Crio problemas. Que são grandes problemões. E pequenos problematicos E minúsculos probleminhas Crio problemas que são difíceis de serem resolvidos E que são quase sempre resolvidos E quase nunca solucionados Eu crio quase problemas, quase soluções, quase respostas Mas eu não crio o exato Eu crio palavras que são opostas as exatas E que são quase poesias E quase contos E quase romances Eu crio na verdade, sim! Crio problemas! Problemas entre as personagens que são quase conflitos E os conflitos são quase intrigas E as intrigas são quase desfechos E os desfechos são quase Quase incoerentes e quase coerentes E esses problemas todos são quase poemas, ou quase contos, ou quase romances, ou quase.... Sem respostas...por que eu disse..que crio sim, somente: Os problemas!!!
Caiu! Pronto, lá se vai minha única moeda pelo bueiro da cidade. E agora? Sei não, se não tivesse tanta gente na rua até me abaixaria para pegar, afinal, quero comer e o restaurante é logo ali na esquina, mas e se eu fise-se, que mau teria? É logico, meu leitor, que irão pensar mal de mim, afinal não é digno de uma pessoa enfiar a mão dentro de um bueiro sujo, fedido, escuro para resgatar uma única brilhante moeda perdida, além do mais, são pouquíssimas as chances de reencontra-lá, mas, não deveria tentar? Não sei, essa duvida pode até parecer absurda para você leitor ou leitora, mas veja, ou leia, pelo seguinte ângulo, se vou adiante ninguém notara a minha existência e nem serei taxado de alguma coisa porém passo fome o resto do dia, e se me abaixo e por um acaso ache minha moeda, como, mas viro motivo de anedotas, o que não quero. Desisto, vou adiante. Fui, passado alguns momentos de mais extrema fome e arrependimento, encontrei para o meu deleite uma moeda perdida, provavelmente de algum envergonhado como eu, logo em frente.
Todas as cidades as tem em seus mais diversos bairros, e elas, tal qual raízes de amargura e rastros de angústia, se vão multiplicando com o passar dos anos e das gerações. São restos de morbidez, fragmentos amontoados de infelizes instantes, espaços abandonados pelos resquícios de alegria. As insistentes recordações soturnas parecem flutuar em cada palmo de seu chão pisado por saudades. Nelas, até os gatos afogueados e os vira-latas deslumbrados se deprimem e passam correndo com medo do espectro da solidão quase vislumbrado na atmosfera lúgubre. Porque ali respira-se supremo abandono e inusitada velhice evanescente.
Como sorrisos apagados pelas tristezas constantes, as ruas melancólicas nascem denotando flores e, tempos depois, de inexplicável maneira, morrem exalando ervas daninhas. E tudo que nessas ruas outrora fora risos despencou para lágrimas cansadas, olhares esmaecidos, rostos desfigurados pela dor do nada, da insignificância explícita. Os olhos de quem por lá mora, abatidos, escondem tormentos indizíveis, quiçá assombros desconhecidos e misteriosos e sombras amortecidas quando fluem os ocasos desfigurados. Seus dias são de extrema solidão, da qual até a brisa se esconde espavorida deixando a sequidão de um sol em brasa também entregue ao ostracismo; já as noites escurecem desiludidas, transformadas em chagas num corpo doente pelo esquecimento da própria vida.
Há meros sinais de pobres silhuetas desamparadas nas calçadas nuas das ruas melancólicas, vêem-se muros borrados aqui e ali, paredes descascadas se destacam amofinadas em muitas casas insossas, cidadãos riscados do cotidiano lembram estátuas indiferentes aos pombos fazendo sujeiras sobre suas cabeças envelhecidas, tudo é quase um oceano de impropriedades repentinas. A impressão que se tem quando por lá somos obrigados a passar levados pela imprevidência é de um inesperado caos perfeito delineado por incontáveis destemperanças flutuando e surpreendendo. O anseio, por conseguinte, é dali desaparecer o mais rápido possível, desatar as amarras invisíveis a prender-nos e oprimir-nos, voar se condições para tanto houvesse. Permanecer nesse cenário impróprio, ainda que por uns míseros segundos, não é idéia das mais agradáveis.
Quisera não houvesse tais desenganos nas cidades que se deixam abater pelas incongruências de seus habitantes e terminam fenecendo em áreas indefinidas, tornando-se melancólicas ao longo do tempo. Por que elas são forçadas a desaparecer ante o desprezo de seus próprios habitantes ou a indiferença das autoridades responsáveis pela dignidade das cidades? As ruas melancólicas evidenciam-se como grandes feridas logo anacrônicas que jamais saram. Quem nessas artérias vive vai gradualmente morrendo parecendo nunca ter vivido.
E lá estava ela novamente olhando a vitrina. Uma compulsão tomava conta de todo seu corpo, frio e calor misturavam-se alternadamente. Não conseguia compreender tamanho fascínio pelo objeto exposto. Comprá-lo tinha se tornado uma obsessão. Era apenas questão de semanas. Mas, às vezes, um pensamento surgia rapidamente e junto uma sensação de que deveria protelar um pouco mais, pensar melhor, já que não via utilidade alguma nessa compra. Não era uma pessoa dada a caprichos e indecisão também não fazia parte de sua personalidade. Por que, então, não entrava na loja e acabava logo com essa aflição? Medo? Olhava o objeto delicadamente arrumado sobre a maleta preta. O tamanho perfeito, a cor prata brilhante conspirava e fortalecia seu desejo.
Nesse intervalo, no qual se permitia todos os dias, entre o caminho para o trabalho e a loja um mundo novo surgia. E, dia após dia ela se via de posse do objeto. Chegava à sua casa, tirava lentamente os sapatos, o casaco, a blusa, despia-se toda.
Livre deitada no chão duro, como numa relva, somente o silêncio como testemunha de seu corpo disforme.
A crônica é o relato de um flash, de um breve momento do cotidiano de uma ou mais personagens. O que diferencia a crônica do conto são o tempo, a apresentação da personagem e o desfecho.
No conto, as ações transcorrem num tempo maior: dias, meses, até anos, o que não se dá na crônica, que procura captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. No conto a personagem é mais analisada e/ou caracterizada, há maior densidade dramática e frequentemente um conflito resolvido em desfecho. Na crônica, geralmente não há desfecho, este fica para o leitor imaginar e tirar suas conclusões. Uma das finalidades da crônica é justamente apresentar o fato,nu, seco e rápido, mas não concluí-lo. A possível tese fica a meio-caminho, sugerida, insinuada, para que o leitor reflita e chegue a ela por seus próprios meios.
A título de exemplo: ─ você surpreende um garoto pobre tremendo de frio olhando fixamente um pulôver novinho na vitrina duma loja. Ora, isso dá uma excelente crônica. Você relataria o flash, a cena em si, mas não o desfecho: o menino comprou ou não o pulôver? Nada disso. Acabando de “pintar” o quadro, terminaria o texto, deixando ao leitor a tarefa de refletir sobre a miséria, a fome, a má distribuição de renda, a injustiça sócia etc. É essa, muitas vezes, a finalidade da crônica e a intenção do cronista. Seu texto não tem resolução, não tem moral como na fábula, é aberto para que cada leitor crie o final que melhor desejar. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor. A crônica, grosso modo, equivale à introdução dum texto dissertativo, sendo um meio-termo entre narração e dissertação.
DATA DA POSTAGEM- 22/06/2010
PROPOSTAS
1-Com base na cena “A”, redija uma crônica. Dê um título.
Ou pode optar pela proposta
2-Com base na cena “B”, redija uma crônica. Dê um título.
E eis que o carnaval acabou E uma dor quase física Tomou conta do meu coração
Ontem, eu fui feliz Gente... muita gente... Bagunça, confete e serpentina Cabelo emaranhado, corpo suado Samba no pé, extrema euforia Tudo era festa... Tudo folia...
E eu naquela alegria Contagiava a todos Arlequins, pierrôs e colombinas
E eu cantava... Sambava... Rodopiava... Pulava... Amava... Beijava... E não me cansava
Para mim, não existia Nenhuma sombra de tristeza Pois tudo era uma beleza... Ao desfilar na passarela Com a fantasia amarela Cantando desenfreadamente Ao lado de muita gente Que brincavam alegremente
Abriam alas a minha passagem Jogavam flores na carruagem E aplaudiam as minhas micagens
Finalmente A Quarta-feira de Cinzas chegou... Tudo acabou... Minha alegria me abandonou Minha voz emudeceu Meu sorriso se apagou Meus olhos não mais brilharam Não ouviram o meu cantar A ilusão se foi... E o meu pobre coração Com um dos pierrôs, folião... Ficou...
Ah Su queria postar aqui um monte de coisas... quanto mais me afasto da poesia mais atrelada a mim ela fica. Atitudes poéticas, difícil dizer o que pode ser poesia para cada um, é tão subjetiva que o objetivo pode parecer poético. Eu me encanto com tudo, um dos motivos pelo qual não dirijo. Sou incapaz de me manter focada em algo, me encanto com o caminho. Com gestos, com palavras ditas ao acaso, me encanto com um sorriso escondido nos lábios quando não era para ser notado. Ultimamente dei de me emocionar com a beleza. Mesmo quando ela não é para ser beleza e lá no fundinho eu encontro, ou junto todas as palavras e encontro beleza lá... me emociono de verdade, choro a cântaros, mas tudo bem, faz parte do ofício.
Então gostaria muito de colocar algo meu aqui, mas... o meu é tão eu... que me impossibilita de dizer então coloco Elisa Lucinda. Como adoro ver essa mulher... Adoro o que escreve... E ilustra um pouco do que disse acima....
Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua... Imagine uma cachoeira às avessas: Cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço Às vezes parece erva, parece hera Cuidado com essa gente que gera Essa gente que se metamorfoseia Metade legível, metade sereia. Barriga cresce, explode humanidades E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar Mas é outro lugar, aí é que está: Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente Que vai cair no mesmo planeta panela. Cuidado com cada letra que manda pra ela! Tá acostumada a viver por dentro, Transforma fato em elemento A tudo refoga, ferve, frita Ainda sangra tudo no próximo mês. Cuidado moço, quando cê pensa que escapou É que chegou a sua vez! Porque sou muito sua amiga É que tô falando na "vera" Conheço cada uma, além de ser uma delas. Você que saiu da fresta dela Delicada força quando voltar a ela. Não vá sem ser convidado Ou sem os devidos cortejos.. Às vezes pela ponte de um beijo Já se alcança a "cidade secreta" A atlântida perdida. Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela. Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas Cai na condição de ser displicente Diante da própria serpente Ela é uma cobra de avental Não despreze a meditação doméstica É da poeira do cotidiano Que a mulher extrai filosofando Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso Julgando a arte do almoço: eca!... Você que não sabe onde está sua cueca? Ah, meu cão desejado Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir Então esquece de morder devagar Esquece de saber curtir, dividir. E aí quando quer agredir Chama de vaca e galinha. São duas dignas vizinhas do mundo daqui! O que você tem pra falar de vaca? O que você tem eu vou dizer e não se queixe: Vaca é sua mãe. de leite. Vaca e galinha... Ora, não ofende. enaltece, elogia: Comparando rainha com rainha Óvulo, ovo e leite Pensando que está agredindo Que tá falando palavrão imundo. Tá, não, homem. Tá citando o princípio do mundo!
Segundo Ezra Pound, aqui , a linguagem se carrega de significados principalmente de três maneiras:
● Induzindo correlações emocionais pelo som e pelo ritmo
●Trazendo um objeto para a imaginação visual
●Produzindo associações emocionais e intelectuais
Esses procedimentos não são usados separadamente. Todos eles contribuem para a significação do poema.
O poete é um inventor que usa palavras.
“Compreendi [...]que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”
(Manuel Bandeira, ‘Itinerário de Pasárgada’, in ─ ,Poesia completa e prosa, p.40.
Riscos de giz ao chão, definem sua vida, sua estrada, seu caminho está ali guardado num emaranhando de lembranças, que nem sequer sabemos ao certo o que foram. Riscos de giz ao chão, demarcam um mundo onde cada um viveu e vive, mostra um mundo único, onde cada um reside, eu no meu mundo e você no seu, que entram em colapso, a partir do momento em que os riscos de giz ao chão, brancos, esfumaçados, concretos, se tocam e sua linguagem, clara e objetiva, demonstra a tudo e a todos de forma inteligível o que nosso pensamento inconstante e nossas lembranças conseguem embaralhar e esquecer com tanta facilidade, nossa vida. Estes mesmos riscos de giz ao chão, que num olhar de um desconhecido podem lhe parecer um tanto singelos, são na verdade, muito mais que apenas riscos, são obras de arte, manifestos de vida em uma linguagem universal, a escrita, palavras, são o que são, esses riscos de giz ao chão
Ali sobre o móvel. Tanto movimento, tanto a se dizer, ali sobre o móvel, intocado, intácto. Longe de ser manso, se entranha, arrebata. Ávido e se houver havido? Um livro, uma vida, um átimo de segundo. Aguardando o ato. Há tantos atos aguardados, ali, simplesmente guardados, sobre as páginas fechadas. Ali um livro sobre o móvel.
Utilizar a linguagem verbal para construir imagens que representam seres, objetos ou cenas é assumir a atitude lingüística da descrição. Nesses casos, você estará empenhando em transformar em linguagem aquilo que seus sentidos captam a partir da observação de um objeto, de um recorte da realidade que se quer fixar.
Elaborar um texto descritivo é apresentar um ser, um objeto, um recorte da realidade a partir de um determinado ponto de vista, ou seja, o objeto da descrição deve ser observado a partir de uma determinada posição física. O ponto de vista é fundamental. Fica evidente, pois, que um texto descritivo acaba transmitindo uma imagem que pode estar mais ou menos impregnada da postura pessoal do produtor do texto. Isso não é nenhum problema, pois um texto desse tipo pretende transmitir uma impressão geral, uma sensação dominante despertada pelo que se descreve, muito mais do que um retrato fiel. Apenas a descrição técnica busca uma objetividade absoluta — e, mesmo nesse caso, é praticamente impossível anular totalmente a interferência do produtor do texto. Não é muito comum produzirmos textos descritivos puros. Normalmente, o processo descritivo é incorporado ao narrativo (personagens/ambiente) ou ao processo argumentativo (dados).
Leia o belíssimo texto, “"Se eu fosse um pintor" , de Cecília Meireles. Ela nos fala de uma limitação expressiva dos pintores: a impossibilidade de fixar o pensamento humano.
PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM- 19/04/2010
Elabore um texto descritivo. Pense na melhor forma de transpor o limite expressivo vivenciado pelos pintores,e citado por Cecília Meireles. Como seria? Leve em consideração: ─ a maneira que você quer apresentar o que está observando, os detalhes e o tipo de impressão que quer transmitir.
Acabo de abrir a janela e perceber que já estamos, de novo, em pleno outono. É outono também em minha vida e em meu coração. Coração repleto de saudades; saudades de ti e de mim mesma.
Na nossa velha vitrola pus pra tocar o nosso velho disco de Bob Dylan, já arranhado pelo tempo. A beleza das manhãs de abril já se anuncia. Diante de nossa janela, árvores peladas, o chão repleto de folhas secas e aquela ventania, vinda não sei de onde. Varrendo as ruas, causando reboliços, revirando folhas, levantando bingas de cigarros apagados, um brinco caído da orelha de alguma moça distraída, um papel de bombom sonho de valsa. De novo o vento assobiando velhos e bisados enredos.
O vento me traz de volta você. Seus cheiros, o gosto do seu beijo, seu toque amoroso e quente. Alisa minha pele ainda branca. Alisa tanto, mas tanto meu amor, que a sinto sem nenhuma ruga, nenhum vinco, nenhuma pinta ou marca que denuncie a passagem do tempo. Apenas como a deixava: úmida, pelos arrepiados, exalando desejos. Esta ventania me convida a revisitar outros tempos. Tempos de cabelos e emoções desalinhadas. Sinto sua presença, mas hoje a sinto como a senti pela primeira vez, lá nos dias do nosso começo.
A ventania começa também dentro de mim. Um vento que sussura baixinho e ininterruptamente a palavra saudade.... saudade..... saudade.
A força da junção de ambos, do vento que entra pela janela ao que nasce de dentro de mim, parece invadir, tomar conta do nosso quarto e abrir nosso antigo baú. Faz deitar em meu colo uma velha caixa de recordações. Levanta, de forma inesperada, a tampa da caixa. Desfaz o amarelado laço de fitas que envolve o maço de cartas de amor trocadas por nós durante anos. Cartas daquelas embaladas em envelope branco, barrado em verde amarelo, selo colado com a língua.
Ninguém mais escreve cartas, meu amor. Nossos netos só mandam emails e coisas ainda mais modernas que não sei entender. Mas não é igual: falta a letra, que é uma espécie de voz, uma fisionomia. Falta o cheiro da tinta, o papel, este pedaço da matéria que a outra pessoa tocou e pôs num envelope. Faltam os pequenos objetos que acompanhavam as cartas - um raminho seco, um recorte de jornal colado, um beijo dado em batom, um borrifo de almiscar displicentemente derramado. Falta o prazer de reconhecer o outro já no envelope. Adivinhar pelo número de páginas o tom da conversa: mais lento, madrugada adentro, ou mais fugidio, só para manter o carteiro empregado naquele dia.
Depois de reler algumas delas, a ventania agora coloca em minha mão a boa e velha caneta. E aqui estou, trêmula, tentando te escrever estas mal traçadas linhas.Espero que elas o encontrem bem, feliz, sonhando lindos sonhos de amor.
Amor de toda uma vida, a ventania, que tantos segredos nos revela, está passando. Hoje me trouxe um verso de Antonio Porchia.
"Estar en compañía no es estar con alguien, sino estar en alguien".
Devo apressar-me. Afinal, só conto com o vento para levar-lhe esta carta, esteja você onde estiver. Em breve seguirei também. Enquanto isto, ao fundo, Bob Dylan continua cantando para nós: “ the answer is blowing, is blowinnnnnnn in the Wind”
Para sempre sua, Vera
quarta-feira, 24 de março de 2010
Escrevo-lhe para dizer que as coisas aqui estão bem diferentes. Há dias, Beto não sai mais de casa. Diz sentir falta da sua pessoa. Não entendemos direito o por que você foi sem se despedir. Aqui em casa nós sempre, sempre pensávamos que você já fosse um membro da família. Isso acontece por sermos amigas de infância. Beto apegou-se com você. Ele disse que a casa não tem a mesma energia, nem a mesma alegria. Espero que você esteja bem. Espero que tenha partido sem se despedir apenas por falta de tempo, ou?? Disse ao Beto: - se bem conheço Marília foi embora sem avisar, pois, não gosta de despedidas...e também por ser bem chorona. Ele riu e confirmou a hipótese de ser isso mesmo. Amiga...embora tenha dito isso a ele. Não me convenci. Se puder mande-me uma carta, dê-me notícias. O Paulo tem ligado em casa e quer saber onde estás. Não dei teu antigo endereço, caso queira que dê, diga-me, ou melhor, escreva-me. Não sei também se essa carta encontrar-te-a no velho endereço, espero que sim. Aaaaa...Passei no Mestrado, nem acredito! Comprei aquele vestido que paquerava na vitrine já fazia uns dois meses. Não sei ao certo, mas, parece que o Diego está de flerte comigo. Menina do céu! O pai do Beto continua atrasando a pensão...pensando bem as coisas por aqui continuam iguais...exceto ressalvas: "Diego, Mestrado e vestido novo". O céu escureceu do nada e uma ventania chegou a bater fortemente as portas. Preciso terminar, pois, vou recolher as roupas do varal, antes que a chuva chegue. Um abraço forte amiga e que essa mesma ventania passe por ai e avise-lhe o quanto fazes falta por aqui. Dê-me notícias!
Como tem sido sua vida? Me conta, mesmo que não ache importante. Mandei arrumar o carro. Ficou bom, você tinha toda razão, estava precisando. Não entendo por que relutei tanto. Ainda não consegui ler Paixão Segundo G.H. e nem Relatos de um Náufrago, como me sugeriu certa vez. Ainda não me escolheram, mesmo sendo Clarice e Gabo. Pintei a casa. Laranja. Não como do poema "Impressionista" sempre amanhecendo. Entardecendo. Teria gostado, logo é noite. Refiz o jardim. Abandonei as orquídea, são melindrosas demais e sou por demais de incompreensiva para com elas. Hoje, cultivo as violetas, a janela da cozinha está florida, elas me dão a chance de acreditar que estou no caminho certo. Se falho, substituo por uma nova, já florida e tenho a impressão de que tudo continua sempre igual. Ontem encontrei aquele nosso amigo de longa data. Perdemos a intimidade. Senti essa perda, não somos mais crianças. Sabe, chego a conclusão, o tempo realmente passou, assim, feito ventania. E sigo assim. Como se nada nunca tivesse fim. Carinho.
O leitor ideal para o cronista seria aquele a quem bastasse uma frase.
Uma frase? Que digo? Uma palavra!
O cronista escolheria a palavra do dia: "Árvore", por exemplo, ou "Menina”.
Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.
Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.
Sem mais nada.
Até sem nome.
Sem cor de vestido nem de olhos.
Sem se saber para onde ia...
Que mundo de sugestões e de poesia para o leitor!
E que cúmulo de arte a crônica! Pois bem sabeis que arte é sugestão...
E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista.
Mas nem tudo estaria perdido para esse hipotético leitor fracassado, porque ele teria sempre à sua disposição, na página, um considerável espaço em branco para tomar os seus apontamentos, fazer os seus cálculos ou a sua fezinha...
Em todo caso, eu lhe dou de presente, hoje, a palavra "Ventania". Serve?
Mário Quintana. Porta Giratória-São Paulo, Globo, 1988. p. 83.
PROPOSTA
DATA DA POSTAGEM- 22/3/2010
1- Escreva uma carta de amor a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção, dos “insghits” que essa palavra desperta em voce.
Ou pode optar pela proposta nº. 2
2- Escreva uma carta a um amigo a partir da palavra “VENTANIA”, ou seja, de posse do sentimento, da emoção e dos “insghits” que essa palavra desperta em você.
"Escritos-Linguagem no corpo",uma busca, uma troca,um eterno exercício da escrita.
'Escritos-Linguagem no corpo"
É um blog voltado para os escritos de cada participante que mediante “orientações” previamente estabelecidas desenvolverá os trabalhos a serem postados.
Algumas explicações são necessárias, a começar pelo título. Optei por “no corpo” ao invés de “do corpo”, uma vez que trazemos marcas escritas em nossos corpos, fruto de nossas experiências. É o corpo também do próprio blog e tantos outros corpos-símbolos, além do corpo da linguagem: o corpo do corpo no corpo.
A imagem superior é da capa do livro de Gilles Deleuze (Mil Platôs), escolha feita pela beleza em si mesma, mas principalmente pela grandeza da obra desse autor.
Sem pretensão alguma de “orientar”, mas sim sugerir algumas técnicas partindo da idéia de que estamos sempre aprendendo um com o outro, criei: “Escritos”.
A proposta (adorei) foi uma sugestão da Veroca, sabendo que sou professora e trabalho com Oficinas de Literatura me incentivou e (depois de alguns ótimos blá-blá-blás) chegamos ao blog.
Contudo, longe de mim essa coisa professoral (rs). Minha opção é sempre pela Oficina onde a troca é a regra!!!
sueliaduan-20/10/2009
Começaremos em breve... Espero