segunda-feira, 21 de maio de 2012

ELEMENTOS DE TEMPO E DE ESPAÇO



História, tempo, lugar.


Onde aconteceu? Quando aconteceu? As histórias geralmente apresentam características de tempo e lugar. O que acontece, acontece em algum (s) lugar (es) e durantes algum(s) momento(s). Ao contarmos, as situações se desenrolam em certas circunstâncias de espaço e de tempo: o onde e o quando da história. O modo de acontecer a ação, a representação da personagem, bem como a caracterização do espaço em que se passam as situações, são importantes dimensões descritivas dentro do contexto narrativo. Em alguns casos,, o lugar é imprescindível para a construção da hitória. Por exemplo, nos romances regionalistas. O mesmo ocorre com o tempo;por exemplo, nos romances histórico. Ou as narrativas de introspecção, de sondagem intimista, que contam o mundo interior das personagens. O chamado tempo psicológico, tempo da duração interior dos acontecimentos. Essa temporalidade interior da duração-vivência se diferencia do tempo cronológico, como sabemos, o tempo da natureza, que é marcado pelos relógios- manhã-tarde- noite etc. A diferença entre o tempo cronológico e o psicológico pode ser observada com muita clareza em nossa vida cotidiana quando sentimos que certos momentos se passam com maior ou menor velocidade. Há também o espaço psicológico, o espaço interior, os inumeráveis lugares de nossa vivência, dentro de nós. Assim também as nossas personagens; elas vivenciam um universo subjetivo, que pode ser expresso nas histórias – um mundo interior que contém muitos espaços interiores e muitas durações interiores.
Serenata sintética
Cassiano Ricardo
  Lua morta
  Rua torta
  Tua porta

Insólito aconteceres
Sueli Aduan
Era só uma porta, porém, fechada. Não fosse o esquecimento do número, exatidão de mundo a mim distante, e uma pequena movimentação nos corredores eu diria que minha figura ali era no mínimo risível. A angústia que seguiu à abertura da porta, ainda que rápida, povoaram minha mente de recordações da infância, e eu relembrei meu pai sempre sentado em muros, muretas, corredores; minha mãe sempre a gritar com o cachorro que, porta aberta, adentrava em busca de um afago, um carinho. Sempre as portas. Sempre essa busca. Seres frágeis que somos sedentos de beijos úmidos, palavra e poesia, sussurros noite adentro. Esse insólito do viver.


Observe a diferença de duração temporal nestes dois textos. No primeiro, o sentimento de abandono, a solidão, a saudade eternizam o andar pela madrugada, sob uma lua morta. No segundo há uma aceleração do tempo, um ritmo de ações que se sucedem tão rapidamente quanto a imagem pressentida por detrás daquela porta... Devaneios, interioridade.

PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM  05/06
Crie uma história a partir de uma das seguintes frases de Carlos Drummond de Andrade
• Perdi o bonde e a esperança, volto pálido para casa;
• No elevador penso na roça; na roça penso no elevador;
• Meu coração vai molemente dentro do táxi.

quinta-feira, 17 de maio de 2012


DO TOQUE AO REAL

O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão.
 Murilo Rubião


Corpo ereto, cabelos cuidadosamente desarrumados, ar blasé, e vestida de vermelho ela descia as escadas lentamente. Além de  um sorriso estampado na face como se mil sóis nela habitassem.  Equilibrava-se no salto da sandália preta  e nem  ousava segurar no corremão. O esmalte ainda úmido podia borrar. E se tinha uma coisa que ela não admitia era mulher descuidada. Costumava dizer que era natural esse cuidado todo. Ato corriqueiro, quase automático. Não gostava de chamar atenção, e, quanto aos elogios que recebia: — bela, deslumbrante, magnífica. Apenas sorria.  


Mas se deixava levar toda orgulhosa.  Puro delírio. E era compreensiva, dessa compreensão  exacerbada, irreal. Sabia que nem toda mulher podia se dar a esses pequenos luxos, e na sua imensa delicadeza segredava à amigas seletas: — entendo perfeitamente, é uma questão de tempo. E se tinha uma coisa que ela não abria mão era da sua liberdade. Levantava cedo só para ter o prazer de ler o jornal, das notícias que aconteciam do outro lado do mundo. Um cachorrinho perdido, uma mata destruída....tudo lhe interessava. Botânica, gastronomia, moda, filosofia, literatura, cinema...

E naquela noite, como em tantas outras, descia lentamente as escadas mais bela que nunca. Pronta para mais uma deliciosa festa noite adentro. Era tudo que queria ,que precisava. Viver, dançar, sorrir.  Ser. E num gesto tresloucado, inesperado seus dedos tocaram com força o corremão. Com o esmalte todo borrado um olhar vago, distante, úmido e as mãos trêmulas, acordou.
O dia amanhecia lá fora. Era preciso correr.




quarta-feira, 16 de maio de 2012

Renovações

Acordou cedo, olhou-se no espelho, atentou-se para os cabelos loiros, cacheados, longos, olhou para seu rosto, a pele alva e sardenta, pequenas linhas de expressão ( não deveria ter sido tão relapsa com o protetor solar, pensou).
Mas apesar de tudo, achou que estava bem apesar dos 42 anos e dois filhos, era magra e alta, uma mulher atraente, de porte clássico, tinha uma vida abastada.
Pensou na vida que levava, no seu dia a dia... cuidava na casa, filhos longe, na faculdade, marido trabalhava muito, quase não ficava com ela, estava vazia, tantos planos deixou para cuidar da família!
Não se arrependia, mas agora queria algo mais para preencher seu tempo, sentir-se viva, fazer algo para ela... mas o que seria?
Criou coragem, ligou para o cabelereiro, cortou-os bem curtos e pintou-os de preto, saiu do salão e matriculou-se em um curso superior, finalmente seria advogada! bastaria a dedicação para o vestibular.
Comprou roupas novas e de um estilo totalmente adverso do que costumava usar... chega de ser básica, cara lavada, sem cor!! quero colorir minha vida enquanto há tempo, realizar meus sonhos, tornar-me útil para mim mesma, foi assim matutando para a casa.
Contou para o marido, que apesar do espanto, aprovou as mudanças.
Á noite, antes de dormir, olhou-se no espelho novamente e viu uma outra mulher... a mesma pele alva e sardenta, mas as linhas haviam suavizado, o olhar brilhava mais, havia vida naqueles olhos claros agora, havia esperança de renovação, não só da aparência, mas também do espírito, da alma.
Na manhã seguinte foi à livraria comprar material para iniciar os estudos.

Carina.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Mariama.
















Mariama. 

1“O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão”. Tudo em sua volta cheirava um pouco de alecrim do mato com alfazema, perto dela as coisas adquiriam um colorido fascinante e poder-se-ia, sentir o frescor da gruta, onde nascia a água pura e cristalina, que seguia sinuosamente por varas abertas de bambu até a porta da cozinha da casa. Sua voz suave e terna fazia lembrar cantigas para ninar crianças. Vinha dela um magnetismo, que nos envolvia e seduzia.

Assim era Mariama, uma linda mulher que morava naquele casarão branco avarandado de dois pavimentos, que se destacava naquela estrada poeirenta, que se ligava a estrada férrea para a capital. Poder-se-ia ver uma longa escada de madeira, que terminava no fim da varanda, em seu corrimão pendentes vasos a enfeita-lo, todos com suas flores silvestres que inspiravam uma tela de pintor com a figura de Mariama debruçada na varanda, com sua longa cabeleira caída sobre os ombros que balançava com o vento de Maio, tudo aquilo nos envolvia com graça e emoção.

 Com sua voz inimitável estava sempre a cantarolar canções românticas, que falavam de amores perdidos e desilusões amorosas, o que contradizia com seu semblante leve e alegre com aqueles olhos negros e brilhantes como as estrelas naquele lugar de noites estreladas.  Sabedora da admiração ela sempre esboçava um sorriso provocante aos passantes daquela estrada. Mariama era a figura fugida de uma tela de pintor renascentista.

Hoje quem passa pelo casarão ainda se vê uma fumaça, a escada sem flores, apenas uns gatos espreguiçadores pelas escadas e varanda. Por certo não mais verá Mariama, que numa manhã seguiu a estrada e num trem de ferro foi parar na capital, sem um olhar para trás, para que nada lhe fizesse recordar os olhares apaixonados que por ali ficaram.

·         1-Citação de Murilo Rubião em a Flor de vidro.

Toninho.
Texto para a proposta criar um personagem com base na citação de Murilo Rubião, idealizada por Sueli Aduan.
Grato sempre amiga Sueli por nos permitir exercitar por aqui.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

João da Ponte.
















João da Ponte.


“Era um homem alto, magro, sempre vestido com cores escuras,
Andava meio de lado. Tocava as coisas lentamente. “

Parecia carregar seus mortos e ou decepções do passado, este mulato curtido pelo sol, de mãos enormes povoadas por calosidade adquirida no serviço da lavoura. Conhecido como o João da Ponte, referencia ao lugarejo onde nascera naqueles anos que antecederam a ditadura Vargas. Assim vivia pelas ruas de pedras, daquela pequena cidade de Minas Gerais, este homem de maneiras delicadas, sempre com um sorriso amigável, que fazia questão de tocar as mãos das pessoas com uma expressão facial de menino inocente.

Naquele tempo, nas igrejas católicas ligadas à Arquidiocese Mariana, proibia-se mulheres de adentrarem nas igrejas com blusas sem mangas ou muito decotadas. Para tal um homem era designado para a tarefa, ficava na porta da igreja como sentinela, foi então, que o João pela sua delicadeza e cordialidade fora designado e era o responsável nas missas dominicais das 8 horas, que tinha maior numero de mulheres e crianças. 

Algumas mulheres que vestiam roupas sem mangas, quando chegavam à porta da igreja, se valiam de um véu negro ou um xale que colocavam sobre o tórax, fazendo cobrir as parte nuas e assim burlavam a restrição. Ocorre que João não aceitava esta situação e num belo domingo, ele impediu a mulher do prefeito e fez-se um maior “fuzuê” na porta da igreja, que só fora desfeito com a presença do delegado, do bispo e do juiz de paz, que estavam na igreja. 

Depois deste episodio, o que se sabe deste fiel cumpridor das ordens do padre, que permanecera triste e “acabrunhado,” assim desapareceu da cidade e nunca mais se teve noticias dele. Alguns andaram dizendo em porta de boteco, que contrariado ele se mudara para o Vale do Jequitinhonha e morava na cidade de Mucuri, e que agora era um “obreiro” de uma igreja evangélica que estava em processo de instalação. 

Toninho.
10/05/2012.

Fuzuê: confusão, algazarra, baderna, celeuma.
Xale: vestuário feminino, adorno para os ombros, manta feita de seda ou lã.
Acabrunhado: abatido, triste, envergonhado,
Obreiro: auxiliar de pastor.
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Aprender é minha profissão. Criticas me ajudam.
Fique a vontade. 
Obrigado Sueli pelo espaço e idéias de postagens.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

É PRECISO CRIAR... 


Caracterização da Personagem


As personagens ,como sabemos, são elementos vitais de uma narrativa. Muitas vezes, a relação entre leitor e personagem constitui o principal motivador da leitura. É preciso criar a personagem de modo vivo, para permitir que o leitor a recrie em sua imaginação. As personagens são principais ou ajudantes, conforme o papel que desempenham no enredo, e podem ser apresentadas direta ou indiretamente.

Exemplo em que as características físicas e /ou psicológicas são apresentadas de forma direta:
Frederico Paciência era aquela solaridade escandalosa. Trazia nos olhos grandes bem pretos, na boca larga, na musculatura quadrada da peitaria, em principal nas mãos enormes, uma, franqueza, uma saúde, uma ausência rija de segundas intenções. E aquela cabelaça pesada, quase azul, numa desordem crespa. Filho de português e de carioca. Não era beleza, era vitória. Ficava impossível a gente não querer bem ele, não concordar com o que ele falava.
Contos Novos- Mário de Andrade.

Exemplo de apresentação indireta: quando a personagem aparece aos poucos e o leitor vai construindo a sua imagem com o desenrolar do enredo, ou seja, a partir de suas ações.
 Entrou no elevador.
A um canto, outra mulher segurava firme debaixo do braço uma enorme bolsa de couro lilás.
— Que ousadia, uma bolsa lilás- sorriu ela.
—Acabei de dizer a um homem que o amo — respondeu a outra. — Então entrei numa loja e, entre todas, escolhi essa bolsa.
Eu precisava sentir nas mãos a minha audácia.
Não sorriu. Agarrou-se náufraga na alça.
Contos de amor rasgado Marina Colasanti

DATA DA POSTAGEM- 14/05

PROPOSTA

Escolha uma das duas propostas abaixo e, a partir da caracterização da personagem, crie uma história que ela protagonize.


Era um homem alto, magro, sempre vestido com cores escuras. Andava meio de lado. Tocava as coisas lentamente.

O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão.
(Murilo Rubião)


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Diante do Mundo:Ser.


Preciso de Grotowsky
doçura e clareza de ideias.
Diante da questão:
O que busco?
Descobrir (me)
Ser

Preciso de outros
Muitos outros

Preciso de Pessoa
na minha pessoa
Diante da porta:
Qual a chave?
Abrir (me)
Ser

Preciso de Vivaldi
Intensidade, peso, alegria
Diante do mundo:
Qual a pergunta?
Viver (me)
Ser.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Poesia das palavras














Poesia das palavras

Em meio às palavras me faço sonhador,
Garimpo preciosidades em rio corrente
Lapidar letras das palavras um inventor,
E surgem como perolas em joia reluzente.

Ah, fonte inesgotável geradora de emoções.
Não me privo destas maravilhas da vida,
Alimento precioso de minhas inspirações,
Constante criar e recria-las em minha lida.

Lanço-me nos mistérios dos meus sonhos
Cristalizo as lagrimas dos justos e inocentes.
E os vejo renascer nas manhãs todos risonhos,
Meu coração rítmiza tum-tum suavemente.

Creditam-se nelas as dores como fingimento,
Mas como negar-lhes a inspiração emotiva,
Ao embalar o encanto em folhas de lamentos,
E na sua poesia a fantasia reina imperativa.

Palavras que recriam amor em bela poesia.
Que se encharcam perante a perda inevitável.
Sem sentimentos são órfãs de toda etimologia
Assim vivemos com elas a magia inegável.

Toninho.

Imagem do Google.

domingo, 15 de abril de 2012

Caminhos

No meio do caminho havia a dor, a desilusão...
E agora José? a festa acabou, a luz apagou
A noite parece que realmente chegou!
Noite escura essa, José, fria e tenebrosa,
Até a lua está nervosa
E agora José? tanta coisa no meio do caminho,
Doi feito dor de espinho;
Mas não se esqueça de uma coisa, no fim do caminho, José
Há de amanhecer, tenha fé
O Sol virá e será lindo, claro e tudo ficará bem...
E realmente o sol veio... e agora José, acredita em mim?
Lembre-se de que no meio do caminho existe a esperança
Tudo passa José, basta acreditar, nunca levar para a noite, sua criança
Ela vive em seu coração, sabe aquela fé de menino, que acredita em papai noel?
Pois então José, leve-a sempre consigo, a noite acaba, vai para o beleléu...
E agora José: no meio do caminho há o que?
Tudo depende de você!

Carina.

terça-feira, 3 de abril de 2012

As atitudes poéticas

Segundo Ezra Pound , AQUI , a linguagem se carrega de significados principalmente de três maneiras:

● Induzindo correlações emocionais pelo som e pelo ritmo
●Trazendo um objeto para a imaginação visual
●Produzindo associações emocionais e intelectuais

Esses procedimentos não são usados separadamente. Todos eles contribuem para a significação do poema.
O poete é um inventor que usa palavras.


Compreendi [...]que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”
(Manuel Bandeira, ‘Itinerário de Pasárgada’, in ─ ,Poesia completa e prosa, p.40.


DATA DA POSTAGEM- 18/04

PROPOSTA

Escreva um poema de sua autoria.


E como fonte de “inspiração” dois belos poemas de Drummond: AQUI


segunda-feira, 26 de março de 2012

O Poder das palavras.













O poder das Palavras.


Palavras que calam no fundo da alma
Palavras que causam infinitas alegrias.
Palavras que nos levam ao mundo de fantasias.
Não são apenas palavras, são caricias e solidariedade de amor.

Palavras amorosas que não se condicionam a nada além da vontade de recriar no outro a divina transformação, no instante em que parece que o mundo lhe cai sobre a cabeça, arrastando para um abismo todas suas esperanças. Palavras que salvam vidas, que embelezam o feio e dá sabor ao indegustavel. Palavras que alegram o triste e que acariciam e abranda os mais rudes dos seres.

Palavras que saltam de bocas malditas, que se espalham como espinhos, são palavras flechas desorientadas e devastadoras que acertam alvos não mirados deixando um rastro de desamor e desunião. É preciso mesmo muita prudência para com o uso das palavras e assim não ferir a quem amamos e queremos sempre bem.

Poder-se-ia dizer, que nossa vida ganha nova dimensão, quando passamos a conhecer e administrar as palavras e delas retirarmos a essência, para expressar todos nossos sentimentos e assim recriar novas e belas emoções, naqueles que nos cercam e que nos fazem melhores e mais felizes.

Assim como nos encantam, são as palavras ferramentas perigosas verdadeiras armas devastadoras. Pois que então cuidemos das palavras, para que elas não sejam grades, para que não sejam uma especie de substancia corrosiva, que aos poucos vai corroendo toda uma relação, até se romper de vez.

Concluimos, que seja primordial,  repassar aos que se iniciam, a ter o melhor critério no uso desta fantástica ferramenta, por um mundo mais comunicativo a serviço da paz e da preservação do meio em que vivemos e sonhamos.

Toninho.




Grato Sueli pela abertura deste espaço, para que possamos
expor sentimentos nesta troca de ideias e sentimentos.

De bem com a vida

 Há quem diga que não mede as palavras. Mas os que assim agem, ainda que pareça contraditório, são pessoas de bem com a vida. Falam isso é por pura ironia. No seu íntimo mora a convicção de que não há uma medida, mas nem por isso uma desmedida. E, também, por saber de antemão que cada momento exige de nós uma determinada palavra. Vai daí que é preciso tato. Não se pode usar a mesma medida para tudo e todos, pois se corre o risco de ser indelicado, inconveniente.  Portanto, é preciso medir. Mas nunca, nunca mentir ou pelo menos tentar, já que a palavra nasceu para ser livre. Somos ou deveríamos ser exigentes com o uso que fazemos dela. Essa joia rara que tanto pode enaltecer quanto denegrir.

Há um vínculo entre ser e dizer. Um não existe sem o outro.  Porém, há os que dizem que no mundo das palavras tudo é sem medida, imensurável, relativo. Esses, creio eu, são aqueles das certezas feitas às pressas totalmente sem medida, descabível. É justo, justíssimo que se deve medir o tempo todo qual palavra cabe aqui ou ali. Mas não por sua extensão ou número de sílabas ou sonoridade. Ainda que o som de cada uma delas seja música aos nossos ouvidos. Amantes das palavras que somos. Mas porque as pessoas as quais nos dirigimos são diferentes. E há pessoas que gostam das palavras largas, infinitas, que provocam grandes reflexões, mas também há as que gostam das pequenas, rasas, corriqueiras, que permitem que a vida siga seu curso lentamente. De um jeito ou de outro, todas as palavras têm o poder transformador, quando permitimos que adentrem no mais fundo do nosso ser.

sábado, 24 de março de 2012

Sonhar é impreciso


Quando Descartes assumiu sua busca por uma idéia clara e indubitável pôs-se a utilizar a dúvida enquanto método: se determinado pensamento gerasse dúvida, desconsiderá-lo-ia e passaria a examinar outra idéia, a fim de encontrar uma verdade. Passou sob análise as idéias originadas pelos sentidos, pela matemática e colocou em xeque – o que nos cabe por ora – o próprio estado de vigília.

Alguns sonhos têm a capacidade de despertar sensações tão próximas àquelas que sentimos quando estamos acordados que o filósofo percebeu que poderia duvidar do fato de estar, naquele momento, pensando sobre isso ou sonhando que pensava.

Evitando digressões, interessa-nos o resultado desse caminho percorrido por Descartes, que culminaria na célebre frase “penso, logo existo”. Enquanto duvidava dos dados acima citados, percebeu que não poderia recusar o fato de que estava duvidando. Ora, se estava duvidando, pensava. Se pensava, era necessário que existisse. Dessa forma, o filósofo coloca a razão como fundadora da existência do homem, seguindo uma trilha racionalista que teria inúmeras conseqüências na história.

A partir do momento em que Descartes assume essa premissa todas as formas não racionais são postas à margem. Enquanto a ciência e o pensamento lógico ganham vitalidade no pensamento desse filósofo, o sonho adquire uma negatividade em seu seio. Assim como a loucura, o sonho ficaria restrito à esfera de um pensamento inferior. A técnica, no sentido filosófico desta, será o princípio para a filosofia e para a conduta humana.

Na contramão dessa corrente racionalista, o Surrealismo irá pleitear o lugar do sonho na janela da arte. Breton e seus companheiros dirão que ele dá voz ao inconsciente, também renegado pelas posturas técnico-científicas em voga posteriores a Descartes. As pinturas dessa vanguarda artística tentarão, portanto, retomar essa faculdade humana antes esquecida.

Diante desse quadro, fica clara a impossibilidade de separar as dimensões da existência e do sonho. Uma vez que a dinâmica do sonho amplia a significação do vivido, o próprio ato de existir torna-se inseparável da condensação e deslocamento de imagens provenientes do sonho – termos estes utilizados por Freud. Com essa afirmação, queremos assumir a postura de que a própria existência está marcada pela fluidez das imagens, pela dilatação do tempo e pela narrativa própria do onírico.

O que acontece, na presente sociedade pragmática, é o esquecimento intencional dessa dimensão fantástica. Imerso num cotidiano de obrigações e deveres, o homem está impedido de ir além de seu tempo e da realidade imediata, por conta das imposições de ordem econômica e sociais: o sonho passa sempre pela vistas dele como uma distração. Sendo assim, a exclusão do sonho é a recusa de um espaço de liberdade. Restrito a um contexto de produtividade, o sonho nada acrescenta à sua existência.

O que se espera, diante desse texto, é a consideração de que esse processo é ideológico e castrador da vitalidade do humano. O espaço desse blog serve, portanto, para dar voz e volume ao sonho como forma de libertação do homem: a arte como conquista de uma super-realidade que não deixe nenhuma das particularidades do homem escorrer por entre seus dedos.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Ser feliz

Propuseram-me a falar sobre o poder das palavras...pois bem, pensei, mas que elas ferem, elevam, encantam e aterrorizam, eu já sei e ficaria clichê demais ficar nisso.
Presto-me então, com humildade de aspirante á escritora falar sobre uma só, mote maior da nossa vida: Felicidade.
Aristóteles dizia que ela está em ser virtuoso, que as virtudes são essenciais e que cada pessoa tem a sua e encontra sua felicidade, lindo não?
Bem, nem há como discordar disso, pois se formos realmente atentos às pequenas coisas do nosso dia, encontraremos-na em coisas de simplicidade extrema, como em um copo de água quando estamos com sede, em uma flor que o amado nos traz, no prazer de um banho relaxante depois de um dia difícil, enfim, poderemos ver que não é tão difícil ser feliz, apesar de tudo e todos que enfrentamos em nossos dias.
Não me refiro a contentar-se com pouco, deixar de lutar por uma vida melhor, mais confortável, mas sim aproveitar o momento, não deixar pequenas oportunidades de alegria passarem em branco.
Basta um olhar atento, e na simplicidade do dia a dia encontraremos mais razões e forças para alcançarmos nossos mais elevados sonhos, e, se por acaso não se realizarem, ao menos teremos as coisas simples, um olhar mais amplo da vida, do mundo, das pessoas e isso nos tornará virtuosos, por consequencia...felizes, segundo o mestre.
A correria, a rotina nos tira essa visão ampla, bela, olhemos mais fundo, mais longe e quem sabe teremos ao menos paz, outra grande motriz de nossa vida.
Ser feliz é... bem, não sei, mas continuo a procurar nas simplicidades de meu coração ansioso e curioso, mas que fica feliz com um bom dia sorridente de um estranho na rua enquanto vai a um curso profissionalizante.

Carina.

domingo, 11 de março de 2012

Lau Siqueira - Nenhum homem é uma ilha...




A primeira vez que vi Lau, foi em um quadradinho no Facebook. O que me chamou a atenção foi a expressão que ele usou para descrever os tesouros que ele havia ganho durante a vida. A segunda coisa foi a foto que ele escolheu para representa-lo naquele momento: Carlitos. E a terceira foi sua gentileza para com as pessoas que faziam parte do seu grupo de amigos. Como quem não quer nada fui introduzindo minha mente e meu coração em sua página em seu grupo de amigos que passaram a serem os meus amigos. Com o tempo cortei o cordão e segui o meu rumo.

Às vezes eu acho que se balançar a cabeça eu irei conseguir tirar as lembranças como quem diz: “Isso não aconteceu”. Não que incomode, mas é tão triste a vida de um poeta. Talvez tenha sido por isso que, quando te vi na casa das rosas há um ano eu não fui até você e disse: “Olá, eu sou... Prazer em conhecer”. Talvez tenha sido por isso que quando quase no final do ano cruzei com você; eu saindo do metrô paraíso e você seguindo em direção a ele... Foi tudo muito rápido, mas deu tempo de olhar para seu rosto que passou bem próximo ao meu e depois seguir o seu corpo que parava no cruzamento esperando o semáforo abrir. Poderia ter seguido pegado em seu braço e dito: “Lau?” Mas não, não fiz isso. Algo dentro de mim dizia: “Não incomode os poetas”.

Alguns dias atrás como sempre fazia uma vez por semana procurei sua página no facebook e não achei. Perguntando para alguém próximo a ti, ela disse que você saiu do facebook. Droga! - Disse a mim. Onde agora iria ouvir a sua voz? Foi só isso que disseram: Saiu. Como assim? Como alguém tão gentil que nunca fez mal a uma mosca sai assim sem mais nem menos? Será que se despediu E por que não de mim? Fico matutando...

Quero que saiba que também sai. Não porque saíste. Mas porque aquilo lá me cansou até a medula. Cansei de lutar a ser mais uma a ficar postando florzinhas, coração e músicas e achar que sou o centro do universo. Algo do tipo: “Olhem pra mim”. E outra: Como viver sendo impossível dar a sua verdadeira opinião sobre um fato? Ao contrário de você eu sempre dizia: “Vão ver se eu estou lá na esquina”. Os poetas são diferentes. Grande descoberta a minha. Digo isso porque nunca consegui ser um “doce” é claro que não sou uma amargues, mas tenho uma queda por Henry Miller, Bukowski, Dorothy Parker e alguns outros. Quem conhece entende.

A última postagem que fiz em sua página foi sobre a minha rápida passagem por João Pessoa. Quando o ônibus parou naquela simples e agradável rodoviária me perguntei: “Quantas vezes o poeta ficou sentado naquele banco esperando seu ônibus?”. E depois quando o ônibus esquentou os motores eu fiquei com vontade de gritar para o motorista: “Não vá ainda, preciso descer, andar por essas ruas, preciso localizar um rancho, um lar no meio dessa estrada. Você sabe informar onde fica a Rua Duque de Caxias? Deus! Como é bonito tudo isso!”.

A cidade foi passando... A estrada foi passando... O tempo foi passando... Transformando-se numa grande extensão de terras planas, dourada e cintilante, tão lindo e fantasmagórico como só se vê em um sonho.

Agora estou em casa. Arrumo as minhas coisas e cada arrumação que faço penso: “Como é bom estar em casa” Passei por maus momentos durante uma semana e quatro dias. Mas agora... Bem, agora acordei na madrugada e comecei a pensar em tudo isso e antes que desaparecesse de minha mente resolvi levantar e escrever. Pela minha janela vejo entre as nuvens uma lua um tanto achatada, mais alguns dias e a terra esconderá o seu brilho. Enquanto isso, sou levada para uma noite passada há um mês e bem igual à que esta fazendo agora. Amanhece. Escuto Phillip Glass. Não sei escrever sem fundo musical. Em cima da mesa tenho o livro Texto Sentido e em minhas mãos um envelope; registrado urgente para Marcia Lailin.

MLailin