sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dona Coragem




Imagem Google








Viveu nos anos 60 na cidade de Itabira-MG Dona Geraldina, uma mulher destemida, que todos respeitavam ou tinham medo, embora sem registros de atos de violência. Sempre pronta para servir e não media esforços para fazer o bem. Pelas ruas sempre com um pedaço de pau para lhe dar apoio, devido a um acidente. Com aquele pau a escorar e aquele saco de aniagem sempre ás costas, era para as crianças uma figura dos contos de terror. 

Na cidade tinha uma rua com algumas casas de tábuas, que se dizia assombrada nas noites da quaresma. Numa destas casas, mas precisamente a da esquina morava Julião, famoso personagem de brigas noturnas em casas de prostituição e campo de futebol. Aquele sim era conhecido como galo de briga e merecia cuidados especiais, diziam até que ele tinha uma morte nas costas, de quando vivia lá pelas bandas do Vale do Jequitinhonha. 

Numa noite de sábado Geraldina voltava de suas andanças já tarde da noite, quando passando pela rua ouviu gritos de mulher vindo da casa de Julião. Não pensou duas vezes e se dirigiu para a porta e bateu fortemente com aquele pau. Julião a abriu bruscamente. Ela viu a mulher de Julião com sangue pelo rosto e num impulso, ela se atirou sobre o caboclo e os dois encenaram uma briga que ficou na historia da cidade, pois todos os vizinhos, que até então, estavam calados diante dos gritos da mulher, saíram para a rua e não acreditavam, no que viam daquela mulher, que batia no Julião sem medo de sua fama, tanto que ele caiu desacordado numa moita de espada de São Jorge. Então ela balançou e ajeitou sua longa saia seguiu rua a baixo, como se nada tivesse acontecido. 

Pela rua só se ouvia os cochichos enaltecendo sua coragem. O que se sabe, é que Julião nunca mais bateu em sua mulher, nem nos filhos e que estava sob os olhos do delegado da cidade.

Toninho.
24/02/2012.

Com este conto denuncio a odiosa onda de violência contra a mulher em numero crescente em Minas Gerais.

“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo”. Miguel de Cervantes

Sendo-se

Eu sou o que sou e é isso que sou! Lembro dessa frase ao final do desenho do Popye, e realmente, ser-se hoje em dia é um dos maiores atos de coragem que podemos ter, a sociedade nos cobra tanto...comportamento, roupas, peso, metas, enfim, é muito complicado ser-se, ter a alma livre, se amar do jeito que é e amar os outros do jeito que são, simplesmente amar.
Coragem é andar do jeito que se sente melhor, usando bom senso é claro, mas não ser vítima da moda e modismos, é ter uns quilos a mais e continuar sendo feliz, dizer a uma pessoa que a ama e não ter medo da resposta.
Ser corajoso é não desanimar ante os imprevistos da vida, é continuar a lutar, não desistir dos sonhos apesar de tudo, é não responder a uma ofensa para não piorar a situação.
Resumindo, coragem é acordar de manhã, passar bem o dia e dormir tranquilo, sem enlouquecer, é ser-se apesar de tudo e todos, e como dizia outra ícone de minha infãncia Didi Mocó: Quer, quer, se não quer tem quem quer!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ato(s) de Coragem

Coragem para viver

“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo”
Miguel de Cervantes

Quem não se encanta com um gesto de rebeldia, como aqueles que ousam não seguir a lógica imposta e lutar por aquilo que acreditam. Quem nunca foi ao circo, só para ver o trapezista ou a moça que espera os golpes do atirador de facas. Quem nunca brincou de super-herói, não desejou gestos de bravura, de honra, de loucura. A coragem é inspiradora, ela move a história, pois líderes são homens que acreditaram em causas e lutaram por elas, motivando multidões. Por isso, este é um dos poucos valores que não sai de moda.


"Se for preciso canta um hino..."
AQUI "


DATA DA POSTAGEM 25/02/2012


PROPOSTA

Escreva um conto curto ou um poema sobre
“Ato(s) de Coragem”.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Somos fios

 
Confesso que sentia medo, não porque a voz dele penetrasse no mais fundo de mim. Isso não. E também não pelos seus olhos negros atentos a qualquer movimento: ─ um pássaro em seu voo, uma aranha balançando no galho seco, o leve farfalhar de meus pés sobre as folhas. Nada lhe escapava. Com seu falar pausado ia tecendo histórias, causos da família recordados ali junto à fogueira em noites frias.

Entre um causo e outro, às vezes ele detinha longamente o olhar sobre mim e ria. Era um riso largo, bonito quase sem som, bem diferente do meu sempre barulhento, escandaloso. Pelo sorriso nem parecíamos pai e filho, mas tínhamos tanto em comum. Somos amantes das palavras dizia ele. E, conhecedor profundo do poder delas explicava-me com detalhes, comparações, associações, a distância que há entre o sentir e o dizer, mas que não devia ser assim não.

Que na vida somos como fios. Alguns usam muitos; outros usam pouco; há os que preferem os coloridos; os que preferem os escuros. E ainda há os que não escolhem. Mas de um jeito ou de outro todos estamos tecendo e destecendo coisas pelo caminho. Construindo bordados próprios ou simplesmente copiando o alheio. Esse era meu medo. Mas ele me apaziguava, sabia que com o tempo eu aprenderia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O tear das Serra Gerais.










foto do Google




Nasci e vivi pelas terras mineiras nas primeiras décadas do século XX. Jovem ainda me encantou a operação do tear, com aqueles movimentos que pareciam mágicos com seu resultado final. Todos conheciam pela alcunha de “Tonho do Tear mágico”, mas sempre estava insatisfeito com o resultado, embora notasse o encanto nos olhos admirados. Com movimentos rápidos e sincronizados, lembrava àquelas aranhas caranguejeiras das bananeiras de todos os quintais.
Quando arguido sobre o segredo da perfeição, com sorriso nos lábios dizia:
_ O segredo na arte do tear está no amor ao tocar os fios e assim eles retribuíam dando vida ao tecido, o segredo é a suavidade dos toques das mãos num processo de caricias. Assim é na vida da gente o amor dever vir na frente. Mas sempre dizia que o mais lindo ainda estava por tecer, que fazia parte de um sonho e por ele morreria nesta maquina.
Certo dia na teimosia do sonho acionou a maquina como se fosse seu ultimo encontro, alta noite ainda se ouvia o barulho deste. Mas, pela manhã a percebeu-se silencio profundo. Alguém então começou a chamar e gritar, mas sem resposta, foi aos fundos da casa, onde um gato dormia na janela, as galinhas em desordem ciscavam nervosas pela espera do milho. A porta que dava para a cozinha estava fechada. Era a Joana preocupada e com medo que arrombou a porta e deparou com a cena, que ela jura ter sido a mais bonita vista pelos seus olhos, o tecelão enrolado no mais lindo tecido, que mais parecia tela de um pintor em meio aos restos de fios pelo chão, que lembrava os verdes campos da região. Joana movida pela emoção num abraço apertado quis logo saber se este era o sonho realizado. Então explicou para ela de sua jornada noite adentro no tear pela busca do tecido perfeito.
Refeito do acordar assustado, visivelmente cansado confessa que na madrugada, quando já sem animo, sentiu um toque de uma mão suave sobre as suas e um clarão no quarto e naquele instante o tear parecia vivo com movimentos contínuos, rápidos e suaves reproduzindo em tecido tudo que idealizara. Naquela manha na região uma romaria, para conhecer o tecido do sonho de Tonho, que feliz e sem muita admiração dizia:
-Foi obra dos Céus.
Toninho.
31/01/2012.

Minha idéia é sempre participar das propostas,mas as vezes sinto a dificuldade, mas sou teimoso em errar para acertar e aprender.Todas criticas serão sempre bem vindas.
Grato sempre querida Sueli pelo espaço.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Tecidos nobres

Aprendi na faculdade que coesão seria a "costura" do texto e que a própria palavra texto tem a ver com tecido, mas deixemos a etmologia de lado...
Por minha vez, procuro usar tecidos nobres, de grifes como Drummond, Lispector, Trevisan, entre tantas outras grifes que me dão tecidos para aquecer a alma, alguns mais rústicos, que me cutucam e me fazem acordar para uma nova realidade, outros já me embalam e acalmam, com cheirinho de lavado, tão bom de usar antes de durmir...
Grifes nobilíssimas, que utilizadas com cuidado não deformam ou desbotam, pelo contrário, quanto mais usamos mais belas e coloridas elas ficam.
Se eu pudesse tecer algo com a habilidades desses tecelões, teceria a alegria de saber ler, escreveria qua a melhor coisa que um ser humano pode fazer por outro é ensiná-lo a ler, a amar as letras e valorizar o poder de um livro, gostaria de um dia passar um pouco do amor e beleza deles a alguém que se propusesse a me escutar... sonho, quem sabe, mas também fui contaminada pela teia de Aracne, e espero envenenar também... veneno bom esse, que circula por nosso sangue e não tem cura, uma vez instalado!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ambição demiúrgica


Aracne
"Na mitologia grega, Aracne( jovem lídia) quis medir-se na arte da tecelagem com Atena, deusa da Razão superior e mestra da tecelagem. Todos os deuses compareceram, e o concurso começou. Atena bordou as doze divindades do Olimpo em sua majestade e, nos quatro cantos da obra, evocou os castigos nos quais incorrem os mortais que ousam desafiá-las. Não se importando com essa advertência, Aracne representou em seu bordado os amores dos deuses pelos mortais. Ultrajada, Atena bateu na jovem com sua naveta. Desesperada, Aracne quis enforcar-se, mas Atena a impediu e a metamorfoseou em aranha, a qual, desde então, não cessará de balançar-se na ponta de seu fio. Ela é assim símbolo da queda do ser, da ambição demiúrgica punida e, portanto, uma advertência: ninguém pode rivalizar com os deuses".Jean-Paul Ronecker.

A Moça Tecelã
Por Marina Colasanti


DATA DA POSTAGEM 31/01/2012

PROPOSTA
Elabore uma narrativa

Se o tear mágico fosse seu, o que você faria com ele? Que ou o que teceria ou desteceria?


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Recesso :o)

A leitora- Espanha (2005)
Carmen Varela


ABRAÇOS MEUS QUERIDOS

ATÉ

16/01/2012

sábado, 24 de dezembro de 2011

"Para isso ...lembrar e ser lembrados




Alegria e coragem sempre ,sempre, sempre.
Abraços a todos:  amigos, leitores, escritores
(aqui carinhosamente chamados de escrevinhadores)
gratíssima
sueliaduan


Escrevo para não enloquecer definitvamente,

e por acreditar que técnica e exercícios saõ fundamentais para o nosso aprimoramento na arte da escrita



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A lua me contou...

Noite quente...sentia a maciez da areia sob meus pés, ouvia o barulho do mar, mas estava sozinha.
Foi quando olhei para o brilho da lua e então começamos a conversar...trocamos confidências, rimos, choramos, enfim, aproveitamos a noite!
Ficamos alí na praia, sentido o cheiro salgado que o mar nos enviara para perfumar a conversa e criar um clima mais agradável, o que muito lhe agradecemos.
Todos os problemas foram gradativamente diminuindo, toda a sabedoria da minha amiga me levou a pensar que tudo o que realmente importava era simples, que eu precisava de tão pouco para ser feliz e tranquila, e essa leveza toda me fez voar!
Voei pela noite no mar, depois quis mergulhar em seus domínios sem pedir licença e senti seu frio, seu poder. Subi e voltei para a noite iluminada que minha amiga me proporcionava.
Estava tão leve e satisfeita de ter confidenciado meus mais íntimos segredos a alguém que podia confiar plenamente...
Acordei desse sonho, a experiência de sensações, toda a sinestesia me fez mais atenta aos meus sentidos, e hoje tudo tem uma nova textura, cheiro, cor...aprendi a ver o mundo através dos olhos da lua.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Entre o meu e o seu olhar uma ponte de estrelas"


Então olhava para mim. Erguia um pouco o olhar com um jeito de quem procurava alguma coisa. Não sei bem definir o que era. Era só uma vaga sensação mesmo e que perdura até hoje. Nossos olhares encontravam-se e o silêncio reinava soberano. Não nos falávamos mais por dias, semanas, meses. Não que antes houvesse uma conversa acirrada. Nunca. Mas ríamos muito juntos, nos entendíamos perfeitamente. Por isso, então, esse olhar exerceu tanto poder sobre mim. Uma mistura de admiração alegria e infinito amor. Quando criança ficava horas olhando para esses mesmos olhos, e na minha inocência de menino pensava que era um pedacinho do mar.

Os olhos do meu pai são azuis da cor do mar, eu dizia feliz. O mar é verde retrucava Beatriz. Bravo eu gritava, na rua, na escola para todos os amigos:
- Azul, azul, azul e azul. Ria muito

Homem calado pai dizia tudo só com o olhar, janela da alma como disse um grande pintor uma vez. Eu só vim saber disso anos depois em minhas noites de leituras e insônia, mas sempre suspeitei. Gostava de olhar longe o campo, o milharal. Enxergar pai lá longe calmo, sereno. Uma imagem que guardo até hoje. Ele e a semente uma coisa só. Os dois plantados. Vivos para sempre. Seu olhar sobre mim, seu silêncio, meu crescimento. Brilho de estrelas

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Um modo particular de ver o mundo"

M.C. Escher
(1898-1972)

Nossa falível percepção

Mesmo com um único olho você pode perceber profundidade. A experiência da vida em noso meio ambiente, com nosso deslocamento frequente de um lugar para outro, faz-nos perceber vivermos em três dimensões. Mas há muitas outras "pistas" para que decodifiquemos o mundo, como  a perspectiva. As coisas mais afastadas nos parecem menores, um princípio simples, mas que foi usado nas artes visuais a partir do século XIV.

Às vezes, porém, enganamo-nos em nossa percepçao, tentando, por exemplo, converter para três dimensões coisas que são planas, bidimensionais. Na gravura acima, a água parece subir pelo aqueduto. Apesar da colocação ilógica das colunas, a ilusão óptica nos dá uma irresistível impressão de profundidade, no caso, totalmente falsa. As sombras ajudam a criar a ilusão, transmitindo a idéia de solidez e profundidade reais.

A conclusão inevitável é a de que o mundo não é exatamente o que vemos, mas o que "lemos". Interpretamo -lo a partir dos nossos (pobres) cinco sentidos, que a todo momento podem nos pregar muitas peças. A todo momento podermos ter enganos ( alguns muito sérios) perceptivos. Julgamos ver uma coisa e vemos outra, pensamos ter ouvido alguém e não era nada, batemos no ombro de uma pessoa achando ser um amigo e quando ela se vira...

Nosso cérebro não tem condições de julgar com exatidão se sonhamos uma coisa, se ouvimos, se realmente vivemos aquilo. Enfim, somos animais extremamente falívies em matéria de percepção. Muitos animais, incluindo aí aves e insetos, são muito melhores que nós neste exercício, mas conseguimos ,pelo  uso da nossa inteligência e razão, compensar as nossas graves deficiências sensoriais.


 PROPOSTA

DATA DA POSTAGEM 19/12/2011

Construir uma descrição subjetiva, em no máximo 20 linhas, usando figuras que você conheça, tais como comparações, metáforas, aliterações, assonâncias, sinestesias.

Títulos "sugeridos"
Entre o meu e o seu olhar uma ponte de estrelas.
Cuidado, o luar está filmando!
O sol no olho da lua.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

De Caminhos e Imagens, o Reencontro


No caminho passou de tudo fome, frio, medo e algo que nunca tinha experimentado em toda sua vida: — tristeza. Uma dorzinha aguda que começava nas costas, se é que podemos chamar de costas, e culminava forte no coração mudando seu ritmo natural e descompassando todo seu ser. O rabo pendia e, Piloto sentia todo seu peso que quase tocava o chão. Mas nem por um momento pensou em desistir de sua busca. Há tempos que partira da velha cidadezinha abandonando aquele que tinha sido seu verdadeiro companheiro, e, agora de volta era preciso percorrer cada beco, cada praça, cada cantinho e ,quem sabe, por conta do inexplicável , esse mistério do encontro, traria ali na sua frente seu dono.

Um cansaço tomou conta do seu corpo, relembrou todo o trajeto percorrido, e das crueldades sofridas – pedradas- chutes, empurrões, mas era um cão otimista, de bem com a vida=. E a última imagem que tinha na mente era a de um sujeito que o protegeu da chuva, abaixando-se delicadamente com o guarda- chuva aberto sobre ele. Essa imagem encheu-o de coragem e mais uma vez ele acreditou na possibilidade do reencontro. Foi com esse pensamento que Piloto avistou no finalzinho da rua poeirenta seu antigo dono, sabia que era ele, sentiu seu cheiro inesquecível, reconheceu a capa preta que servia de manto pra ele nas noites que ambos saiam para passear. E com o coração em disparada e o rabo numa demonstração de alegria, no seu muito balançar, correu ao seu encontro,pois tanto um quanto o outro nunca esqueceram da arte de viver .

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Laços quebrados

Piloto... meu dono me nomeou assim pois sempre achava o caminho de volta, por mais longe que fosse, seu cheiro me encontrava onde estivesse, desde filhote fomos muito amigos.
Um belo dia olhou-me e disse que tinha que ir embora, achara um trabalho na cidade grande e aproveiraria a aportunidade, mas que não me esqueceria e voltaria para me buscar assim que pudesse.
Fiquei esperando, olhava todos os dias as pessoas descendo do ônibus na rodoviária, e nada... anos se passaram e meu dono não voltava, fiquei preocupado por algum tempo, mas ainda confiava em sua promessa!
Até que o tempo foi me fazendo lutar por mim, afinal, precisava sobreviver, comia o que conhecidos me davam, olhavam-me com pena, eu não gostava daquilo, mas tinha que me alimentar, tomava banho no rio, dormia na rua, era horrível, mas não havia outro remédio.
Bela manhã, acordei debaixo do banco da praça e então o vi! Meu dono finalmente havia voltado para a cidade, estava diferente, mas o cheiro não mudara...
Finalmente quando nos encaramos, percebi que estava melhor sem ele, aprendi a viver por mim, para as minhas coisas, enfrentar meus medos e não precisava mais dele.
Comprimentamo-nos e despedimos-nos com apenas um olhar, era tudo que nos restava, os laços estavam quebrados e sobrara apenas uma lembrança de um tempo que não voltaria mais.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"ESPAÇO, LUGAR MÁGICO"


NARRATIVAS - O ESPAÇO
O espaço tem a função de revelar ao leitor, através das descrições (sensações + julgamentos), onde a ação (enredo) se passa. O narrador traduz em palavras adequadas aquilo que vê/sente/ouve/toca/cheira: cores, formas, cheiros, gostos, sons. Enquanto, na descrição, dá-se exatamente o contrário: o tempo é o grande privilegiado, e o espaço quase sempre um mero acessório decorativo.
Há vários tipos de espaço narrativo.
Cada um com suas peculiaridades.

Espaço decorativo: Na maior parte das narrativas o espaço serve de cenário, palco onde se desenrolam os acontecimentos...

Espaço funcional: Há narrativas, entretanto, em que o espaço determina a história, produz e modifica comportamentos...

Espaço hostil: Ambiente onde a personagem se expõe a riscos, aos azares...

Espaço afetivo: O espaço que desperta sensações “positivas” como calor, segurança, carinho...

Espaço psicológico: Nas narrativas psicológicas, em que predomina o fluxo mental, o tempo quase não é notado, a ação é retardada, o enredo se desenvolve em função dos pensamentos da personagem...
E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela. Tira-se de uma mesa limpa um objeto e pela marca mais limpa que ficou então se vê que ao redor havia poeira. As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela. No seu coração, aquela rosa que ao menos poderia ter tirado para si sem prejudicar ninguém no mundo, faltava. Como uma falta maior”
Clarice Lispector. A imitação da rosa (p. 54)
                                             

A MUDANÇA
Carlos Drummond de Andrade.
Contos plausíveis


O homem voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente. A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era velhíssimo sem trato, que parou à sua frente. Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria em breve, e nunca mais voltou. O animal, inconformado, procurava-o por toda a parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na terra mutante. Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino. O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de viver.

PROPOSTA

DATA DA POSTAGEM 21/11/2011

Mude o foco narrativo do conto “A mudança”, ou seja, relate, em vinte linhas no máximo, os fatos sob o ponto de vista da personagem Piloto. Coloque um título.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

HAIKAIS


Mar poluído.
Vazamento de óleo_
Ave imóvel.







Frutas maduras
Fartura no pomar
Sanhaço se farta.







Tiro criminal
Chão colorido de anil
Ararinha azul







Córrego limpo
Peixes em reprodução
Pescador feliz.








Fauna em fuga
Fogo na floresta
Animais morrem.








Calor intenso
Incêndio na mata_
Coala salva.




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À natureza que se encontra constantemente ameaçada.

Essa postagem é do Toninhobira- "repostei" por conta das outras postagens que tinham  "sumido"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dos desencontros - Haicais


Nossa amizade
cessa aqui
nesse trecho da estrada


Restou uns poucos traços
riscado ao acaso
no papel amassado


Segui por outro caminho
entre coisas
que não me tocam

Por um longo caminho
ando com a solidão
meu ar natural

Necessito da solidão
para recuperar o equilíbrio
ultrajado e angustiado

Quero ser
tão somente como os outros:
insignificantes

Bater o pé
no degrau de pedra e gritar:
Dane-se!

MLailin

domingo, 23 de outubro de 2011

Dos olhares - Haicais


O vulcão, o fogo, as cinzas.
Teu amor fogo brando.
Poucas cinzas.

A folha, a árvore, o pássaro
No campo os corpos, o instante
Vôo infinito

A ave, o alimento, o ciscar.
Comer palavras é coisa dos homens.
Coisa do meditar.

A neve, a água, o frio
Teu corpo próximo
Ebulição.

Há campânulas roxas, brancas, amarelas.
No teu olhar há infinitas cores.
De doces amores.
                              
sueliaduan



Matsuo Basho –O Mestre do HaiKai
Detalhe do Retrato de Bashô por Watanabe Kaz


Matsuo Basho (1644-1694) foi o poeta mais famoso do período Edo no Japão, mestre criador do Haikai.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Poesia - Haikai


 Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
Matsuo Basho



Quietude
O barulho do pássaro
Pisando em folhas secas
              Ryushi


Forma de poesia japonesa surgida no século XVI e ainda hoje em voga, composto de três versos, o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano. Foi introduzido no Brasil em 1936 por Guilherme de Almeida.

Com fundamento na observação e contemplação enfatizando o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano. O mais tradicional poeta deste estilo é Matsuo Basho, monge Zen que aperfeiçoou o estilo e divulgou suas obras no final do século XVII.

Em época mais recente, Paulo Leminski explora novamente o hai-kai, adaptando-o, segundo a tendência do poema moderno, ou seja, sem rima. Como fazer hai-Kai de acordo com Leminski: Temos a fórmula do conteúdo, que é ao que os poetas contemporâneos obedecem ao invés da contagem de sílabas.


DATA DA POSTAGEM 24/10/2011

PROPOSTA POESIA HAIKAI

Crie cinco poemas

Escolha temas simples: natureza, estações, tempo, aves...
O primeiro verso expressa algo permanente, eterno.
O segundo introduz uma novidade, um fenômeno.
O terceiro e último, é a síntese

E observe as “dicas” de Leminski

domingo, 25 de setembro de 2011

"De olhares e lençóis"


Não sei se começo pelo de dentro ou de fora, pela gravata ou pelo paletó. O que eu sei, com uma verdade pertubardora, é que aquela imagem ficaria retida na minha mente para o resto dos meus dias. A maneira com ela abria os botões da blusa e a delicadeza com que colocava o broche sobre o criado mudo foi o rito de passagem na minha mocidade.

Olhar seu corpo nu sobre os lençóis, o reflexo do sol sobre o broche, formando em suas pernas desenhos de tons entre o âmbar e verde claro, iluminava minhas tardes naquele finalzinho de Setembro. Eu era o mais feliz dos homens, então. Outros momentos, outros corpos seguiram-se a esse. Mas, em nenhum, cores e pernas entrelaçaram-se com tamanha harmonia.

Curioso por natureza e pesquisador por profissão, não tive sossego enquanto não voltei, trinta anos depois, à bela cidadezinha perdida entre planaltos e planícies. As pedras brancas espalhadas por todo o local e uma das primeiras catalogadas em minhas pesquisas serviam de pretexto para revistar o museu e, quem sabe, descobrir o paradeiro daquela que tanto prazer me deu.

Qual não foi minha surpresa ao adentrar no museu, deparei-me com uma luz entre o âmbar e o verde claro, coração acelerado, andei lentamente em direção aos raios luminosos, e lá estava ele, alojado sobre uma almofada azul, dentro de uma delicada caixa de vidro: — o broche . Perplexo, perguntei à moça do balcão que gentilmente contou-me toda a história. O broche tinha sido encontrado no sótão de uma casa, por volta de 1840, e passado de geração a geração, uma relíquia da Rússia czarista, e, olhando bem nos meus olhos, segredou: — Junto foram encontrados dois cadernos, infelizmente com letras ilegíveis, mas, em um deles, foi possível ler sobre um grande amor vivido. O povo aqui acredita em muitas histórias, o senhor sabe, e desde que o broche veio para cá, há quem diga que todas as moças que tiveram o privilégio de usá-lo viveram momentos inesquecíveis de prazer e amor.
O senhor acredita nisso, senhor...?
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Memórias de um sótão.


Imagem Google










Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando a medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível, algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens

Um apito solto no ar.

Passado alguns anos, numa manhã de Agosto, acordei mais cedo e preparava meu café, quando ouvi um barulho vindo do sótão. Pensando se tratar de algum gato, fiz um chamado tradicional bichim... bichim. , mas como resposta, apenas risos do meu pai, saindo do sótão com uma caixa de sapato escurecida pela fumaça do fogão à lenha da casa. Após lhe pedir a benção como tradição mineira, quis saber, por que ele tinha ido ao sótão naquela hora do dia. Mas ele apenas falou que estava à procura de uns papeis antigos. Tomamos café juntos e cada um foi para sua rotina.

Durante o dia no escritório, lembrava da manhã com meu pai saindo do sótão, e pensava como velho tem manias, que a gente nunca entende. Aquilo ficou martelando na minha mente, pois fazia tempo que ele não subia por lá. Quando voltei do trabalho, minha mãe relatou que o pai passou varias horas no quintal, remexendo na caixa velha de sapato e que ela vez ou outra, ouvia um apito vindo do quintal, mas que não identificava e ele sempre afirmava, não ter ouvido nada e que ela minha mãe, deveria estar ficando maluca.

No dia seguinte uma ligação urgente vinda de minha residência, o que me preocupou, vez que isto não era comum na família. Rapidamente segui para a sala e ao ouvir a voz de minha mãe, senti que algo não estava bem, em meio a um choro ela dizia, que o pai tinha saído de casa após minha saída, que tinha tirado algo da tal caixa e que não tinha voltado para o almoço como de costume. Sai pelas ruas com a cabeça pensando mil asneiras. Veio a lembrança do pai remexendo na caixa e pensei que ele poderia ter cometido um suicídio, de tanto esperar o tal aumento da Previdência, que ele aguardava por mais de 10 anos. Mas, não constava que o pai, tivesse arma em casa, muito menos naquele sótão. Lembrei de passar pela estação, onde ele sempre voltava para ver os trens de ferro e conversar com velhos amigos.

Ao aproximar da estação, ouvi um apito que não cessava como se estivesse na boca de criança em dia de festa. Quanto mais aproximava, mais era audível. Quando cheguei ao muro da estação, avistei pessoas olhando para a via férrea, levei um susto, mas de longe vi meu pai, com um apito brilhante na boca e soprando e acenando com as mãos para os trens que vinham em manobras. Um funcionário logo me disse que meu pai invadira a pista com o apito e não reconhecia ninguém. Corri até ele, o abracei retirando dos trilhos. Ele me olhou deixou cair uma lagrima e afirmou que apenas queria mostrar que estava vivo e podia comandar as manobras dos trens, mas que não estava louco.

No outro dia bem cedo, peguei o trem com ele e minha mãe e fomos para a capital onde ele fez vários exames comprovando sua sanidade mental. Que fora apenas uma crise emocional pela perda do irmão. Ele tirou do bolso o apito amarrado a um broche de Honra ao Mérito ao sair da clinica e falou que aquele apito atado ao broche, o acompanhava deste o dia da morte do irmão numa manobra naquela estação e que fora lhe dado como lembrança, mas o seu pai, meu avô, o havia escondido nesta caixa de sapato, para evitar lembranças emotivas, mas ao rever os objetos naquela manhã um filme passou na sua mente lhe empurrando para aquela estação.

De repente um sorriso abriu em seu rosto era o trem que chegava à estação para nossa viagem de volta.
E hoje para evitar alguma recaída, o apito atado ao broche fica com a mãe.

Toninho
21/09/2011.

Uma leve alteração no objeto da caixa e nos personagens.
Coisa desta minha minerice e os trens que povoam meus olhos e ovuidos.
Eu juro que tentei fazer um texto curto.(perdão Sueli)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Memórias de um porão.

Era um domingo nublado...vovó nos convidou para darmos os últimos arranjos na casa.
Mulher forte, não queria morar com nenhum dos filhos, apesar de todos a convidarem para suas casas, demorou admitir que após a morte do vovô há um ano, a casa ficou grande e vazia demais para que ela continuasse ali, resolveu então mudar-se para uma casa de repouso, junto com várias de suas amigas tão fortes e teimosas quanto ela, disse que lá ficaria bem, e não deu caso para discussões.
Chamou-me para ajudá-la com o porão, e quando chegamos lá, achei então uma caixa cheia de fotos que eu não conhecia.
Sentamos no sofá velho e ela então com um ar professoral começou a me contar a história da família... vi vovô orgulhoso em seu uniforme de praçinha da segunda Guerra, era claro seu orgulho de servir ao país, olhos jovens brilhantes, ela mostrou mais uma vez o anel comprado durante a guerra e o pedido de casamento, jóia italiana, coisa cara!
Mamãe em vária etapas da vida... menina travessa, com fita no cabelo, adolescente sonhadora, noiva feliz, grávida de meu irmão mais velho, e depois comigo nos braços.
Tios e tias também em várias fases, aquele balanço que tanto nos alegrou e despenteou nossos cabelos, vovô fez com tanto carinho e cuidado para que não arrebentasse.
Fotos do fogão à lenha sendo usado para cozinhar tantas ceias de Natal, tantos almoços de domingo...
Vovó ia me narrando cada etapa da sua vida de casada através daquelas fotos, era como um filme que não se movia, a energia para o movimento dele era a imaginação, então achamos uma dela ainda muito jovem, logo após o casamento, como era linda e era incrível sua memória, os detalhes narrados eram dignos de um livro auto-biográfico.
Histórias que não poderiam ser perdidas, conheci então um mundo novo, antigo mas ao mesmo tempo tão presente, aquele ar empoeirado do porão deu um toque todo especial à narração, para não dizer uma aula!
Mostrou que a vida apesar de dura, com 6 filhos e poucos recursos conseguiram formar uma família forte, de pessoas maravilhosas, e como era bom fazer parte daquilo tudo.
Família é algo que não escolhemos, mas são a nossa história, nossas origens, nos fazem o que somos.
Quando enfim terminou de narrar a última foto, nos abraçamos choramos... era difícil deixar algo tão importante, mas precisava ser feito.
Demos as mãos e não olhamos para trás, aquele domingo foi um recomeço para nós duas.
Pedi para ficar com a guarda das fotos, e com seu consentimento um dia escreverei um livro sobre sus memórias e será entitulado: Memórias de um porão.

domingo, 11 de setembro de 2011

Cruz de Ferro

Cruz de Ferro
“Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando à medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível,algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens”

Lembro que minha mãe chorou muito ao ler os cadernos e ver os retratos, mas não me permitiu examinar o que havia ali.
E, depois, assustado com a morte de meu pai, e com a discussão que minha mãe teve com meu avô Jörg, pai de meu pai, expulsando-o de casa, nem me lembrei mais da caixa.
Fora que eu me preparava para o meu Bar Mitzvá, no mês que se aproximava.
Agora, após o cerimonial de matzeiva de minha mãe, 38 anos depois, voltei para aquela antiga casa, para encaixotar as velhas coisas.
E encontrei aquela caixa de sapato, que havia anos estava esquecida por mim.
Dentro havia cartões-postais da Bélgica, Polônia, Vichy, Montpellier.
E também cartas dirigidas a pessoas que eu nunca ouvira falar.
Várias fotos de soldados, um deles muito parecido comigo, o mesmo sorriso do meu filho.
Ao ler os cadernos, descobri que eram diários de um soldado alemão.
Contavam sua empolgação ao começar na carreira militar, de como foi seu treinamento, suas primeiras batalhas. Tinha um começo cheio de expectativa e sonhos de um jovem rapaz, de sua bravura, como quando recebeu a 'Cruz de Ferro', mas, no decorrer dos meses, ia mudando os sentimentos, que passaram da dúvida ao mais completo desespero por suas tarefas, que anotava com torturantes detalhes.
E contava também de como foram seus planos para fugir da Alemanha, pois o Fuhrer não tolerava desertores, e se refugiar num país distante, chamado Brasil, onde morava um velho amigo de seu pai, Jörg, o qual o acolheria.
E contava também como, no navio que fugia clandestinamente, conheceu uma linda e jovem judia, chamada Esther, que perdera toda a família em Auschwitz,
E como se encantara por ela.
E como, a partir daquele momento, se decidira judeu.
Ele já conhecia todos os rituais, linguajar e costumes, pois aprendera a reconhecer judeus em seu tempo de soldado.
Com suas condecorações vendidas, menos a Cruz de Ferro, foi pagando sua estadia no novo país, como a moradia, as roupas e a circuncisão e o silêncio de um médico charlatão.
Casaram-se numa linda cerimônia, em que seu novo pai Jörg esteve presente para abençoá-los, e ele abrira um negócio de tecidos.
E depois de um tempo ele voltara a escrever contando que tivera um filho, e, já no final do segundo caderno, fazia esporádicas e rápidas anotações, sobre se era correto ele manter esses cadernos, e se um dia contaria sua historia a alguém.
Ao voltar dessa viagem no tempo, me sentia zonzo, desnorteado. A última coisa que sobrara na caixa era um antigo broche, datado de 1939. Era a Cruz de Ferro.
Eu, um judeu, era filho de um soldado nazista.
Filho da Historia.
Filho da Mentira.
Filho do Amor.
Meu pai nunca havia contado em vida, pois não suportaria o silêncio e o desprezo de minha mãe.
Ela realmente nunca mais falou sobre meu pai.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"O FASCÍNIO DAS NARRATIVAS"-

“O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Infinitas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver,enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.”
Daniel Pennac

CONSTRUÇÃO DE UM PROJETO DE TEXTO NARRATIVO

Em um texto no qual discute o processo de composição de seus contos Edgar Allan Poe destaca a importância, de antes de escrevê-los, determinar qual seria o fim pretendido para cada um deles. Poe via a escrita, de certa forma, como a execução de um planejamento previamente estabelecido e não concebia a possibilidade de dar início a um texto sem que soubesse como desejava concluí-lo. Era como se, a cada novo conto que pretendesse escrever, o autor procurasse, primeiramente, construir um projeto de texto.

Podemos, no caso da produção de textos narrativos, estabelecer alguns procedimentos que nos auxiliem a construir um projeto de texto que dê unidade ao trabalho como diferentes elementos narrativos e permita, ao mesmo tempo assegurarmos verossimilhança à história que pretendemos contar.


"Os campos de Honra"
Jean Rouaud.
FRAGMENTO:

O fragmento citado abaixo é parte da história de uma família contada por um narrador que “vasculha a memória”, buscando encontrar um sentido para a existência e decifrar um enigma cuja chave pode simplesmente estar guardada numa caixa escondida no sótão.

Na volta do cemitério, vovô subiu uma última vez ao sótão, só o tempo de tirar uma caixa de sapatos que, ao descer, entregou a mamãe com algumas palavras de explicação. Dentro havia fotografias, cartões-postais, cartas, um broche e dois cadernos. A letra do mais estragado deles, caprichada no começo ia piorando à medida que se viravam as páginas, até ficar no fim quase ilegível, algumas notas arremessadas que se diluíam no branco das últimas folhas virgens

DATA DA POSTAGEM 26/09/2011

PROPOSTA


Imagine-se no papel do escritor e relate um dos episódios significativos da história dessa família. Sua narrativa deverá ser em 1ª pessoa, o episódio narrado deverá estar centrado em pelo menos um dos objetos guardados na caixa de sapatos (fotografias, cartões-postais, carta, um broche, dois cadernos).