para si mesmo, e em busca de si mesmo. Uma espécie de retorno ao lar. O poema quer ir para um outro, precisa deste outro, precisa de outrem. Procura-o, promete-o para si”.
Paul Celan

“O poema é transitivo. Precisa do outro. Dos outros. O ato de ler criadoramente é insubstituível. Ler é realmente reescrever. Leitura é co-criação: desvenda dimensões do texto, descobre relações, realiza possibilidades. Os olhos do leitor fazem novos caminhos com o poema. Travessias que não se repetem. E que, muitas vezes, não estavam previstas pelo poeta. Assim, a leitura é também invenção”.
Roland Barthes

Observe, como isso acontece na poesia de Cecília MeirelesAQUI,

( A expressão "no último andar” lugar distante da realidade, ou seja, sentido sugestivo da palavra)


DATA DA POSTAGEM- 25/10/2010

PROPOSTA


Crie você também uma poesia com base numa palavra que adquira no seu texto um sentido sugestivo.

Para isso,  pense primeiro na emoção que você pretende comunicar: dor, saudade, amor, carinho, sonho, frustração, desilução, medo, alegria,etc.. A seguir, procure encontrar uma palavra - chave que possa sugerir essa emoção.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

É um alento

 Quando voltava para o seu apartamento , aqui , e só restou cantar Give Peace


Negros, mulatos, brancos.

chinês, japonês, norueguês.

Filhos do morro, do Capão, do Brás.

Filhos de Xangai, Quioto, Leirvik.

Filhos do mundo.

Punk, funk, rock

Harmonia, dança do corpo.

Mas corpo sem vida cai.

À bala, o choro, o silêncio.

Garoto inquieto,

tua música trago no peito.

É um grito.

É um alento.

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Apropriar-se...Sempre!


Trecho tirado da Ilustríssima (Folha de SP de 26 de Setembro de 2010) - Caderno - Arquivo Aberto - Memórias que Viram Histórias - Um Herói Picaresco - Santos, 1954.



" Não cheguei a conhecer meu pai como aparece nesta fotografia. Difícil imaginá-lo tão novo e tão magro. Mas no pouco que ele contava de suas aventuras antifranquistas e amorosas em Barcelona, era assim que o via. A versão que me lembro percebi, difere um tanto da de minhas irmãs, não sei como será o pai delas, mas, o meu é esse um herói picaresco".



por Marinês;



Antonio Lacerda advogado, esposo de Luzia e pai de Ana Lúcia, Ana Beatriz e Ana Laura.

Fotos espalhadas pela casa.

Lembranças espalhadas nas memorias

No velório, lá estavam as quatro de luto.

Ana Lúcia e Ana Laura gêmeas de 18 anos abraçavam-se a mãe...e chorosas não a largavam em um sequer segundo.

Ana Beatriz já com seus quase 30 anos olhava para as coroas de flores e frases diferenciadas de amigos e parentes que diziam implicitamente a mesma coisa: "Força"

Que força essa o pai tinha?

Que imagem lhe ficava desse homem tão presente e ao mesmo tempo ausente demais?

pelas lágrimas e colo materno exigido pelas gêmeas...talvez, um herói pitoresco...

para ela ...quem sabe...um herói picaresco?

ausentou-se do caixão... enquanto uma lágrima salgada andava por sua face...

A única questão que fazia era de se apropriar de seus óculos escuros!

domingo, 26 de setembro de 2010

Que o saber seja adulto mas o brincar de criança


"A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança."
Santiago Ribeiro

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Eu acho!

Eu acho.
Essa expressão é uma das poucas que eu evito usar. Evito pois abre parenteses para questionamentos, quantas vezes já ouvi "Você acha ou tem certeza?" Porém é uma expressão tão usada que escapa a qualquer momento, sem pensar muito, como simples complemento na frase. Eu prefiro "Penso que". Limita ao eu e mais ninguém.
Então me apropriei justamente do vídeo sugerido pela Su dia desses, Provocações do Antonio Abujamra com a Marcia Tiburi, quando ele discorre sobre seu temor por uma filósofa dizer "Eu Acho".


Sorriu um sorriso amarelo.
Falsear do salto.
Desconcerto do momento.
Talvez o esconder a mágoa.
Talvez camuflar a ira.
As palavras que ferem.
O orgulho.
A fé.
Confronto.
Conta ponto.
Invadida nas certezas.
Bombardeio sem trincheiras.
Ah se pudesse prever!
Ah se pudesse fugir.
Revidar não seria o conforto.
Ironia morada segura.
Na arte da filosofia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Questão de sina

Então Su, vamos lá. A notícia é esta:
Lucienne e Raymonde, consideradas as gêmeas idênticas mais velhas do mundo pelo Luvro Guinness de Recordes, posam em Saint-Georges-de-Didonne, próximo à cidade francesa de Bordeaux. Nascidas em Paris, elas celebram 98 anos nesta quinta-feira (23). Viúvas, elas moram juntas desde que se aposentaram. Mais aqui

Minha apropriação meio sem vergonha hehehe
Imagem de Freyasson

Deu no jornal: são gêmeas idênticas.


Em uma, o reflexo da face da outra.

Dia e noite confrontadas com a própria imagem

O tempo todo, em toda parte, por pura sina.

Eu, surpresa, especulo...

Sobre notícia tão especular

Que sina a delas.

Vejo-me na face de

tantas outras...

Dia e noite confrontada com outros

pedaços inteiros de mim.

Inteiros,  inteiramente diversos.

Por vezes, até adversos.

Será que, como Castor e Polux

Eu e meus eus , enlaçados por nós

Alternamos entre o Olimpo e o Hades?

Que sina a minha.

Entre a nossa e a delas

Qual a maior solidão?

Qual a mais sem companhia?

Isto nunca escrevem no jornal....

Imprensa inútil! Que sina a nossa.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

“O POETA SE APROPRIA”


Na tentativa de responder quem faz o quê, como, quando, onde e por quê, o repórter acaba construindo uma narrativa, que não é regida pelo imaginário, mas pelos dados do cotidiano, da realidade.
A narrativa com o intuito de criar um mundo ficcional, mesmo que se valha de dados do mundo real é privilégio da literatura.

LEIA,  aqui, “Poema Tirado de uma notícia de Jornal - Manuel Bandeira”. Trata-se de uma experiência de Manuel Bandeira em que o poeta se apropria da linguagem jornalística e do aproveitamento espacial de uma página de jornal para criar o seu poema.
Observe que os “elementos” do “lead”( que informa o leitor sobre quem fez o quê, como, quando, onde e por quê) estão presentes nele:

quem: João Gostoso, carregador de feira-livre, residente no morro da Babilônia;
o quê fez: bebe, cantou, dançou, depois suicidou-se;
como:  afogando-se;
quando:  numa noite qualquer;
onde: na Lagoa Rodrigo de Freitas;
por quê:  aí reside a genialidade do poema- como as causas não estão explícitas ,como convém a um texto de natureza jornalística em que os fatos devem ser narrados com objetividade, elas estão sugeridas no contexto (suicídio como saída de uma vida miserável).

DATA DA POSTAGEM- 27/09/2010

PROPOSTA


Como Bandeira, faça a sua experiência, crie um poema a partir de uma notícia de jornal. Para isso leve em conta os “elementos” do “lead” elencados acima.
E ,claro,toda a sua genialidade!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ressurreição (única poesia que fiz para alguém em toda minha vida)

Que me seja dado abrir-me em cruz


Para os teus pecados

Para os teus agrados....

Que caibam em mim teus gestos, teu açoite, teus suspiros...

Que eu sobreviva aos meus soluços

E desvende enfim os teus segredos guardados.

E que te dê o meu descanso...

Pois se puder escolher... quero morrer cansada em ti.

(inverno de 2007, para W.M)

Um mimo pra todos.

Como disse, tenho andado por outras paragens e pouco tenho aparecido. No entanto leio sempre que recebo anúncio de novas postagens o contéudo deste blog. Eu tenho adoração por poesia e nenhum talento para escrever em verso. Quando alguma poesia consigo, ela me chega sempre em prosa. Por isto tenho livros e mais livros de versos. Entre tantos escolhi postar aqui uma foto que foram tiradas em minha casa e me dada por uma amiga muito querida, uma carioca maravilhosa que conhecí na net: Simone Del Rio. Este livro fica em cima de uma mesinha de canto, sempre com uma flor ao lado. Chama-se "A linguagem do amor" e traz versos sobre todo tipo de amor ( porque "qualquer maneira de amor vale amar, vera"). As ilustrações são belíssimas e de quebra, ele vem numa caixinha e um cheiro da rosa tibetana se desprende de suas páginas por muito tempo. Espero seja possível ler o poema que escolhi ler neste dia, um sarau literário que fizemos em casa. Foi um poema feito para Oscar Wilde. Fica como um mimo para os poetas deste espaço. Bjs a todos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sob a luz da Musa


Não foi o Mistério:
Infalível suspiro
Diante do nada
Instante da morte.

E nem foi o Tempo:
Insolúvel problema
Antes de hoje
Depois ou começo.

Também não foi Ela:
Eterno remendo
Pra todas as carnes
Desejo do beijo.

Escrito de fato,
O que me fez vário
Nem foi o Medo
O Sonho ou o Silêncio:

Mas sim a Miopia e seus planos convexos imensos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ferida


É preciso ter coragem
Para por o dedo na ferida
Tocar sua parte mais funda
A mais dolorida
É preciso mais
Saber enxergar, querida
Aonde bate o coração
Até onde vai a vida
O tênue fio da pulsação
E muito mais ainda
É preciso ter coragem
Para pensar e secar
Esta ferida
Inda que doa mais
Que a própria vida
Ainda que seja
Para dela extrair
O âmago, o suco
A coisa mais ardida
Que inflama por dentro
E, queimando no peito
Sangra, abre-se em flor
E, florida, brota do chão
Da pele, da voz,
Do grito e no olhar
Aberta
Ferida aberta
E, no entanto encoberta
Vergonha, êxtase noturno
Medo
Amor proibido

Santiago Ribeiro