quarta-feira, 19 de maio de 2010

"As Atitudes Poéticas"

Segundo Ezra Pound, aqui , a linguagem se carrega de significados principalmente de três maneiras:

● Induzindo correlações emocionais pelo som e pelo ritmo
●Trazendo um objeto para a imaginação visual
●Produzindo associações emocionais e intelectuais

Esses procedimentos não são usados separadamente. Todos eles contribuem para a significação do poema.
O poete é um inventor que usa palavras.

“Compreendi [...]que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”
(Manuel Bandeira, ‘Itinerário de Pasárgada’, in ─ ,Poesia completa e prosa, p.40.

DATA DA POSTAGEM- 31/05/2010

PROPOSTAS
1-Escreva um poema de sua autoria

Ou pode optar pela proposta

            2-Escreva um poema do seu poeta preferido
 
 

"A imagem poética"

Biblioteca/Sorocaba
Rua Da Penha

domingo, 16 de maio de 2010

Giz Caucasiano


Riscos de giz ao chão, definem sua vida, sua estrada, seu caminho está ali guardado num emaranhando de lembranças, que nem sequer sabemos ao certo o que foram. Riscos de giz ao chão, demarcam um mundo onde cada um viveu e vive, mostra um mundo único, onde cada um reside, eu no meu mundo e você no seu, que entram em colapso, a partir do momento em que os riscos de giz ao chão, brancos, esfumaçados, concretos, se tocam e sua linguagem, clara e objetiva, demonstra a tudo e a todos de forma inteligível o que nosso pensamento inconstante e nossas lembranças conseguem embaralhar e esquecer com tanta facilidade, nossa vida. Estes mesmos riscos de giz ao chão, que num olhar de um desconhecido podem lhe parecer um tanto singelos, são na verdade, muito mais que apenas riscos, são obras de arte, manifestos de vida em uma linguagem universal, a escrita, palavras, são o que são, esses riscos de giz ao chão

terça-feira, 20 de abril de 2010

O livro




Ali sobre o móvel. Tanto movimento, tanto a se dizer, ali sobre o móvel, intocado, intácto. Longe de ser manso, se entranha, arrebata. Ávido e se houver havido? Um livro, uma vida, um átimo de segundo. Aguardando o ato. Há tantos atos aguardados, ali, simplesmente guardados, sobre as páginas fechadas. Ali um livro sobre o móvel.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O ATO DE DESCREVER


Utilizar a linguagem verbal para construir imagens que representam seres, objetos ou cenas é assumir a atitude lingüística da descrição. Nesses casos, você estará empenhando em transformar em linguagem aquilo que seus sentidos captam a partir da observação de um objeto, de um recorte da realidade que se quer fixar.
Elaborar um texto descritivo é apresentar um ser, um objeto, um recorte da realidade a partir de um determinado ponto de vista, ou seja, o objeto da descrição deve ser observado a partir de uma determinada posição física. O ponto de vista é fundamental. Fica evidente, pois, que um texto descritivo acaba transmitindo uma imagem que pode estar mais ou menos impregnada da postura pessoal do produtor do texto. Isso não é nenhum problema, pois um texto desse tipo pretende transmitir uma impressão geral, uma sensação dominante despertada pelo que se descreve, muito mais do que um retrato fiel. Apenas a descrição técnica busca uma objetividade absoluta — e, mesmo nesse caso, é praticamente impossível anular totalmente a interferência do produtor do texto. Não é muito comum produzirmos textos descritivos puros. Normalmente, o processo descritivo é incorporado ao narrativo (personagens/ambiente) ou ao processo argumentativo (dados).

Leia o belíssimo texto, “"Se eu fosse um pintor" , de Cecília Meireles. Ela nos fala de uma limitação expressiva dos pintores: a impossibilidade de fixar o pensamento humano.

PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM- 19/04/2010

Elabore um texto descritivo. Pense na melhor forma de transpor o limite expressivo vivenciado pelos pintores,e citado por Cecília Meireles. Como seria? Leve em consideração: ─ a maneira que você quer apresentar o que está observando, os detalhes e o tipo de impressão que quer transmitir.

terça-feira, 30 de março de 2010

" The answer is blowing in the wind....."

Terra das Alterosas, abril de 2050,


Meu grande amor,

Acabo de abrir a janela e perceber que já estamos, de novo, em pleno outono. É outono também em minha vida e em meu coração. Coração  repleto de saudades; saudades de ti e de mim mesma.

Na nossa velha vitrola pus pra tocar o nosso velho disco de Bob Dylan, já arranhado pelo tempo. A beleza das manhãs de abril já se anuncia. Diante de nossa janela, árvores peladas, o chão repleto de folhas secas e aquela ventania, vinda não sei de onde. Varrendo as ruas, causando reboliços, revirando folhas, levantando bingas de cigarros apagados, um brinco caído da orelha de alguma moça distraída, um papel de bombom sonho de valsa. De novo o vento assobiando velhos e bisados enredos.

O vento me traz de volta você. Seus cheiros, o gosto do seu beijo, seu toque amoroso e quente. Alisa minha pele ainda branca. Alisa tanto, mas tanto meu amor, que a sinto sem nenhuma ruga, nenhum vinco, nenhuma pinta ou marca que denuncie a passagem do tempo. Apenas como a deixava: úmida, pelos arrepiados, exalando desejos. Esta ventania me convida a  revisitar outros tempos. Tempos de cabelos e emoções desalinhadas. Sinto sua presença, mas hoje a sinto como a senti pela primeira vez, lá nos dias do nosso começo.

A ventania começa também dentro de mim. Um vento que sussura baixinho e ininterruptamente a palavra saudade.... saudade..... saudade.

A força da junção de ambos, do vento que entra pela janela ao  que nasce  de dentro de mim, parece invadir,   tomar conta do nosso quarto e abrir nosso antigo baú. Faz deitar em meu colo uma velha caixa de recordações. Levanta, de forma inesperada, a tampa da caixa. Desfaz o amarelado laço de fitas que envolve o maço de cartas de amor trocadas por nós durante anos. Cartas daquelas embaladas em envelope branco, barrado em verde amarelo, selo colado com a língua.

Ninguém mais escreve cartas, meu amor. Nossos netos só mandam emails e coisas ainda mais modernas que não sei entender. Mas não é igual: falta a letra, que é uma espécie de voz, uma fisionomia. Falta o cheiro da tinta, o papel, este pedaço da matéria que a outra pessoa tocou e pôs num envelope. Faltam os pequenos objetos que acompanhavam as cartas - um raminho seco, um recorte de jornal colado, um beijo dado em batom, um borrifo de almiscar displicentemente derramado. Falta o prazer de reconhecer o outro já no envelope. Adivinhar pelo número de páginas o tom da conversa: mais lento, madrugada adentro, ou mais fugidio, só para manter o carteiro empregado naquele dia.

Depois de reler algumas delas, a ventania agora coloca em minha mão a boa e velha caneta. E aqui estou, trêmula,  tentando te escrever estas mal traçadas linhas.Espero que elas o encontrem bem, feliz, sonhando lindos sonhos de amor.

Amor de toda uma vida, a ventania, que tantos segredos nos revela, está passando. Hoje me trouxe um verso de Antonio Porchia.

"Estar en compañía no es estar con alguien, sino estar en alguien".

Devo apressar-me. Afinal, só conto com o vento para levar-lhe esta carta, esteja você onde estiver. Em breve seguirei também. Enquanto isto, ao fundo, Bob Dylan continua cantando para nós: “ the answer is blowing, is blowinnnnnnn in the Wind”

Para sempre sua, Vera

quarta-feira, 24 de março de 2010

Escrevo-lhe para dizer que as coisas aqui estão bem diferentes.
Há dias, Beto não sai mais de casa. Diz sentir falta da sua pessoa.
Não entendemos direito o por que você foi sem se despedir.
Aqui em casa nós sempre, sempre pensávamos que você já fosse um membro da família.
Isso acontece por sermos amigas de infância. Beto apegou-se com você. Ele disse que a casa não tem a mesma energia, nem a mesma alegria.
Espero que você esteja bem. Espero que tenha partido sem se despedir apenas por falta de tempo, ou??
Disse ao Beto: - se bem conheço Marília foi embora sem avisar, pois, não gosta de despedidas...e também por ser bem chorona. Ele riu e confirmou a hipótese de ser isso mesmo.
Amiga...embora tenha dito isso a ele. Não me convenci. Se puder mande-me uma carta, dê-me notícias.
O Paulo tem ligado em casa e quer saber onde estás. Não dei teu antigo endereço, caso queira que dê, diga-me, ou melhor, escreva-me. Não sei também se essa carta encontrar-te-a no velho endereço, espero que sim.
Aaaaa...Passei no Mestrado, nem acredito! Comprei aquele vestido que paquerava na vitrine já fazia uns dois meses. Não sei ao certo, mas, parece que o Diego está de flerte comigo. Menina do céu! O pai do Beto continua atrasando a pensão...pensando bem as coisas por aqui continuam iguais...exceto ressalvas: "Diego, Mestrado e vestido novo". O céu escureceu do nada e uma ventania chegou a bater fortemente as portas. Preciso terminar, pois, vou recolher as roupas do varal, antes que a chuva chegue.
Um abraço forte amiga e que essa mesma ventania passe por ai e avise-lhe o quanto fazes falta por aqui.
Dê-me notícias!

Sua amiga de hoje e sempre...Paula

segunda-feira, 22 de março de 2010

Carta




Oi...

Como tem sido sua vida? Me conta, mesmo que não ache importante.
Mandei arrumar o carro. Ficou bom, você tinha toda razão, estava precisando. Não entendo por que relutei tanto.
Ainda não consegui ler Paixão Segundo G.H. e nem Relatos de um Náufrago, como me sugeriu certa vez. Ainda não me escolheram, mesmo sendo Clarice e Gabo.
Pintei a casa. Laranja. Não como do poema "Impressionista" sempre amanhecendo. Entardecendo. Teria gostado, logo é noite.
Refiz o jardim. Abandonei as orquídea, são melindrosas demais e sou por demais de incompreensiva para com elas. Hoje, cultivo as violetas, a janela da cozinha está florida, elas me dão a chance de acreditar que estou no caminho certo. Se falho, substituo por uma nova, já florida e tenho a impressão de que tudo continua sempre igual.
Ontem encontrei aquele nosso amigo de longa data. Perdemos a intimidade. Senti essa perda, não somos mais crianças. Sabe, chego a conclusão, o tempo realmente passou, assim, feito ventania.
E sigo assim. Como se nada nunca tivesse fim.
Carinho.


PS: As portas continuam sem chaves.

terça-feira, 9 de março de 2010

O leitor ideal

O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
Uma frase? Que digo? Uma palavra!
O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina”.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
Sem mais nada.
Até sem nome.
Sem cor de vestido nem de olhos.
Sem se saber para onde ia...
Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.
Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar os seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?
Mário Quintana. Porta Giratória-São Paulo, Globo, 1988. p. 83.

PROPOSTA

DATA DA POSTAGEM- 22/3/2010


1- Escreva uma carta de amor a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção, dos “insghits” que essa palavra desperta em voce.


Ou pode optar pela proposta nº. 2


2- Escreva uma carta a um amigo a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção e dos “insghits” que essa palavra desperta em você.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sorte ou azar?

-- Bom dia. Sua passagem por favor. Disse ao 1° da fila.
Essa educação formal o deixou ainda mais revoltado. Potencializava o desterro de mais uma cidade que lhe expurgava como um verme.
Onde quer que ele fosse, a maldita lembrança do seu crime disparava e atingia a memória da cidade precedente, revelando o antecedente pelo qual pagou 13 anos numa penitenciária paulista. Lembrou e começou a chorar e soluçar angustiado. Compreendeu o que ouviu certa vez no corredor do tribunal: fazer justiça não é aplicar pena, é reconciliar as partes.
-- Ai meu Deus! O ônibus capotou. Só sobreviveu um...

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Chão

No final do caminho sempre existe o chão.
Da pena à pedra, do pé ao corpo, da cinza ao vento.
Nada desafia a gravidade que nos afronta.
Cabe às nuvens, com o eterno retorno das águas e breviedade subliminar, narrar detalhes desse embate.
Usando hierógrifos de algodão.

" Você sabe com quem está falando?"

Conheci o Tião por acaso, navegando sem destino na blogosfera.Cheguei no dia em que comemorava dois anos de existência. Sabe, tipo melhores momentos? Foi o suficiente para passar a acompanhá-lo diáriamente.
Tião se tornou um dos meus melhores amigos, estava entre os favoritos. Eu seguia de perto sua vida cotidiana. Já lia até seus pensamentos. Torcia por ele, xingava, discordava.
Já havia decidido me declarar sua amiga de infância no domingo de Páscoa. Mas hoje , quando fui visitá-lo, deparei-me com o seguinte aviso: “ Este blog só pode ser acessado por leitores convidados. Digite sua senha”.
Como assim? Barrada no baile? Você sabe com quem está falando? Um soco no monitor!
Pena! Deveria ter me declarado antes. Sei que ele jamais me negaria um convite!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Quem diria...




Olhando assim de longe ninguém diria que ela seria capaz daquilo. Tanta desordem.
Aparentemente não tinha motivo para tanto. Tantos sorrisos, tantos carinhos. Eram feitos um para o outro. E agora isso. Em cinco minutos a cidade inteira já sabia do ocorrido. Em dois segundos todos já julgavam. O que houve com ela? Não tinha do que reclamar... tinha um marido de ouro... Nossa! Deveria estar louca... Nunca desconfiei dela, sempre tão certinha... Quem diria!!! Especulações.
Mas quem estava ali quando escureceu e o fino fio escarlate maculava o tapete da sala?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

OFICINA -LITERATURA E PALCO

“Meus queridos"

Estarei na
ETAC-Escola de Teatro Arte e Comunicação
com a Oficina:

“LITERATURA E PALCO”
    
  Inicio:       19/03/2010
 Término:    19/06/2010
19:00 às 22:00
6ªs feiras

Inscrições-ETAC

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Gênero Minimalista- “Miniconto” ou “Microconto”



A literatura contemporânea passa por profundas e velozes mudanças introduzindo novas formas na arte da escrita. O chamado “miniconto” ou “microconto”, um tipo de narrativa que tenta a economia máxima de recursos sem, no entanto, perder a expressividade e a beleza do texto, além de causar um impacto instantâneo sobre o leitor, surge com força no cenário literário.

Prova disso é a publicação em 2004 do livro: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizada por Marcelino Freire, em que os autores foram desafiados a escrever contos de no máximo cinqüenta letras.

..."Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, Augusto Monterroso, conhecido como menor e mais famoso miniconto do mundo; Dalton Trevisan, responsável pela canonização desse tipo de texto no Brasil; Julio Cortazar vem, juntamente com outros autores, reforçar a importância dessa nova estética.

Produzir uma narrativa com começo, meio e fim preservando as propriedades do conto dentro dessa nova estética, o miniconto, é o desafio que proponho.

 
PROPOSTA
ESCREVER UM MINICONTO
(Tema-livre)
(Máximo de 10 linhas)


DATA DA POSTAGEM- 26/02/2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mais um....



Outra vez.
E outra.
Mais uma vez.
Chova ou faça sol.
Destino traçado tostão a tostão.
Tochado goela abaixo.
Mais uma criança interrompida.
Desce o morro.
Mais uma criança.
Que arrasta o corpo.
Mais um corpo que carrega outro.
Mais um meio atropelando o inicio.
Mais um dia sem fim.
Sem Cruzeiro.
Cruzado.
- É 10,00 Real moço!
Mais uma criança.
Mais um treco.
Mais uma que sobe o morro.
Outra vez um trapo.
Outra vez sem corpo.
Outra caixa.
Do lixo ao lixo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Parabéns para você nessa data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. Para Walter nada. Tudo! Tudo. Então como é que é? É...é...
As bexigas coloridas. A família reunida. A mesa decorada. Apenas um bolo no centro da mesa, bolo de fubá com cobertura de chocolate. Jarras de suco. Suco artificial. A data do aniversário nunca passou esquecida, mamãe sempre comemora dessa forma. Percebi que nesses meus 14 anos, nunca tive um presente que sonhasse no meu aniversário, também não os tive no Natal e em nenhuma outra data comemorativa. Aqui no morro, meus amigos também não ganham nada significativo. E ainda dizem que tenho uma mãe e um pai que fazem tudo por mim e que não posso reclamar, pois eles estão em situação pior. Minha mãe é realmente uma mulher especial, trabalha de empregada numa escola de bacana e conseguiu uma bolsa para mim. Ela acha que fez o melhor que pôde, mas, não sei se realmente o fez. Enquanto eles todos têm o kit escolar do melhor, eu todo ano tenho uma mochila vinda de doação. Enquanto eles têm os tênis de marca (aqueles que eu sonho ganhar nas datas festivas), eu, muitas vezes tive de ir de chinelos de dedo. Sou apontado no intervalo. Aqui não tem merenda e eu nunca tenho R$ 1,00 para comer na cantina, às vezes minha mãe me chama e escondido eu como um pouco da marmita que ela traz. De manhã venho com ela de ônibus, mas, na hora de ir embora eu vou a pé, para economizar. Por mim, é bem verdade nunca mais voltaria. Porém, minha mãe disse que passa o que passa para me ver bem formado. Disse que vou ser médico, o sonho dela é que eu seja Dr. Nunca falei a respeito disso com ela, de certa forma, pela sua ignorância, não quero magoá-la. Médico? Vejamos bem, nós temos aquele certificado de miserável (vivemos abaixo do limite da pobreza). Meu pai, gari chegou todo feliz. Ganhou um curso técnico e passou para mim. Todo sábado vou ao curso, torneiro mecânico. Para que, diga-me para que um futuro médico, precisa se formar torneiro mecânico? São simples e ignorantes. Uns amigos meus lá do morro, andam fazendo “um dinheirinho”, e colocam coisas gostosas na geladeira, ajudam os pais a pagarem as contas, andam “nos panos”. Disseram que se eu quiser me arrumam uma vaga. Na escola eu já percebi que tem uns que curtem as mercadorias que eles vendem. De repente aqui eu faço uma boa clientela. Decidi que sim. Comecei a vender para um, que já falou para outro e mais outro e assim fui crescendo. Comprei todos os presentes que almejei em pouco tempo e meus pais um pouco chateados andam desconfiados de mim. Ainda sou um bom aluno e faço tudo do portão para fora, não quero complicar a vida da minha mãe. Já avisei para ela, no meu aniversário de 15 anos nada de bolinho de fubá com suco artificial. Vamos mesmo é fazer um churrasco com carne de primeira, refrigerantes de marcas boas e bebidas alcoólicas para os adultos. Nunca bebi e nunca me aproximei intimamente das mercadorias que vendo. Acho que não dá para misturar, sou um bom comerciante. Apenas!
Lá na escola as coisas já mudaram, todos me convidam para baladas e me chamam para ficar no intervalo. O problema é que meus amigos lá do morro é que me olham diferente, dizem que eu fiquei metido, que não saio mais com eles. Eu sei que a probabilidade de ser pego com eles é muito grande. Juntos, somos muitos favelados. Já com o pessoal da escola não há tanta marcação policial, eles são elite e com eles eu só tenho a crescer. Sábado agora é meu churrasco convidei todo pessoal da escola e também meus amigos do morro. Precisa ver como a casa está bonita, dei uma bela reformada. Parabéns para você! Tudo... Tudo... Então como é que é... é...papapapapapa.....Eu não comprei rojões...que significa isso? Tiros, muitos tiros. Entraram em casa e não atiraram em ninguém. Apenas em mim. Fiquei tetraplégico. Minha mãe saiu do trabalho para cuidar de mim. Meu pai assumiu o curso de torneiro mecânico. Quando vamos ao médico minha mãe calça nos meus pés os tênis de marca que tanto desejei e sei que por esse desejo aqui estou nessa situação. Nunca mais falamos sobre eu ser um Dr . Nunca mais falamos sobre nada, mamãe e eu passamos tardes silenciosas. Ela a preparar os tais bolos de fubá para eu tomar meu café da tarde. Ela se decepcionou comigo. Eu sinto. Papai decepcionou-se comigo. Eu sei. Mas, eles não falam sobre isso, apesar de tudo, dão graças a Deus, por eu estar vivo. Também me decepcionei comigo, pois nasci no morro, e não tenho sequer direito a comida boa e coisas tão simples. Silencia o fato de eu ser pobre. Miserável. Silencia o fato de eu não ter nada, mas, estar no mundo capitalista que me impõe tantas coisas. Silenciam as minhas pernas, que já não mais andam. Todos dirão que sou mais um marginal que buscou o lado mais fácil. Tolice. Esse lado é sempre o mais difícil. Cá estou eu... Vivo!! E como dizem: - “a esperança é a última que morre”. Então meu pai todo sábado diz: - Dias melhores virão e nossa vida será outra depois que eu me formar um Torneiro Mecânico!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"POESIA E CONTEMPORANEIDADE"

"Agendem-se, meus queridos"


Dias 16, 17 e 18 de março estarei no SESC/SOROCABA com a
Oficina
“Poesia e Contemporaneidade”
Encerramento no dia 18 de Março com um sarau literário.
Como é uma parceria do SESC com a Oficina OTELO, as inscrições, acredito que, serão na Otelo

domingo, 24 de janeiro de 2010

E ele chega...

Como sabemos, enredo é o corpo de uma narrativa, comumente conhecido como o desenvolvimento de ações em uma linha de tempo, o enredo é a própria história narrada que contém as situações/ações, as personagens que se envolvem entre os fatos e as mudanças que ocorrem nelas e entre elas.

Considerando-se que enredo é também intriga e trama, estas são estruturadas a partir de um núcleo temático que será desenvolvido pelas personagens em todas as circunstâncias do percurso narrativo. Desse modo, o enredo pode ser de amor, de aventuras, de problemas existenciais, de problemas sociais, de fantasia, de ficção científica e etc.
No caso, enredo de problemas sociais, - essa história é relatada com ironia amarga, pois desenvolve o tema do menor infrator, evocando as condições sociais que o levam ao delito: pobreza (mora no morro), a ausência do pai, de educação sistematizada, de emprego (a mãe vê como fruto do trabalho (ironia do autor) os objetos com os quais o filho a presenteia).
O verso final de cada estrofe (“E ele chega”) é carregado de ambigüidade: ele chega a casa; aonde ele chega?
“Ele um dia me disse que chegava lá” Lá, na condição de superior e/ou na condição de marginal?

PROPOSTA-Elabore, mantendo as mesmas duplas da proposta anterior, um texto ou um crie uma crônica abordando a temática:“Problemas Sociais”

Veja as imagens ao som da bela musica de Chico Buarque como fonte de “inspiração” clicando em “enredo de problemas sociais”

DATA DA POSTAGEM – 09/02/2010

UM BOM TRABALHO

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Por que escrevo? (emos)



"É muito difícil escrever. Lembro-me de uma observação de Goethe que diz que nós somos seres coletivos. O escritor é aquele que fala pelos que não falam, que canta pelos que não cantam, que não têm até, num certo sentido, biografia pessoal. É muito difícil eu dizer isso porque desde a infância eu queria ser escritor. Se eu não escrevesse não me sentiria vivo, não me sentiria existindo. A única explicação que me ocorre é que eu escrevo para ser, para sentir que existo.
É aquela história: escrevo, logo existo. Uma resposta meio cartesiana".
Lêdo Ivo

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jogo de Máscaras




Fantasiar deveria ser seu sobrenome. Era tão adepta aos devaneios que perdia a noção de realidade. Um fato que sempre esteve nublado na memória, assim como tantos outros. Memória seletiva. Um artifício. Mais uma vez selecionou um que recordava como criação, porém, depois de
tantos anos já não conseguia discernir se havia realmente acontecido ou era mais uma fantasia.


O desejo permeava a sua mente, pensamentos masculinos maculados por publicações baratas. Mas aquele momento era diferente. Diferente das páginas de revistas, diferente dos filmes baratos e assistidos escondidos. Era forte e profundo, determinado pelo impulso e um desejo que se mascarava sobre a forma de sentimento. Sentimento esse que não conseguia interpretar, mas que pulsava com a força do sexo.


A sala ampla, chão em tacos de madeira, sozinhos, na casa dele! Crianças, brincando com corpos. Descobrindo os sentidos. A cena ainda hoje a perseguia, deitados lado a lado, quando de repente com uma agilidade espantosa ele cobria seu corpo com o dele, pernas entrelaçadas, o peso do corpo. Engraçado como certos detalhes totalmente irrelevantes determinavam o contexto, como a luminosidade do lugar, as cortinas, o perigo de serem flagrados. Não temia a novidade, ansiava por ela, o que a assustava era a urgência do que estava sentindo. A beira de romper, uma represa. Crescente. Não poderia suportar por muito mais tempo. A falta da frieza racional do controle, isso a assustava.


Era a primeira vez. Havia calculado friamente como abordaria a garota nesse momento, quais seriam suas ações até já havia previsto a reação dela. Mas a vida ensina que tudo sempre é diferente. Os corpos não respeitavam as vontades do cérebro, simplesmente agiam, mãos escorregavam pela pele e o encontro das bocas tinha outro sabor. Momento único de perigo iminente. As máscaras por trás do relacionamento social, da vivência dos amigos, da aparência inocente perante os famíliares estava prestes a cair, rápido e confuso. Era estranho recordar
depois de tanto tempo.


Um namorico adolescente de portão, de banco de praça. O via passar da janela do seu quarto, essas casas antigas, onde as janelas davam direto para rua e essa janela para uma pequena praça,
quase sempre deserta. O ar de menino perdido em contraste com a arrogancia da determinação. Esses traços ainda hoje determinavam certos padrões.


O flash de sua visão passando ao longe pela janela lhe trouxe de volta ao à realidade. A máscara retorna ao seu lugar e ela retorna à inocência, o sentimento misto do proibido e do prazer cede lugar, provavelmente à vergonha e ao compromisso de inocência. Ela corre, foge, não do sentimento, ou do prazer, mas do processo em si, da forma como estava acontecendo. Não era como sonhava, pesadelos de relacionamentos passados ainda a perseguiam. Talvez, se ele tivesse insistido, fosse logo ao ponto, se evitasse as preliminares, talvez tudo fosse diferente. Mas foi o momento em que as máscaras cederam para retornar logo em seguida.

Fugiu... simples assim, fugiu como ainda foge hoje à menor possibilidade de dor. E aquela era uma possibilidade. Talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez se ele tivesse insistido, ou talvez se tivesse deixado a janela aberta, talvez tivesse sofrido mais... um monte de talvezes sem fundamento. Doeu da mesma forma quando tudo terminou.


Um final sincero nas ações, mas sem verdade nos sentimentos. Final para garantir as aparências e mascarado sobre falsos pretextos. Um final alucinado de um relacionamento sem o gosto da maça. Amor de adolescente que se perpetua ao longo dos anos, que se estende pela rede em encontros virtuais. O sentimento, agora confuso, está nas pontas dos dedos, na textura fria do mouse e do teclado escondido atrás de novas máscaras, pixels, bytes, telas e redes sociais.


"Por que estou pensando nisso agora?" - levantou os olhos e
sorriu para o garoto que lhe estendia a folha do trabalho em sala. Isaque era o seu nome, assim mesmo com que. "Realmente é muito parecido com ele."
- Sabia que você é muito parecido com alguém que conheci? O garoto volta o olhar para a mulher à sua frente e imagina: -"Oba... Será que tenho chance com essa gata". Pensamento ousado, mas que reflete as semelhanças.


Fim.
Por Renato Fernandes / Catarina

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Máscaras e loucura.... um texto de Kalil Gibran

Lembrei-me deste texto Su e pensei em postá-lo aqui, sua proposta me lembrou muito esta passagem de Gibran. Só achei o vídeo em espanhol, abaixo uma tradução livre que já tinha aqui do texto em inglês.



O Louco ( Kalil Gibran) - tradução livre
Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei:
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende, este nos escraviza.

domingo, 3 de janeiro de 2010

LINGUAGEM-MASCARAS DO SER

As idéias não brotam do nada, elas fazem parte integrante da história do homem, de sua evolução, de suas conquista, de seus erros e acertos.
Um texto traduz a visão de mundo de quem o produziu, mas também traduz cisões de mundo de outros textos, da cultura em que está/estão inserido(s), da história da humanidade a que todos pertencemos. Sempre há um texto dentro de outro texto (ressonâncias, ecos, relações de oposição e/ou de semelhança, de conteúdo e/ou de estilo) - um texto e seus contextos.
Ler e produzir um texto significa ler e traduzir o que somos como indivíduo, na acepção particular e única de ser, e o que somos como indivíduo, no sentido do ser gregário, atávico, pertencente a um grupo social, a uma cultura, à humanidade.
Se entendermos linguagem como uma das máscaras do ser, também é correto afirmar que, por trás de todo texto, há um sujeito que se esconde, mesmo quando julga que está se expondo; cabe ao leitor, crítico, entender as razões pelas quais esse sujeito se declara ou se mascara. Ouça, aqui , como Clarice Lispector trata essa questão.

Dica de Leitura:
Mar de Palavras do livro “A eterna privação do zagueiro absoluto”
Luís Fernando Veríssimo.


PROPOSTA – DATA DA POSTAGEM 15/01/2010 

1- Crie uma história na qual as personagens assumam uma postura “declarada” frente à vida, ou seja, assumam suas idiossincrasias, suas dúvidas, seus fracassos, suas alegrias, enfim seu jeito de ser.

Ou pode optar pela proposta nº. 2

2- Crie uma história na qual as personagens assumam uma postura “mascarada” frente à vida, ou seja, escondam suas idiossincrasias, suas dúvidas, seus fracassos, suas alegrias , enfim seu jeito de ser.

Mas, você não está sozinho nessa empreitada, não. Enviarei o e-mail do (a) companheira (o) de trabalho e, juntos poderão desenvolver uma história de comum acordo quanto à proposta.


História pronta é só postar. DIVIRTAM-SE!!!!