quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O meio
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Esperando a ocupação
Eram seis horas da manhã, dia 16. Não importava se ainda era cedo, muito cedo, e eu um exagero. Tinha justificativas: Iria fazer algumas coisas pelo centro. Rever os amigos; ficar algumas horas em algum sebo do centro velho e depois seguir caminhando até a Paulista. Sentaria na biblioteca da casa das Rosas e ficaria esperando o dia terminar e o começo da noite chegar. Assim estava programado na minha mente e exatamente assim tudo aconteceu.
O tempo demorou tanto pra passar... Para esquecê-lo lia o livro do desassossego de Fernando Pessoa enquanto anotava algumas frases. Uma forte chuva começou a cair e eu já em arrependimento: Por que havia dito sim? Por que havia dito que viria? Por que essa horrível mania de ter compromisso com aquilo que falo? Por que não fiquei em casa ou junto com Ana massageando seu braço e sua perna inertes, depois do trágico AVCI? Talvez fosse mais produtivo... Depois de um dia como esse eu apreciaria uma deliciosa taça de champanhe. Nem tudo estava perdido. Pensando nisso cruzei a rua em ziguezague e entrei.
Sentada na sala de espera, fitei absorta uma mulher acomodada na primeira fila. Era-me como uma pessoa conhecida. Seria ela uma daquelas pessoas com quem eu falava tarde da noite no facebook em meus excessos de despertar? Seria ela Sueli a escritora? Reflito enquanto imagino como seria a aparência de um escritor. São eles humanos? Subumanos? Ouço alguém perguntando: Onde vai ser a ocupação? Uma voz responde: Lá dentro. Lá dentro onde? Penso.
E súbito, fitando as pessoas que chegavam, refleti em quanto tempo fazia em que realmente desejei ser como um deles. Uma figura singular e glacial. Simplesmente extraordinária – simplesmente espantosa! Como Saramago, como Virginia, como Clarice, como Poe, como Baudelaire... Ali estava eu uma mulher havia já longos anos; desejando ser conhecida pelo direito e pelo avesso, por cada curva da minha letra e cada mudança de direção de minha voz; minha paixão por livros, minha ridícula maneira de andar, as manchas do sol em meu rosto, a extrema insignificância de minhas mãos, minhas pernas, meus cabelos presos em coque e minha extrema aversão a tudo que não fosse poesia.
Nesta altura a sala estava ficando lotada. E eu não podia deixar de refletir nesse instante em como tudo aquilo era extraordinário! Ali estava toda aquela boa gente transitando por mim se abraçando, se beijando, vozes se faziam ouvir enquanto eu escrevia devagar em meu livro de anotações: “Não conheço ninguém. Ninguém para dizer: Olá que bom te ver por aqui! Não tenho ninguém para abraçar. Ninguém para beijar. Por isso não. Abraçarei a mim mesma. Beijarei a mim mesma. E tudo acabara em alegrias. Sim: em alegrias”.
Percebi que a multidão começou a ser conduzida para o fim da sala. Parece que iriamos enfim realizar a nossa ocupação. Então, eu segui a multidão em minha servidão de passagem. Seguia em uma lenta arremetida como mosca. As luzes se apagaram e na semiescuridão ouvi a voz de um homem que dizia: “Mosca ouro/mosca forca/mosca prata/mosca preta/mosca íris/mosca reles/mosca anil/mosca vil/mosca azul/mosca mosca...” (Haroldo de Campos)
Mlailin
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
"Um homem passou ao meu lado"
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Parodiando ou parafraseando...
Eu não queria versos findos...
Trago-te estas folhas vazias
Que irão dar formas aos teus devaneios.
Oferenda
(Mário Quintana)
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Cubra-me de pedras
Coroai-me em verdade,
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
domingo, 6 de fevereiro de 2011
"A Paródia" (uma relação intertextual)
Nela o autor retoma o que foi dito ou escrito por outra pessoa e modifica a mensagem com o objetivo geralmente crítico-humorístico de contestá-la, de ridicularizá-la. Um bom exemplo é o poema Canção do exílio, de Murilo Mendes, AQUI.
Nota-se que a paródia de Murilo quer ridicularizar o texto de partida (de Gonçalves Dias), afirmando que no Brasil a elite come maças importadas, nas árvores cantam pássaros estrangeiros, os poetas mulatos querem ser mais do que realmente são, os militares se metem a ser pintores de vanguarda, os pensadores se vendem etc.
DATA DA POSTAGEM 21/02/2011
PROPOSTA
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
As Tais Recomendações!

Distrair-se! Fazer o que ama! Preencher o Tempo Vazio! Aproveitar a Vida! Rir Mais! Não levar tudo tão a sério! Reescrever a própria história a cada dia! Mas, se por ventura, nada disso resolver é bom ter mesmo sempre à mão uma caixinha daqueles de Tarja Preta.
Preta mesmo: a lembrança da roupa utilizada no velório. Preta Mesmo: Luto!
Lutar para esquecer esse episódio também entra naquelas tais recomendações. Para esse fato não há remédio não, nem receita pronta, nem ocupação de corpo, alma, tempo, mente.
Mente quem diz que passado não interfere no presente. Mente quem diz que lembranças são apagadas com o tempo. Mentem ainda mais os que acham que as apagam . Lembranças do passado, de ontem como queiram estão inerentes ao dia de hoje. Hoje: Presente!
Encontrar poesia nas lembranças de ontem é começar a rascunhar a história de hoje. Tudo é uma questão filosófica. É preciso galgar o meio da estrada! O meio é o que determina o presente, o agora, o já. Porém, naturalmente existira possibilidades de se olhar para trás. Lá terá sim: "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", existirá também: "Cem Anos de Solidão". Mas, ao olhar desse meio tem se a vantagem de enxugar as lágrimas e recontar tudo construindo sim uma nova versão. Versão essa que faz encontrar no já, no agora, no imediato: "Um olhar para Os Lírios do Campo" e busca inocente a "Noites Brancas".
É preciso então deixar de se preocupar com os passos rápidos. Vai-se vagarosamente , pois , ao fim desse caminho há de se entender que é preciso viver e viver é ter sim de se esbarrar com o passado. É preciso agradecer aos psicólogos por suas receitas , porém, vale prescrever a eles que também têm passado que o melhor mesmo é colecionar lembranças e não descartá-las. Não se destrói jamais uma lembrança. Constrói-se a partir dela uma outra, uma obra.
De obra em obra, de vida, história e da trilogia Passado, Presente, Futuro aprende-se mesmo que no ápice de uma catarse prevalecerá de fato: "A Comédia da Vida Privada".
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Viagem Fantástica

De todo e qualquer ser humano,
Uma viagem pelo mundo afora.
Um sonho que todos fazem
E poucos conseguem realizar.
Porém após meditar... A vida,
O maior anseio para ser feliz,
É dar uma volta fabulosa
Em volta de si mesmo.
Descobrir quem sou, afinal!
Eu posso girar em torno de mim
E pensar, ver, observar e definir.
Mais que isso é decidir-me.
O mundo é belo visto por mim.
O meu interior adormecido
Não dá tudo que tem para dar.
Um espírito sem rumo, que pena!
É só decidir-me! É viagem grátis.
Tudo a fazer em prol de todos.
Missão esplêndida, meu Deus.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Simone
Não que fosse de todo diferente, tinha lá seus vinte dedos, seus dois peitos por inflar e algumas manias (rosnar à hora do angelus e uivar ao meio dia) como todo mundo tem suas manias. Mas, os avós, que a tudo julgavam ter visto, aquilo não tinham visto nunca, aquilo de uivar à mesa do almoço. O que se crê do que se viu, parece impossível do que nunca se viu, e não se vê por aí as coisas que nascem da impressionante habilidade de ouvir o que não se diz. E assim que ouvia as coisas não ditas, Simone queria dizer de volta, sem ver outro jeito entretanto: só se fosse latindo, sentindo uma partezinha da garganta que ou arranhava ou fazia cócegas e de cuja existência quase ninguém sabia. Isto fazia quando ninguém mais via: latia.
Os doutores eram unânimes em dizer que a coisa toda era psicológica. Os psicólogos eram unânimes em dizer que a coisa toda era esotérica. Os esotéricos eram unânimes em dizer que a coisa toda era física. Os físicos eram unânimes em dizer que a coisa toda era metafísica.
Outros que sabem (quem dera chegassem logo os que ouvem!) diriam que, Simone não falava porque ainda nem sabia latir, o que seria engraçado e do que os Outros Que Sabem ririam às pampas. Óbvio. Se Simone queria antes latir, antes não falaria nada, era, além de muda, coerente com seus princípios. Isso acertaram mesmo, que ela fosse coerente, tivesse olhos em brasa e dentro um grito preso, uma qualquer raiva que, com Simone, ao longo dos anos, ia crescendo.
Enquanto isso, a tudo assistia calada, aprendendo de cor todas as palavras também do inglês para latir em barks quando sozinha, sem ser incomodada.
Durou assim até a azeda festa de aniversário de seus 15, quando a irritou que sua mãe temperasse o bolo com lágrimas e tivesse ainda naquele dia entupido a minúscula sala com balões coloridos que ali pareciam os grandes invólucros dum velho desgosto. Não falou nem latiu. Não comemorou. Abriu a porta e saiu.
Sabe-se bem que as coisas das cidades são todas muito perigosas, que atrás dos postes podem se esconder os seres mais hediondos. A mãe de Simone não se conformava, de um tudo tinha tentado e,se agora se resignava, era porque dois calmantes faziam o bom efeito. Faltou-lhe um pai que chegasse e fizesse qualquer coisa. Era o que se ouvia entre o choro. Faltou-lhe um pai, repetia, aquele cachorro, repetia. Aquele cachorro.
Mas Simone já andava longe, já latia alto, já mijava nos postes e nos seres hediondos que atrás deles se escondessem. Quase como se tivesse pêlos, quase como se tivesse sido criada do nada, quase como se já estivesse na maior idade, quase como uma cadela vadia.
Só muito mais tarde, aos 80, ao meio dia, uivando seu último uivo entre os amigos de sargeta que com ela conheceram o mundo inteiro (Nova Yorks, Londres, Sidneys e Brasílias...) Simone se daria conta de que estivera fadada ao fracasso, não tivesse percebido cedo que a porta daquele minúsculo apartamento, naqueles velhos dias, sempre aberta, jazia.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A Inegável Verdade do Ser

Sermos o que somos e mesmo assim almejando sempre o que devemos ser. De fato, ser é essencial. Se não for, você não é e logo não será o que deveras deveria ser sendo assim nada mais do que nada. Nada além do nada. Se formos o que somos seremos. Mas o que devemos ser? Devemos ser o que se é e logo, nada mais é do que nós mesmo. Pois cada ser é um ser diferente em sua essência, sendo assim um ser a existir com a certeza daquilo que se é e que isso que se é, é o que deveríamos ser.
A menina
A menina atravessava a rua, mãos dadas com a mãe. Preparava-se para descer o meio-fio. Aguardava meu carro passar para só assim chegar ao outro lado.
Ali paradinha, olhando para os próprios pés, sorria. Indiferente ao transito, indiferente à correria do sábado. Indiferente à conversa dos pais, ao irmão que corria. A menina estava só, ria só. Um faz de conta. Uma história inventada.
Era princesa, era fada.
O carro passou, a menina atravessou, inventando sozinha. Um futuro, uma brincadeira. Um sonho.O tempo passa. A menina passou. O carro passou. O dia foi. O sorriso ficou.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Em quê?
domingo, 9 de janeiro de 2011
Poema em prosa
O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Uma conversa puxa outra... Uma idéia. ...
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Linha tênue.

A equipe passa rápido, logo em seguida, alguém empurra a maca. Sentada ali na sala de espera. Nem sabe ao certo a espera do que. Lembrou-se do passado. De quando em frente ao espelho "maquiava-se". Da vida agitada e entediante. Da vida agitada e interessante. Apenas um vacilar, um vacilar e tudo estava por um fio. A vida e a morte estavam ali face a face. E ela sentada a espera de algo. Três horas da madrugada foi o momento em que entrou por aquela porta. Um pouco embriagada acreditava. Bastante embriagada reconhecia. Extremamente embriagada admitiu!!! Na maca o tecido branco tornou-se vermelho. Cadê a equipe que não traz noticia? Lembrou-se do dia seguinte. O jornal estamparia na primeira capa: Acidente trágico. Vítima fatal! Vitima e fatal! Dois bons motes para se virar matéria de jornal. Bobagem, no jornal a escrita dela não teria espaço. Espaço no jornal só mesmo se a noticia for de morte. E ninguém vem lhe trazer a noticia que espera... Morreu, não morreu, ainda existe? Ainda existe, nessa sala, uma coisa que ronda os seus pensamentos. Como pôde ter feito aquilo? Essas roupas brancas levam-na a pensar coisas obscuras. Sim, ela sabe que é paradoxal. Mas, essas roupas brancas (nem tão brancas assim), visto que viu umas enfermeiras com umas camisetinhas bem amareladas. Teve vontade de dizer para “botar” de molho na cândida. Mas veja se são horas para se pensar nesse assunto? Veja se são horas para se pensar nas escritas dos jornais? Veja se são horas para se pensar em alguma coisa? Sentia-se lúcida. Ao mesmo tempo bêbada, pois só conseguia proferir pensamentos incompletos. As ideias dançavam e cintilavam em seu cérebro... uma euforia atraente.
Sete da manhã ainda a espera. Um café bem preto, bem forte, vai bem! Esse preto do café confunde ainda mais suas ideias. - Mais um café. - Tem com rum ou com vodka?
- Não . Isso aqui é um hospital!
12h. Tocam as badaladas. E ela aqui desde a ultima balada. Lá vem o medico.
- e aí Dr?
- Dr...? Tem certeza? Largue o café. Você precisa mesmo é de uma boa dose de glicose e na veia! Ao sair da sala sentiu que a espera...Essa espera...Esse local...Esse branco...O preto...As cores..Os pensamentos... O estresse...A embriaguez...Tudo isso acabaria em breve. Apenas uma dose de glicose e tudo isso ia para o espaço. Correu...Fugiu...Gritou... Xingou... Jogou a xícara no chão!
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Só souberam dela pela foto estampada no jornal. O título dizia: - Mulher descontrolada e embriagada faz escândalo!!!
Ao ler a noticia, riu. Riu escandalosamente. Imaginou como seria se eles soubessem que ela não tomava nunca em hipótese alguma, bebida alcoólica? Continuou a admirar sua foto.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
A queda diante da lei

Fui então conduzido à delegacia, para o registro da ocorrência. Entre pequenos furtos, uma briga de ex-casados, um adolescente e a diretora de sua escola, um patrão agredido pelo estágiário, entre tudo isso ouvi "terá de aguardar o escrivão". Eu ri, mas conservei a face séria. Assumindo a inexatidão da minha perícia ao dirigir meu popular (vê-se que mentir é escrever) não tive outra solução: cruzei as pernas, rememorei Bessie Smith e esperei. Passavam pernas fardadas, pernas enfaixadas, pernas com passos titubeantes -- talvez de algum algemado --, pernas bonitas, magras, gordas, brancas pretas amarelas. Meu coração não perguntou nada: "Nobody wants me round their door", cantava a rouca voz daquela negra e eu simplesmente acompanhava com o pé.
Perdi a noção de tempo (veja a mentira que é escrever!), mas continuei ali. Minha vista foi cansando daquelas lâmpadas fluorescentes, daquele constante murmurinho entrecortado por sirenes, lamentações e suplícios. Percebi que, aos poucos, meus cabelos foram tornando-se raros e, quando conseguia sentir uma mosca incomodando, meus movimentos faziam saltar fios brancos da minha cabeça. Abandonei os sapatos visando descanso: enfraqueci, é claro. A calça, dobrada até os joelhos, mostrava uma perna de onde pendiam peles ressacadas, como um tecido amarrotado depois de um longo dia de trabalho. E o jornal em que li a morte de um motociclista depois de um acidente com um carro datava de dezesseis anos atrás. A redação da notícia, imprecisa pela sanha de veracidade, dizia que o motorista do auto havia "evadido do local sem prestar socorro". Dada minha condição, não vejo opções a não ser acatar -- hoje sou um indiferente espectro na sala de espera de uma delegacia qualquer.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
A ânsia da idade
Ansiedade. Por quê isso agora? Porque não domino a arte de usar porquês? Embora escreva, ainda não sei ler, ou seria o inverso, ...possivelmente. Despir-me-ei de qualquer complexo do uso da linguagem e narrar-vos-ei-te meus calabouços de escritor falido e louco. Falido de nascido, e louco por maioria de votos. Aqui nesse banco de praça, ou seria a beira de um vulcão extinto? Instinto, é o que me faz escrever embora esteja eu a beira de um surto de genialidade. Sim porque para mim, o que virá vai me fazer bem, vai me trazer paz... vai me fazer enxergar,... as coisas como os outros não vêem, veem..? E quando eu enxergar tudo bem certinho, todos vão dizer que fiquei cego, mas na verdade mudo ficarei, me calarei para que não zombem de mim...












