sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Eu acho!

Eu acho.
Essa expressão é uma das poucas que eu evito usar. Evito pois abre parenteses para questionamentos, quantas vezes já ouvi "Você acha ou tem certeza?" Porém é uma expressão tão usada que escapa a qualquer momento, sem pensar muito, como simples complemento na frase. Eu prefiro "Penso que". Limita ao eu e mais ninguém.
Então me apropriei justamente do vídeo sugerido pela Su dia desses, Provocações do Antonio Abujamra com a Marcia Tiburi, quando ele discorre sobre seu temor por uma filósofa dizer "Eu Acho".


Sorriu um sorriso amarelo.
Falsear do salto.
Desconcerto do momento.
Talvez o esconder a mágoa.
Talvez camuflar a ira.
As palavras que ferem.
O orgulho.
A fé.
Confronto.
Conta ponto.
Invadida nas certezas.
Bombardeio sem trincheiras.
Ah se pudesse prever!
Ah se pudesse fugir.
Revidar não seria o conforto.
Ironia morada segura.
Na arte da filosofia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Questão de sina

Então Su, vamos lá. A notícia é esta:
Lucienne e Raymonde, consideradas as gêmeas idênticas mais velhas do mundo pelo Luvro Guinness de Recordes, posam em Saint-Georges-de-Didonne, próximo à cidade francesa de Bordeaux. Nascidas em Paris, elas celebram 98 anos nesta quinta-feira (23). Viúvas, elas moram juntas desde que se aposentaram. Mais aqui

Minha apropriação meio sem vergonha hehehe
Imagem de Freyasson

Deu no jornal: são gêmeas idênticas.


Em uma, o reflexo da face da outra.

Dia e noite confrontadas com a própria imagem

O tempo todo, em toda parte, por pura sina.

Eu, surpresa, especulo...

Sobre notícia tão especular

Que sina a delas.

Vejo-me na face de

tantas outras...

Dia e noite confrontada com outros

pedaços inteiros de mim.

Inteiros,  inteiramente diversos.

Por vezes, até adversos.

Será que, como Castor e Polux

Eu e meus eus , enlaçados por nós

Alternamos entre o Olimpo e o Hades?

Que sina a minha.

Entre a nossa e a delas

Qual a maior solidão?

Qual a mais sem companhia?

Isto nunca escrevem no jornal....

Imprensa inútil! Que sina a nossa.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

“O POETA SE APROPRIA”


Na tentativa de responder quem faz o quê, como, quando, onde e por quê, o repórter acaba construindo uma narrativa, que não é regida pelo imaginário, mas pelos dados do cotidiano, da realidade.
A narrativa com o intuito de criar um mundo ficcional, mesmo que se valha de dados do mundo real é privilégio da literatura.

LEIA,  aqui, “Poema Tirado de uma notícia de Jornal - Manuel Bandeira”. Trata-se de uma experiência de Manuel Bandeira em que o poeta se apropria da linguagem jornalística e do aproveitamento espacial de uma página de jornal para criar o seu poema.
Observe que os “elementos” do “lead”( que informa o leitor sobre quem fez o quê, como, quando, onde e por quê) estão presentes nele:

quem: João Gostoso, carregador de feira-livre, residente no morro da Babilônia;
o quê fez: bebe, cantou, dançou, depois suicidou-se;
como:  afogando-se;
quando:  numa noite qualquer;
onde: na Lagoa Rodrigo de Freitas;
por quê:  aí reside a genialidade do poema- como as causas não estão explícitas ,como convém a um texto de natureza jornalística em que os fatos devem ser narrados com objetividade, elas estão sugeridas no contexto (suicídio como saída de uma vida miserável).

DATA DA POSTAGEM- 27/09/2010

PROPOSTA


Como Bandeira, faça a sua experiência, crie um poema a partir de uma notícia de jornal. Para isso leve em conta os “elementos” do “lead” elencados acima.
E ,claro,toda a sua genialidade!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ressurreição (única poesia que fiz para alguém em toda minha vida)

Que me seja dado abrir-me em cruz


Para os teus pecados

Para os teus agrados....

Que caibam em mim teus gestos, teu açoite, teus suspiros...

Que eu sobreviva aos meus soluços

E desvende enfim os teus segredos guardados.

E que te dê o meu descanso...

Pois se puder escolher... quero morrer cansada em ti.

(inverno de 2007, para W.M)

Um mimo pra todos.

Como disse, tenho andado por outras paragens e pouco tenho aparecido. No entanto leio sempre que recebo anúncio de novas postagens o contéudo deste blog. Eu tenho adoração por poesia e nenhum talento para escrever em verso. Quando alguma poesia consigo, ela me chega sempre em prosa. Por isto tenho livros e mais livros de versos. Entre tantos escolhi postar aqui uma foto que foram tiradas em minha casa e me dada por uma amiga muito querida, uma carioca maravilhosa que conhecí na net: Simone Del Rio. Este livro fica em cima de uma mesinha de canto, sempre com uma flor ao lado. Chama-se "A linguagem do amor" e traz versos sobre todo tipo de amor ( porque "qualquer maneira de amor vale amar, vera"). As ilustrações são belíssimas e de quebra, ele vem numa caixinha e um cheiro da rosa tibetana se desprende de suas páginas por muito tempo. Espero seja possível ler o poema que escolhi ler neste dia, um sarau literário que fizemos em casa. Foi um poema feito para Oscar Wilde. Fica como um mimo para os poetas deste espaço. Bjs a todos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sob a luz da Musa


Não foi o Mistério:
Infalível suspiro
Diante do nada
Instante da morte.

E nem foi o Tempo:
Insolúvel problema
Antes de hoje
Depois ou começo.

Também não foi Ela:
Eterno remendo
Pra todas as carnes
Desejo do beijo.

Escrito de fato,
O que me fez vário
Nem foi o Medo
O Sonho ou o Silêncio:

Mas sim a Miopia e seus planos convexos imensos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Ferida


É preciso ter coragem
Para por o dedo na ferida
Tocar sua parte mais funda
A mais dolorida
É preciso mais
Saber enxergar, querida
Aonde bate o coração
Até onde vai a vida
O tênue fio da pulsação
E muito mais ainda
É preciso ter coragem
Para pensar e secar
Esta ferida
Inda que doa mais
Que a própria vida
Ainda que seja
Para dela extrair
O âmago, o suco
A coisa mais ardida
Que inflama por dentro
E, queimando no peito
Sangra, abre-se em flor
E, florida, brota do chão
Da pele, da voz,
Do grito e no olhar
Aberta
Ferida aberta
E, no entanto encoberta
Vergonha, êxtase noturno
Medo
Amor proibido

Santiago Ribeiro


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O MAR



A primeira vez que vi o mar
Achei que era água e espuma
Achei também que a espuma parecia algodão

Quando vi o mar de novo
Achei que as ondas eram soltas, fora do mar
(As ondas esperavam que o sal nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
O sol se misturou com as estrelas
E o espírito da vida à se mover sobre o meu olhar


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Toda ela Quero Dizer

Me alucina

Sua voz, a se pude-se ouvir sua voz

Pela primeira vez, ouvir com gosto de ver

Emitindo, transmitindo, reluzindo

Sua imagem, sua luz,

sua voz

A se pudesse, iria ...

Corre pela minha alma, vontade

De ver te assim, te ver assim e assim te ver

Simples, leve e poética.


Porém, não vou

Não vou mais, não posso.

A duras penas.

O relógio bate, os ponteiros giram.

Você fica, distante.

domingo, 22 de agosto de 2010

O texto poético

Poesia é a arte do verso.
Umberto Eco, diz que:
“Poesia é aquela coisa que muda de linha antes que a página tenha terminado”

Podemos pensar também na etimologia da palavra:
A palavra “põiesis” em grego estava ligada ao verbo “poiein”, cujo sentido originário era “fazer”. Dentro da experiência grega, qualquer modalidade do “fazer” pertencia ao âmbito da poesia. Assim, o próprio trabalho manual ficava no domínio do “fazer poético”
É somente a partir do pensamento de Platão que o conceito vai, sem adquirir ainda uma acepção especializada, aparecer mais claramente como atividade criadora em geral.
Em uma passagem do Banquete, Platão relaciona o conceito geral de poesia com o de música e composição métrica. Essa idéia estendeu-se até os tempos modernos. Depois muito mudou. E como mudou!!!!

Teresa
Manuel Bandeira
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


DATA DA POSTAGEM- 06/09/2010


PROPOSTA


Escreva um poema sobre algo ou alguém que você viu, e que deixou uma sensação especial, diferente de todas que já sentiu. O poema de Manuel Bandeira poderá servir de fonte de “inspiração”.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Encontros...


Toca o celular!
Alô. Podemos sim, à noite? Combinado!
No escritório. A amiga ri e explana:
- "Eita Luis", vive nas nuvens, ultimamente!
Tenho demonstrado isso Ana?
Sim...não somente demonstrado, além disso, tem transmitido uma energia boa.
Sabe Ana: há coisas inexplicáveis que nos vem de surpresa. Veja você...que com quase 60 anos eu jamais imaginaria um encontro desses. E eis que ela surgiu.
Veio assim: devagarinho, com palavras doces, um sorriso belo, um olhar profundo, brilhante, suave, enfim...
Somente ao conhecê-la, entenderás!
Porém, se por ventura, exigir uma definição, posso apropriar-me de uma frase que diz muito:
" A poesia não se entrega a quem a define" - Mario Quintana

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uma ópera


Eu poderia tecer longos comentários sobre sua figura, a começar pelo seu porte perfeito, músculos definidos e belos, andar altivo, passos firmes sobre a rua pedregosa. Depois, lentamente, me deleitar observando a textura da sua pele, ou ainda rir das suas mãos soltas a tremer de frio, naquela tarde de julho. Poderia falar sem nenhuma dificuldade do seu olhar límpido e sereno a transmitir uma infinita ternura, e do perfume que exalava de seus cabelos caídos sobre os ombros.
Da sua alegria ao escutar as maritacas naquele fim de tarde, ou ainda do seu sorriso largo ao olhar no céu o barrilete, que o menino alegremente empinava. Essas e outras tantas coisas poderia eu falar, mas nenhuma palavra, nenhum verso, nenhuma poesia seriam suficientes para descrever tua figura infinitamente amada. 
E se eu tivesse o dom da musica, tua figura serviria tão somente de ponto de partida. E se eu me dispusesse a cantar, tua figura seria uma ópera a preencher a minha vida.


 
 

sábado, 31 de julho de 2010

Libélula


Estive vendo sua foto hoje. Tão leve. Reparando em cada traço do seu rosto, contido. Elegante por natureza exibindo em si os traços longilíneos em contraste com uma certa rudeza pré-histórica. Silenciosamente o sorriso furtivo, monalísico estampou meu rosto ao imaginá-lo com asas, longas e transparentes em prisma sob o sol.
Asas assim te vejo, com asas. Livre de espírito, preso ao próprio destino. Voando baixo, libélulescamente rasando sobre mim, permanecendo por tão pouco tempo e num voo rápido me deixando espelhos d´agua. Renascido, tão perpétuo quanto o inseto. Atraído por espelhos d’agua satisfeito se vai tão veloz. Me deixando espelhos d’agua.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

E se me dispusesse ...

Quintana, Mário. A preguiça como método de trabalho. Rio de Janeiro, Globo, 1987.p.93-4.

 O retrato de Eurídice
Não sei por que há de a gente desenhar objetivamente as coisas: o galho daquela árvore exatamente na sua inclinação de 47 graus, o casaco daquele homem justamente com as ruguinhas que no momento apresenta, e o próprio retratado com todos os seus pés-de-galinha minuciosamente contadinhos... Para isso já existe a fotografia, com a qual jamais poderemos competir em matéria de objetividade.
Se tivesse o dom da pintura, eu seria um pintor lírico. Quero dizer, o modelo serviria tão-só de ponto de partida.
E se me dispusesse a pintar Eurídice, talvez viesse a surgir na tela um hastil, o arco tendido da lua, um antílope, uma flâmula ao vento, ou uma forma abstrata qualquer, injustificável a não ser pelo seu harmonioso ímpeto e, câmara lenta, pela graça da linha curva em movimento, porque Eurídice afinal é tudo isso... É tudo isso e outras coisas que só os anjos e os demônios saberão.


A proposta descritiva de Mário Quintana nos proporciona possibilidades sensoriais e imaginativas muito grandes. Observe que o poeta se propõe a utilizar imagens que não têm nenhuma relação direta com o objeto retratado, criando um processo de grande intensidade poética.


DATA DA POSTAGEM- 16/08/2010

PROPOSTAS

Com base no mesmo procedimento da proposta descritiva de Mário Quintana, que imagens você utilizaria para descrever:
    
1-uma mulher de formas suaves e equilibradas.

Ou pode optar

2-um homem de estrutura física bem proporcionada.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Quase exato!


Crio problemas.
Que são grandes problemões.
E pequenos problematicos
E minúsculos probleminhas
Crio problemas que são difíceis de serem resolvidos
E que são quase sempre resolvidos
E quase nunca solucionados
Eu crio quase problemas, quase soluções, quase respostas
Mas eu não crio o exato
Eu crio palavras que são opostas as exatas
E que são quase poesias
E quase contos
E quase romances
Eu crio na verdade, sim! Crio problemas!
Problemas entre as personagens que são quase conflitos
E os conflitos são quase intrigas
E as intrigas são quase desfechos
E os desfechos são quase
Quase incoerentes e quase coerentes
E esses problemas todos são quase poemas, ou quase contos, ou quase romances, ou quase....
Sem respostas...por que eu disse..que crio sim, somente:
Os problemas!!!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sueli cria quase medos que são quase


Sueli cria quase medos que são quase anseios que
São quase destemperos que são quase pesadelos
Num jogo de nervos

Que são quase medos
Quase anseios
Quase destemperos
Quase pesadelos

Que são esse jogo de nervos
Dos quadros da Sueli

 
Suuuelliiii criaaaa quase tremoresss queee sãoooo
(ecos libertadores)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sueli cria quase borboletas que são

Sueli cria quase borboletas que são quase vôos que
São quase asas que são quase sonhos

Num jogo de liberdade
Que são quase borboletas
Quase vôos
Quase asas
Quase sonhos

Que são esse jogo de liberdade
Dos quadros da Sueli

Suueeliii criaaa quaassee borboleettaas quuee sãooo...
(ecos da existência)

 
 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

EU CRIO ...QUE SÃO QUASE...



PROPOSTA

Escreva um poema, coloque título, seguindo a mesma linha de raciocínio do vídeo, ou seja,
Eu crio... que são quase...
(pode-se usar outra construção sem ser figuras geométricas)

Por exemplo: animais, paisagens,situações, dentre outras.
Eu crio borboletas que são quase....
Eu crio árvores que são quase...
Eu crio medos que são quase...


DATA DA POSTAGEM

15/07/2010


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um níquel para le misérable

Caiu! Pronto, lá se vai minha única moeda pelo bueiro da cidade. E agora? Sei não, se não tivesse tanta gente na rua até me abaixaria para pegar, afinal, quero comer e o restaurante é logo ali na esquina, mas e se eu fise-se, que mau teria? É logico, meu leitor, que irão pensar mal de mim, afinal não é digno de uma pessoa enfiar a mão dentro de um bueiro sujo, fedido, escuro para resgatar uma única brilhante moeda perdida, além do mais, são pouquíssimas as chances de reencontra-lá, mas, não deveria tentar? Não sei, essa duvida pode até parecer absurda para você leitor ou leitora, mas veja, ou leia, pelo seguinte ângulo, se vou adiante ninguém notara a minha existência e nem serei taxado de alguma coisa porém passo fome o resto do dia, e se me abaixo e por um acaso ache minha moeda, como, mas viro motivo de anedotas, o que não quero. Desisto, vou adiante. Fui, passado alguns momentos de mais extrema fome e arrependimento, encontrei para o meu deleite uma moeda perdida, provavelmente de algum envergonhado como eu, logo em frente.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ruas Melancólicas

Todas as cidades as tem em seus mais diversos bairros, e elas, tal qual raízes de amargura e rastros de angústia, se vão multiplicando com o passar dos anos e das gerações. São restos de morbidez, fragmentos amontoados de infelizes instantes, espaços abandonados pelos resquícios de alegria. As insistentes recordações soturnas parecem flutuar em cada palmo de seu chão pisado por saudades. Nelas, até os gatos afogueados e os vira-latas deslumbrados se deprimem e passam correndo com medo do espectro da solidão quase vislumbrado na atmosfera lúgubre. Porque ali respira-se supremo abandono e inusitada velhice evanescente.
Como sorrisos apagados pelas tristezas constantes, as ruas melancólicas nascem denotando flores e, tempos depois, de inexplicável maneira, morrem exalando ervas daninhas. E tudo que nessas ruas outrora fora risos despencou para lágrimas cansadas, olhares esmaecidos, rostos desfigurados pela dor do nada, da insignificância explícita. Os olhos de quem por lá mora, abatidos, escondem tormentos indizíveis, quiçá assombros desconhecidos e misteriosos e sombras amortecidas quando fluem os ocasos desfigurados. Seus dias são de extrema solidão, da qual até a brisa se esconde espavorida deixando a sequidão de um sol em brasa também entregue ao ostracismo; já as noites escurecem desiludidas, transformadas em chagas num corpo doente pelo esquecimento da própria vida.
Há meros sinais de pobres silhuetas desamparadas nas calçadas nuas das ruas melancólicas, vêem-se muros borrados aqui e ali, paredes descascadas se destacam amofinadas em muitas casas insossas, cidadãos riscados do cotidiano lembram estátuas indiferentes aos pombos fazendo sujeiras sobre suas cabeças envelhecidas, tudo é quase um oceano de impropriedades repentinas. A impressão que se tem quando por lá somos obrigados a passar levados pela imprevidência é de um inesperado caos perfeito delineado por incontáveis destemperanças flutuando e surpreendendo. O anseio, por conseguinte, é dali desaparecer o mais rápido possível, desatar as amarras invisíveis a prender-nos e oprimir-nos, voar se condições para tanto houvesse. Permanecer nesse cenário impróprio, ainda que por uns míseros segundos, não é idéia das mais agradáveis.
Quisera não houvesse tais desenganos nas cidades que se deixam abater pelas incongruências de seus habitantes e terminam fenecendo em áreas indefinidas, tornando-se melancólicas ao longo do tempo. Por que elas são forçadas a desaparecer ante o desprezo de seus próprios habitantes ou a indiferença das autoridades responsáveis pela dignidade das cidades? As ruas melancólicas evidenciam-se como grandes feridas logo anacrônicas que jamais saram. Quem nessas artérias vive vai gradualmente morrendo parecendo nunca ter vivido.
Crônica escrita por Santiago Ribeiro


domingo, 20 de junho de 2010

De posse do objeto


  
E lá estava ela novamente olhando a vitrina. Uma compulsão tomava conta de todo seu corpo, frio e calor misturavam-se alternadamente. Não conseguia compreender tamanho fascínio pelo objeto exposto. Comprá-lo tinha se tornado uma obsessão. Era apenas questão de semanas. Mas, às vezes, um pensamento surgia rapidamente e junto uma sensação de que deveria protelar um pouco mais, pensar melhor, já que não via utilidade alguma nessa compra. Não era uma pessoa dada a caprichos e indecisão também não fazia parte de sua personalidade. Por que, então, não entrava na loja e acabava logo com essa aflição? Medo? Olhava o objeto delicadamente arrumado sobre a maleta preta. O tamanho perfeito, a cor prata brilhante conspirava e fortalecia seu desejo. 
Nesse intervalo, no qual se permitia todos os dias, entre o caminho para o trabalho e a loja um mundo novo surgia. E, dia após dia ela se via de posse do objeto. Chegava à sua casa, tirava lentamente os sapatos, o casaco, a blusa, despia-se toda.
Livre deitada no chão duro, como numa relva, somente o silêncio como testemunha de seu corpo disforme.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

“Um rápido confronto entre conto e crônica”

A crônica é o relato de um flash, de um breve momento do cotidiano de uma ou mais personagens. O que diferencia a crônica do conto são o tempo, a apresentação da personagem e o desfecho.
No conto, as ações transcorrem num tempo maior: dias, meses, até anos, o que não se dá na crônica, que procura captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. No conto a personagem é mais analisada e/ou caracterizada, há maior densidade dramática e frequentemente um conflito resolvido em desfecho. Na crônica, geralmente não há desfecho, este fica para o leitor imaginar e tirar suas conclusões. Uma das finalidades da crônica é justamente apresentar o fato,nu, seco e rápido, mas não concluí-lo. A possível tese fica a meio-caminho, sugerida, insinuada, para que o leitor reflita e chegue a ela por seus próprios meios.
A título de exemplo: ─ você surpreende um garoto pobre tremendo de frio olhando fixamente um pulôver novinho na vitrina duma loja. Ora, isso dá uma excelente crônica. Você relataria o flash, a cena em si, mas não o desfecho: o menino comprou ou não o pulôver? Nada disso. Acabando de “pintar” o quadro, terminaria o texto, deixando ao leitor a tarefa de refletir sobre a miséria, a fome, a má distribuição de renda, a injustiça sócia etc. É essa, muitas vezes, a finalidade da crônica e a intenção do cronista. Seu texto não tem resolução, não tem moral como na fábula, é aberto para que cada leitor crie o final que melhor desejar. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor. A crônica, grosso modo, equivale à introdução dum texto dissertativo, sendo um meio-termo entre narração e dissertação.

DATA DA POSTAGEM- 22/06/2010

PROPOSTAS
1-Com base na cena “A”, redija uma crônica. Dê um título.

Ou pode optar pela proposta

2-Com base na cena “B”, redija uma crônica. Dê um título.



CENA "A"


CENA "B"

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ex-marquesa de Rabicó

A inocência está presa
Presa em roda do arame
A maldade prendeu
Ela, e quem a ela prendeu

Suas roupas já não são mais suas
Muito menos sua força
A inocência, xi
Está gritando, esta rouca
Louca, ex-marquesa de Rabicó

Presa no arame farpado
No fundo sépia de uma sala escura
As flechadas e o pau tacado
Afugentara-a
A inocência se foi