terça-feira, 15 de março de 2011

A arte se Simpatizar

imagem Google












Tenho comigo a convicção, de que das emoções que vivemos, a simpatia é uma das mais interessantes, pelo fato de nos colocar na vida de outras pessoas numa maneira meio que natural desprovida de outras emoções, que senão a de se achar bem e sentir que esta fazendo bem. Há certa magia neste sentimento, que às vezes nem temos como explicar, é simpatiza e pronto. Ali se cria um laço com suas amarras feitas numa relação de troca de amabilidades, sinceridades e cooperação.
Numa ampla visão simpatizamos com coisas, pessoas, cidades, partidos políticos, animais enfim uma enormidade de situações, nas quais nos surpreendemos usando o termo simpatia. Não é raro ouvirmos as pessoas dizerem que não se simpatizam com alguém por este ou aquele motivo, ainda que não se expliquem ou justifiquem. Mas é assim, basta que você não goste de alguém ou algo, que a palavra simpatia vem logo à tona para auxiliar num sentimento, que evitamos assumir. Assim usamos a palavra que assume a condição de eufemismo, para nossa comodidade.

Um bom exemplo são os blogs, onde a gente vai criando um laço de simpatias seja pelo comentário ou mesmo pela arte de cada um se posicionar. E nesta evolução de simpatia, nos surpreendemos na mais linda maneira de comunicar com pessoas de todos os cantos do Brasil, e numa espécie de link ativo vamos simpatizando com pessoas, que são simpáticas daquelas que nos são simpáticas criando uma rede de simpatia, que fazemos das tripas coração para que este link nunca seja quebrado, nos permitindo sempre a conexão direta com estas pessoas. E confesso que assim ficamos cativos a estas pessoas e suas criações, não se permitindo deixar de passar na pagina, nem que seja para uma espiadela, ou mesmo para deixar uma marca carinhosa.  

Isto me faz lembrar uma declamação da cantora Bethania em seu disco Drama do 3° Ato de 1973 onde ela belamente declama Fernando Pessoa:

"Eu quero ser sempre aquilo/Com quem eu simpatizo/E eu torno-me sempre/Mais cedo ou mais tarde/Aquilo com quem eu simpatizo/E eu simpatizo com tudo/São simpáticos os homens superiores/Porque são superiores/E são simpáticos os homens inferiores/Porque são superiores também/Porque ser inferior é diferente de ser superior/E isso é uma superioridade/A certos momentos de visão/Eu simpatizo com alguns homens/Pelas suas qualidades de caráter/Com outros eu simpatizo/Pela falta dessas mesmas qualidades/E com outros ainda eu simpatizo por simpatizar com eles/Como eu sou rei/Absoluto na minha simpatia/Basta que ela exista/Para que tenha razão de ser.” 

Assim como esta beleza de criação do Pessoa, podemos nos sentir absolutos com nossos sentimentos com relação às pessoas que fazem nossos dias mais iluminados pela paz com momentos de puro prazer num perfeito equilíbrio de nossas emoções. Bem como não entendemos como algumas pessoas fazem questão de serem antipáticas, seja por se acharem a ultima cocada do tabuleiro, ou mesmo por se sentirem superiores ou mesmo grávidas de rei na barriga, enfim a gente sempre sonha com um mundo onde todos se harmonizem numa verdadeira cadeia de carinho, onde cada um possa estar envolvido na promoção da felicidade e do bem estar geral.

Um mundo de gente que se doa, que reparte que faça arte na parte de um projeto imenso de fazer deste viver um ato de amor entre pessoas e todas as coisas do universo em perfeita harmonia com a natureza e que sejamos todos felizes.



Toninho.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Pratos quentes e frios.





Nada mais honesto e generoso em matéria de comida que um bistrô francês: pequeno restaurante que serve comida caseira, tudo muito simples, da comida ao serviço. O menu em geral sugere o "plat du jour". Sim, porque em bistrôs muitas vezes é o "patron" que escolhe o que você irá comer e beber. Mas será sempre uma oferta honesta, em quantidades surpreendentemente generosas para o padrão europeu. Tudo isto acompanhado de uma baguete e um bom vinho.

O bistrô é uma festa para os sentidos, todos eles. Não chega a ser uma orgia de comida, a que vemos no Brasil em "buffets" e rodízios. Mas também não é aquela coisa indigente e pretensiosa da "nouvelle cuisine".
Saímos satisfeitos e nos fartamos com a comida de um bistrô. Diria que lá pecamos mais por luxúria do que por gula; também entre os pecados tenho os meus prediletos.
Se há um lugar no mundo onde é bom estar só, este lugar é Paris. Nossas reflexões são ambientadas em cenários adequados, mais que isto, perfeitos. Hoje, por exemplo, enquanto eu degustava meu prato – uma salada de escarola com bacon crocante seguido de uma galinha da angola ensopada com batatas – pensava no restaurante de "comida a quilo" onde almoço quase todos os dias. Um lugar bom, limpo, comida gostosa. Mas pensava exatamente na arte de saber escolher, entre tantas ofertas, um prato que seja saboroso e ao mesmo tempo nos convenha comer. É uma arte aprender comer nestes "buffets". Em rodízios então, nem se fala: bota arte nisto!

Ontem fui a um bistrô e devorei aquela galinha honestíssima preparada com cuidado. Lembrei-me de uma frase muito , muito comum de pronunciarmos ou ouvirmos: "a vingança é um prato que se come frio".

 Parece que esta cidade tem o poder de trazer à tona o melhor de mim e lavar todo o resto. Na paz daquele pequeno bistrô, na margem esquerda do Sena, já com uma meia jarra de vinho a me aquecer, eu imaginei uma cena e um diálogo. O cenário, o restaurante onde almoço todo dia. O diálogo entre eu e a Josie, a menina que fica dando suporte ao serviço:
 - Josie, que prato é este?
- Este gelado? É a vingança.
- E é bom?
- Tem boa saída, isto eu garanto. Mas é bem pesado. Prova!
- Ah não Josie, vou preferir aquela galinha ali, com batatas, me parece bem gostosa.

No leque de emoções que nos são oferecidas, sempre podemos optar. Há sempre escolhas mais saborosas, mais leves, mais inteligentes. Repetidas vezes ouvimos que a "vingança é um prato que se come frio"; o que raramente pensamos é que come-lo ou não é opcional.

Hoje paguei doze euros por este almoço, incluindo uma jarra de vinho da casa, um Beaujolais simples, mas ainda assim, francês. O pão e a água incluídos. Também um pedaço de torta de maçã com creme de cortesia – sim, não é verdade que franceses são atavicamente descorteses, especialmente se você não chegar falando com eles em inglês.
Na saída um sorriso agradecido à vida e ao pessoal de lá por este momento delicioso em minhas férias. Quando me despedi da mocinha que abriu a porta para que eu saísse, me descobri possuída por Baco. Juro que eu vi a Josie me perguntando em francês algo como:
 - Ficou satisfeita?
- Muito, uma delícia tudo.
- Comeu da vingança?
- Não, prefiro pratos quentes. Tenho dentes sensíveis.

(Olhei ainda prá trás e juro, Josie me deu uma piscadinha e um sorriso cúmplice.)

Saí errante pela cidade novamente e rindo sozinha. Paris é cidade prá andarilhos errantes, andando "errante ou erradamente"não há como não acertar em algo bonito de se ver.
O cenário de hoje foi Paris, mas podia ser São Paulo, Minas, qualquer lugar... A paz é minha, cuido pra que esta me acompanhe sempre. Viver em paz é viver bem.

Não é que me lembrei agora de uma frase sobre vingança muito melhor que este já tão bisado "clichê".... e não é que esta parece mesmo fazer bem mais sentido?

Minha vingança é viver bem!

Os mortos contam a sua história

         

              Domingo dia 13 de fevereiro. Olhei para fora da janela, parara de chover e era evidente que o dia ficaria nublado. Havia despertado com uma sensação de peso atrás da cabeça, parecia também estar com o coração oprimido como se estivesse num mundo sombrio vivendo num castelo gótico esfarelando-se. Tudo começou durante a noite quando tive dois sonhos que me deixaram com o corpo gelado, uma sensação de pânico o coração batendo mais forte. Pensei em levantar e anotar em minha agenda, mas o peso do corpo me fez ficar na cama. Uma sensação ruim percorria minhas veias e parecia não ter fim. Levantei assim que o dia nasceu e comecei a pensar no primeiro sonho. Havia sonhado com o filho da minha vizinha um homem viciado em drogas e ex-presidiario. Sempre que ele me vê na rua arruma um jeito de se aproximar e dar algum tipo de cantada. Educadamente tiro o corpo fora me fazendo de desentendida. No sonho ele se aproximou de mim falou alguma coisa que não lembro mais e vi o seu desejo ser transferido para um dos dois companheiros que o acompanham, e esse com um revolver na mão segue em minha direção e foi ai que começou uma angustiante fuga. No segundo sonho, sonhei com minha mãe morta há dez anos. Ela estava no quarto que construiu nos fundos da casa que hoje vivo. Conversávamos alguma coisa ao mesmo tempo em que a minha mente dizia: “Minha mãe esta morta e isso é um sonho”. Um sonho que avançava para a minha adolescência me levando para alguma coisa que eu não sabia o quê. Depois quando levantei, segui meus afazeres movida a angústia. Mais que depressa corri a procura de um chá e estourei minha cartela de remédios, eles iriam me ajudar. Mas desta vez foi tudo inútil. A coisa continuava comigo. 
           Era como se a minha vida estivesse parada. E que vida era essa que eu vivia?  Se é isso que chamam de tristeza profunda, de onde ela vem? E por que vem? Senti vontade de chorar. Não suportando mais, meus olhos encheram-se de lágrimas e abaixando a cabeça disse a mim mesma: “Por que eu não posso sentir escrever e suportar?”. No céu as nuvens pareciam ter muita pressa e foi na rodovia Raposo Tavares que tudo ficou cinza da cor do asfalto. Era como se aquela estrada quisesse me dizer alguma coisa, mostrando a dor horrivelmente brutal a que foi submetido alguém. Encostei a cabeça no vidro do ônibus enquanto sentia meu corpo se juntando em dois e eu perguntando: quando isso iria acabar? Teria que parar de pensar nisso, porque logo mais estaria indo para Vargem Grande Paulista.
          Cheguei cedo. O ritmo do meu passo era medido, contado e pesado. Diante de mim uma contínua procissão de homens e mulheres. Estava ali de pé, olhando isso sem nenhuma alegria quando decidi ir lá fora olhar o parque, as árvores as flores, deitar na grama. Talvez isso ajudasse. E foi o que fiz. Deitei na grama com receio de que alguém viesse e dissesse que era proibido ficar ali. Ninguém veio e eu fiquei longo tempo esparramada, esperando algo, alguma coisa que tirasse a angústia, o bolo que parou dentro do meu corpo no meio do meu peito.
          Duas palavras pairavam acima de mim: impossível, terrível... Agora eu estou aqui viva e respirando e você está debaixo da terra. A morte ainda não despiu os seus ossos e o seu sangue está molhando a grama. Faço uma pausa para que venha a resposta. Escuto um silêncio quebrado somente pela minha respiração. E quase no mesmo instante repeti as palavras lidas no livro sagrado: “Da terra o sangue do seu irmão esta gritando por mim, pedindo vingança”.
          Foi na manhã seguinte que a coisa revelou-se. “Vanessa Duarte, 25 anos foi achada morta com sinal de violência sexual em Vargem Grande Paulista. Segundo a polícia o assassino deve ser conhecido da vítima...”
Mlailin




domingo, 13 de março de 2011

Artificial


Esperando em um Shopping, fiquei pensando na artificialidade do ambiente: Luz, ar, pessoas querendo mostrar o que não são. Conversas vazias, artificiais, roupas que escondem o verdadeiro formato do corpo, maquiagem que oculta as linhas de expressão. Emoções verdadeiras sufocadas por uma falsa felicidade.
Percebi o quanto faz falta ser natural, tomar o vento no rosto, sentir o Sol, pôr os pés na terra, dizer algumas verdades para quem precisa ouvir.
Sociedade artificial essa a nossa, hein? Torna-nos máquinas, com a finalidade de produzir e cumprir metas, e ainda por cima, temos que estar familiarizados com todas as novidades do mundo, sabendo de tudo da vida de todos, pois também vivemos a artificialidade na Internet, reflexo de nossas vidas artificiais.
Pressão demais para pobres mortais, que não podemos estar acima do peso, mas somos bombardeados com alimentos calóricos, não podemos ter cabelos brancos, mas o stress nos envelhece dia a dia. Enfim, só sendo artificial mesmo para sobrevivermos a essa sociedade de bonecos.

De Carina Cardoso

sexta-feira, 4 de março de 2011

"Fruto da persistência e do esforço humano"


Uma das questões fundamentais da arte da ficção – talvez a maior delas - é a percepção da importância do exercício, ou seja, da prática sistemática de exercícios, pois essa atitude conduz à capacitação e à vontade de praticar mais e mais, num círculo virtuoso de aprendizado e amadurecimento.

É sempre bom relembrarmos o significado da palavra exercício: — "perseguir, "obrar", "não dar folga", do latim “exercere”. Escrever é fruto da persistência e do esforço humano.


DA POSTAGEM 18/03/2011

PROPOSTA


Escrever uma crônica
Você pode optar:

1- Final feliz
2- Final infeliz
3- Final em aberto, ou seja, o enredo fica “no ar” em suspenso.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Dissidencia de um Itabirano.











 Centro da Cidade Itabira.










Dissidencia de um Itabirano.


Uma eternidade vivi lá em Itabira
Infelizmente nasci ali
Hoje sou alegre, capoerista,farristas sambista baianeiro

Cem por cento negro
Vinte por cento feito deste sol que me queima a pele.
E esta solidariedade que me acompanha
É pura herança que favorece na comunicação

A vontade de nadar que tira a vonta de trabalhar
Vem das lembranças de Itabira,sem praia sem sol
Sem  Por do sol para me inspirar  nem das moças feias do lugar.
A amarga herança itabirana.

De itabira eu trago algumas lembranças em forma de presente
Este pedaço de  pedra de uma serra que nao mais existe.
Este passaro empalhado que vivia no meu quintal
E este lambari fosseificado da fonte Agua Santa hoje extinta.
Não tive nada naquela cidade,nem dinheiro nem amores

Hoje sou um engenheiro aposentado
Um baianeiro descansado.
Itabira é aquela foto na parede
Que se não dói
Vem a traça e corroi.


Uma parafraseado-parodia com Confidencias de um Itabirano de Carlos Drummond de Andrade, logo abaixo.


Toninho.
Apenas um exercicio,pois amo demais minha cidade.

 Obrigado Sueli pela idéia e convite,com este fecho minha participação neste exercicio de parodia-parafraseado.

Observação: Como Drummond tambem sou de Itabira-MG



  Homenagem a Drummond

Fazenda da familia(reconstruida)

 

 

 Confidência do Itabirano

Carlos Drummond de Andrade


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Aviso aos navegantes :o)

Escrevinhadores, queridos, retirei as duas últimas postagens da amiga Márcia Lailin (ótimas por sinal) ,e, com muito carinho irei postá-las no meu blog "Oficiodeescrever", inclusive com o belo comentário do Toninhobira.  Explico :-
"O Escritoslinguagemnocorpo tem um "foco" bem especifico, ou seja,  realização das propostas, dos exercícios, uma vez que se trata de uma Oficina de Literatura.  E se pareço exigente, "e sou", :o) é justamente para preservar essa "função" que, acredito,  nos instiga , nos motiva  a escrever... escrever.. escrever.... levando-se  em conta  a própria etimologia da palavra "exercício".

forte abraço,
sueliaduan



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O meio



No meio do caminho o meio.
o meio pelo caminho.
O caminho.
Caminho do meio.
Reconheço a trilha no tato.
E os fatos a guiar a vida.
Reconheço o conforto do meio.
O meio pelo caminho.
No meio do caminho o meio.
O caminho do meio.



Baseado em 
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Esperando a ocupação


Eram seis horas da manhã, dia 16. Não importava se ainda era cedo, muito cedo, e eu um exagero. Tinha justificativas: Iria fazer algumas coisas pelo centro. Rever os amigos; ficar algumas horas em algum sebo do centro velho e depois seguir caminhando até a Paulista. Sentaria na biblioteca da casa das Rosas e ficaria esperando o dia terminar e o começo da noite chegar. Assim estava programado na minha mente e exatamente assim tudo aconteceu.
O tempo demorou tanto pra passar... Para esquecê-lo lia o livro do desassossego de Fernando Pessoa enquanto anotava algumas frases. Uma forte chuva começou a cair e eu já em arrependimento: Por que havia dito sim? Por que havia dito que viria? Por que essa horrível mania de ter compromisso com aquilo que falo? Por que não fiquei em casa ou junto com Ana massageando seu braço e sua perna inertes, depois do trágico AVCI? Talvez fosse mais produtivo... Depois de um dia como esse eu apreciaria uma deliciosa taça de champanhe. Nem tudo estava perdido. Pensando nisso cruzei a rua em ziguezague e entrei.

Sentada na sala de espera, fitei absorta uma mulher acomodada na primeira fila. Era-me como uma pessoa conhecida. Seria ela uma daquelas pessoas com quem eu falava tarde da noite no facebook em meus excessos de despertar? Seria ela Sueli a escritora? Reflito enquanto imagino como seria a aparência de um escritor. São eles humanos? Subumanos? Ouço alguém perguntando: Onde vai ser a ocupação? Uma voz responde: Lá dentro. Lá dentro onde? Penso.
E súbito, fitando as pessoas que chegavam, refleti em quanto tempo fazia em que realmente desejei ser como um deles. Uma figura singular e glacial. Simplesmente extraordinária – simplesmente espantosa! Como Saramago, como Virginia, como Clarice, como Poe, como Baudelaire... Ali estava eu uma mulher havia já longos anos; desejando ser conhecida pelo direito e pelo avesso, por cada curva da minha letra e cada mudança de direção de minha voz; minha paixão por livros, minha ridícula maneira de andar, as manchas do sol em meu rosto, a extrema insignificância de minhas mãos, minhas pernas, meus cabelos presos em coque e minha extrema aversão a tudo que não fosse poesia.
Nesta altura a sala estava ficando lotada. E eu não podia deixar de refletir nesse instante em como tudo aquilo era extraordinário! Ali estava toda aquela boa gente transitando por mim se abraçando, se beijando, vozes se faziam ouvir enquanto eu escrevia devagar em meu livro de anotações: “Não conheço ninguém. Ninguém para dizer: Olá que bom te ver por aqui! Não tenho ninguém para abraçar. Ninguém para beijar. Por isso não. Abraçarei a mim mesma. Beijarei a mim mesma. E tudo acabara em alegrias. Sim: em alegrias”.
Percebi que a multidão começou a ser conduzida para o fim da sala. Parece que iriamos enfim realizar a nossa ocupação. Então, eu segui a multidão em minha servidão de passagem. Seguia em uma lenta arremetida como mosca. As luzes se apagaram e na semiescuridão ouvi a voz de um homem que dizia: “Mosca ouro/mosca forca/mosca prata/mosca preta/mosca íris/mosca reles/mosca anil/mosca vil/mosca azul/mosca mosca...” (Haroldo de Campos)

Mlailin


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Um homem passou ao meu lado"

A cidade em volta era um barulho estonteante
Alto, sorridente, deslumbrante.
Um homem passou ao meu lado
Levantando sutilmente a camisa

Forte, musculoso tendo o peito de rocha.
Eu comia absorta em meu delírio
No seu sorriso, inferno que nasce o abismo.
A dor que sucita o arrepio que provoca

Um encontro, quase esbarrão,
Para onde iria?
Fugidia beleza daquele olhar

Que me fez renascer.
Ele que para longe seguiu
Ele que eu teria amado


Baseada
em:
A uma passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! — Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado — e o sabias demais!

Charles Baudelaire
tradução Paulo Menezes
 sueliaduan


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Parodiando ou parafraseando...

"Oferenda"

Eu não queria versos findos...

Trago-te estas folhas vazias

Que irão dar formas aos teus devaneios.



Oferenda
(Mário Quintana)


Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.