
Toc toc toc. Sobressaltou, morava ali há alguns meses e até então não havia percebido que morava alguém no andar de cima, devia ter se mudado no final de semana, enquanto ele viajava.
Toc toc
Eram saltos, com toda a certeza eram saltos. Era ágil, provavelmente uma jovem. Mais dois passos estaria exatamente sobre sua cabeça.
Afastou o pensamento e tentou se concentrar no texto que estava ditando ao computador.
“ Certamente…" - toc toc….
O texto se perdeu novamente entre os sons dos passos que ela provocava sob sua cabeça. Levantou-se, pegou o controle remoto, o noticiário. Mais uma vez os passos o desconcentraram.
Perdido em seu devaneiro, uma projeção. Talvez se subisse ao segundo andar e se apresentesse, talvez ela não se importasse. Era nova no prédio, talvez não tivesse companhia, só ouvia um tipo de passo no apartamento, o que indicava que viva sozinha. E assim divagando ouviu o “Bam” da porta. Estava saindo, suspirou arrancado de sua fantasia, resolveu terminar o texto que os passos haviam arrastado para outro lugar.
A batida da porta e os passos. Ansiou pelos passos o dia todo. “São exatamente dezenove hora e doze minutos” – Ela é pontual. – Se pegou analisando os movimentos dela, horas que chegava, para onde ia dentro da casa. Baseado nos movimentos criava o cotidiano dela, e no cotidiano dela passou a viver seu contidiano.
“Vou” – mas o que dizer? - E toda a coragem aos poucos foi se perdendo, se pegou mais uma vez sonhando, em convidá-la para beber algo, conversar, ter mais alguém. Mas e se ela somente aceitasse por pena, não suportaria tal idéia. Desistiu.
“São exatamente dezenove horas e quinze minutos” – Sentou-se e aguardou, cada minuto um suplicio, até que ouviu a batida da porta. Cinco passos e estava sob sua cabeça, caminhou mais um pouco, e outro som, música, sorriu, hoje ela tinha outro ânimo. Surpreso, percebeu outro som, sua voz acompanhando a música, algo mudara dentro dele, algo foi arrancado, a tranquilidade. “Entre por essa porta agora….. Você tem meia hora para mudar a minha vida...” – Doce, era isso, era doce.
Perdido em seus pensamentos ouviu a batida da porta. Um desespero tomou conta, era uma oportunidade, oportunidades não aparecem duas vezes para a mesma pessoa. Sentiu seus pés fincarem ao chão enquanto o tempo passava e sua covardia o prendia ali. Suava frio, tentando espantar o medo da rejeição pegou sua guia, correu até o elevador. Chegou no exato momento em que esse chega ao seu andar.
Aguardou a porta se abrir, o cheiro que saia dele entrava por suas narinas e o congelava por dentro. Num movimento rápido automático ela tocou no seu braço.
- Precisa de ajuda?
Esboçou um sorriso tentando disfarçar o medo.
-Não obrigado.
Hoje ela tinha cheiro, voz e toque. “Você tem meia hora para mudar a minha vida”, essa frase martelava sua cabeça.
Timidamente … quase inaldível, esboçou o seu desejo, cantarolou:
“Voce tem meia hora para mudar a minha vida.”
Kátia: A tensão e a intensidade com que os fatos são narrados parecem-me os responsáveis pela criação de uma “brecha” (o leitor percebe que não foi convidado apenas para ler um relato, mas que está sendo conduzido a um “lugar” (que pode ser onde suas crenças e valores são aferidos (talvez)); está, enfim, sendo convidado a usar sua inteligência e sua sensibilidade para refletir sobre a condição humana. Ver no conto: Precisa de ajuda...
ResponderExcluirE, ainda que a construção da personagem nos dois contos se dê de uma maneira “velada”, sua presença, forte, é determinante na narrativa.
Belo. Belo... (em qual personagem se inspirou?) (rs).
Su e Kátia. Queria ter postado até a meia noite meu novo texto. Mas acabei de fazê-lo, numa sentada de umas duas horas e não consigo reler agora, estou mesmo exausta. Amanhã irei reler, ler o da Kátia com calma e postar, ok? Beijos meus, Veroca
ResponderExcluirÔ Veroca,minha querida,fica tranquilaaaaaaaa.Descanse.
ResponderExcluirbjus- sú
Adivinha.... rs. Gabriel Garcia Marquez, Em agosto nos encontramos, o personagem masculino não se manifesta mas criei para mim um perfil que se assemelha a esse.
ResponderExcluirMaravilha!Não conheço esse dele,"li rapidamente" uma matéria que o lançamento,com o título provisório, "En Agosto nos Vemos", seria em 2008. Agora,fiquei interessada!!! Toc..Toc
ResponderExcluirSu... nao sei bem por que mas noto que é uma caracteristica da minha escrita, essa construção meio obtusa do personagem. As vezes tento fugir disso mas, sabe quando está impregnado?
ResponderExcluirLembra O Jornal (está me devendo kkk) então nele também fico bem nitido isso. Ainda não consigo relê-lo. Mas quando conseguir vou prestar a atençao a isso. A intensidade e força. Queria conseguir ser mais descontraida nisso.
Talvez pelo tema. Sabe que fiquei bastante focada no Abrazos Rotos do Almodovar, acho que porque o tema surgiu na epoca que eu vi o filme.
É uma maneira de construir, mas não tem que "fugir" disso não. É muito bom!
ResponderExcluirDerrepente quando menos "se espera" e "sem saber como" ocorre uma mudança na forma como escrevemos, penso que é o "treino" o "burilar" e por aí...estamos sempre buscnado mesmo, não é?
É acho(rs) que prometi ler seu conto,(O Jornal) pura falta de tempo, viu!
Bom dia meninas. Kátia, reli agora, com calma, os dois textos. Gostei muito mais deste, sabia? Neste enxerguei melhor o interior do personagem que criou, seus medos, suas carências. Não saberia compará-lo com o anterior e saber se são muito diferentes, porque o anterior ficou mais com você, mais hermética foi a narrativa. E o mais interessante hehehe, embora seja um personagem masculino, ele é essencialmente feminino. Lembrou-me um verso de Adélia Prado ( não tenho aqui para conferir) mas um verso que, ao falar da mulher, diz " este ser ainda um pouco envergonhado". Como nós, muitas vezes, gostaria que a vizinha do salto o adivinhasse e em meia hora! Mas pensando aqui, um minuto é suficiente para mudar toda nossa vida. Em meia hora o mundo se refaz. Beijos pra ti Kátia, boa semaninha por aí.
ResponderExcluirDesculpe Veroca só agora vi o comentário... Também gostei mais do personagem assim um pouco mais frágil...
ResponderExcluirbjs